A data está marcada. Será dia 13 de agosto a final da Libertadores, quando o San Lorenzo receberá o Nacional, do Paraguai, no estádio Nuevo Gasómetro. Seja qual for o resultado, o campeão será inédito. O Cuervo tem a grande chance de sua história de quebrar a maldição que o assola de ser o único entre os grandes argentinos a nunca ter conquistado a Copa Libertadores. Até times considerados fora dos maiores, como o Argentinos Juniors, já levantaram a taça. Será o momento de triunfar, tirar a zica, quebrar o feitiço, fazer como Corinthians e Atlético Mineiro nos últimos dois anos e colocar o troféu mais importante da América nas suas glórias. Mas o caminho até esse ponto foi de altos e baixos e o time entendeu que precisa fazer suas suas cicatrizes lembranças para não deixar que o sonho se torne um fardo pesado demais a carregar.

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A final da Libertadores é tão curiosa que foram os dois piores classificados entre os times que chegaram ao mata-mata. Ambos ficaram em segundo em seus grupos e foram os dois que ficaram mais embaixo na classificação. O mata-mata, porém, permite crescer até os céus. E além. O San Lorenzo só poderia decidir em casa contra um adversário, justamente o Nacional do Paraguai. Os paraguaios não decidiram em casa em nenhum dos confrontos, mas venceram Vélez Sarsfield, Arsenal e Defensor no caminho. O San Lorenzo tinha eliminado Grêmio e Cruzeiro nas duas fases anteriores e tinha o Bolivar, primeiro boliviano semifinalista da história, nas semifinais.

O time que surpreendeu pelo futebol e, além disso, teve a altitude de La Paz a seu favor. O Ciclón passou como um trator no jogo de ida, fez 5 a 0, e tratou de entrar em campo na quarta-feira só para administrar o resultado. O Bolívar merece os elogios. Teve postura de um time grande, foi para cima, tentou sufocar o adversário desde o primeiro minuto em campo. Sabia que precisava, e muito, do terror da altitude para um milagre. Mas querer um milagre contra o time do Papa parece uma heresia.

Se faltou alguma qualidade em alguns momentos, não faltou nem organização, nem vontade ao Bolívar. Só que o San Lorenzo, mais do que qualquer um nesta Libertadores, parece saber precisamente o seu próprio tamanho, suas qualidades e seus defeitos. Sabe do peso da sua história, da sua camisa, da sua maldição. Do peso de anos, décadas sem vencer a Copa, o título mais importante, enquanto todos os outros grandes argentinos já alcançaram essa glória. Sabe que não bastam só bons jogadores, tanto que impôs derrotas a Grêmio e Cruzeiro, individualmente muito melhores.

Em La Paz, o San Lorenzo passou pelo último teste da sua trajetória complicada na competição. O time de Edgardo Bauza teve momentos muito ruins na competição, ficou seriamente ameaçado da desclassificação e arrancou uma vitória convincente contra o Botafogo, na última rodada da fase de grupos, para avançar, em segundo lugar. Só que times de futebol muitas vezes se formam durante a competição e, nas dificuldades, crescem e se tornam muito difíceis de serem batidos. O San Lorenzo, a cada vitória, sentia a sua própria força, sentia a fé da sua torcida. Sentia que a sua força mística crescia a cada minuto, a cada classificação, a cada gol, a cada explosão de alegria da torcida.

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As brincadeiras sobre o Papa estar ajudando pareciam só isso mesmo, uma brincadeira. A cada vitória, a intervenção divina parecia mais presente. E no futebol não há ateus. Não nos 90 minutos em campo. Não nas arquibancadas. Não em frente à TV. Não quando o grande sonho do time está ali, dentro do campo dos sonhos. Não há um torcedor que não olhe para os céus, esperando uma ajuda, pequena que seja, para que ele não perca a fé. Vencer o Grêmio em casa, perder na Arena do time gaúcho e passar nas penalidades foi uma forma de testar toda a fé dos Cuervos. E eles avançaram. E por pior que o time seja, por mais defeitos que os torcedores encontrem, a fé é sempre uma chama forte, que não se apaga nem nos dias mais frios do inverno que todo torcedor já sentiu que seu time passava.

Se classificar nos pênaltis é um pouco parte do que somos na América do Sul, glória e tragédia, choro, explosão, sentimento. Ninguém em sã consciência quer passar pelo medo que nos corta a alma como navalha, mas o torcedor de futebol tem um pouco de sadomasoquista. Gosta de ganhar sofrendo pela emoção que proporciona, assim como gosta de ver os outros sofrendo só pelo prazer de assistir a uma disputa de penalidades. A emoção da vitória é um orgasmo coletivo, mas o caminho até lá é perigoso e sufocante. Nenhum torcedor consegue respirar bem quando o seu time decide o destino nas cobranças de 11 metros. Ninguém consegue ficar calado depois de conquistar uma vitória assim. No seu âmago, o grito chega antes de alcançar as cordas vocais.

Só que se as penalidades são terríveis para os corações dos torcedores, elas são marcas que fazem do time muito mais forte. Ao menos para aqueles que sabem sofrer, sabem sentir essas dores e criam cicatrizes para que nunca se esqueçam como chegaram ali (vale para você, Seleção). O San Lorenzo não esqueceu, fez do Cruzeiro, o mais badalado time brasileiro, mais uma vítima. Venceu novamente em casa, como se tornou padrão na campanha no mata-mata. Fora de casa, as força de quem sabe as próprias limitações, a humildade de quem sabia que precisaria trabalhar muito para anular o adversário e a competência de quem sabe como fazer tudo isso com maestria.

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Jogadores do San Lorenzo agradecem o apoio dos torcedores em La Paz: Ciclón finalista (AP Photo/Juan Karita)
Jogadores do San Lorenzo agradecem o apoio dos torcedores em La Paz: Ciclón finalista (AP Photo/Juan Karita)

Quando começaram as semifinais, no dia 23 de julho, o San Lorenzo era outro time. Não só porque houve a parada da Copa e os times tiveram muito tempo para trabalhar, mas porque o seu tamanho era totalmente diferente de quando começou a disputa das oitavas de final. O azarão virou bicho papão. Jogar no Nuevo Gasómetro, com a torcida, renovada na fé, cheia de esperança e apoiando o time como nunca, virou uma missão que o Bolívar não foi capaz de encarar. Os 5 a 0 do Ciclón no primeiro jogo fizeram do time um finalista antecipado, mas o capítulo de La Paz foi importante para selar a maturidade de um time que tem tudo para levar o título.

Contra o Nacional, o San Lorenzo entra em campo do mesmo modo que foi contra o Bolívar. De Davi, o time passou a Golias. De azarão, passou a favorito. Bauza parece ter dado ao time a dimensão correta do que significa esse título para a história do San Lorenzo. Os jogadores parecem jogar conscientes que não podem tirar os pés do chão, porque carregar a cruz da maldição de anos de história é uma tarefa árdua e qualquer vacilo pode significar sucumbir. E quando se cai no papel de Golias, a queda é muito maior. O San Lorenzo sabe que tem a chance da sua vida da glória eterna. Resta saber se saberá aproveitar o seu tamanho para alcançar o posto mais alto, ou sentirá o peso da tradição envergar suas costas.

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