O Santos, definitivamente, havia apertado o botão do aleatório na escolha de seu novo técnico. Segundo os setoristas do clube, a diretoria botava à frente Ariel Holan e Dunga, dois treinadores cuja única semelhança é a função que poderiam desempenhar na Vila Belmiro. A roleta russa evidenciava que, acima de uma filosofia de jogo, o Peixe estava interessado em um nome. E, entre as limitações do mercado, achou uma opção bastante interessante. Após alguns dias de namoro, Jorge Sampaoli foi oficialmente apresentado.

A Sampaoli, o Santos surge como uma oportunidade de se reerguer. Depois da campanha desastrosa na Copa do Mundo, por tudo o que envolveu a Argentina, estava claro que o comandante não conseguiria assumir tão cedo uma seleção de ponta. Seu nome até foi dado como certo no Paraguai, mas não vingou. A quem surgiu como salvador da pátria ante a campanha cambaleante nas Eliminatórias, os tumultos nos bastidores albicelestes mancharam a imagem do treinador. Da bagunça em campo à rebelião dos jogadores, tudo deu errado ao técnico na Rússia. Terminou o torneio como um homem solitário, derrotado não apenas pela França nas oitavas de final.

Desta maneira, o treinador que chegou a ser a grande vedete do futebol sul-americano (e brasileiro) alguns anos atrás, testado na Europa e protagonista de uma temporada razoável com o Sevilla, reduziu sua pedida salarial. Sampaoli virou um nome acessível no mercado. Mais do que dinheiro nos bolsos, quer uma chance de demonstrar que ainda é um técnico capaz. E, neste sentido, o Santos não deixa de ser um atrativo. Um clube de história ampla, com aura especial no continente, que busca sua reafirmação. Cuca deixou o emprego vago após seus problemas de saúde e os alvinegros conseguiram encaixar o argentino em suas possibilidades.

O Santos precisa ter consciência que a chegada de Sampaoli deve ser apenas um passo. Como o próprio Cuca, que não fez milagre em 2018. O treinador até deixou o clube em uma posição confortável no Brasileirão, almejou a classificação à Copa Libertadores, mas teve um elenco deficiente à sua disposição. O rendimento alto dependeu de algumas peças individuais, bem como as funcionais adições de Carlos Sánchez e Derlis González para o segundo semestre. Ainda assim, pouco àquilo que o Peixe necessita, considerando os protagonistas que devem deixar a Vila Belmiro ao longo dos próximos meses.

A chegada de Sampaoli deve desencadear uma ideia. E um trabalho a longo prazo, como o treinador desempenhou na Universidad de Chile, seu grande projeto à frente de um clube. A característica principal com os Azules, além de aplicar uma ideia de jogo com DNA ofensivo, esteve em tirar o melhor dos jogadores de sua confiança. É necessário saber qual será a liberdade do comandante na montagem do elenco na Vila Belmiro ou mesmo da comissão técnica. Todavia, o Santos precisa ter consciência que, ao fechar com o argentino, não abraça um mero plano resultadista de curto prazo. Paciência será uma palavra de ordem. O primeiro semestre mais “brando”, sem a Libertadores pela frente, ajuda nisso.

Há ainda a barreira costumeira aos treinadores estrangeiros no Brasil. Osorio, Bauza, Gareca e outros renomados que passaram pelo país durante os últimos anos tiveram que encarar um imediatismo exacerbado. Com Sampaoli não deverá ser diferente, algo que pode pesar contra o seu estilo de jogo. Ao menos, a presença de outros latino-americanos no elenco tende a ajudá-lo. A língua talvez se torne um obstáculo mesmo preponderante. A maleabilidade do argentino se dará sobretudo no trato com os atletas, e ainda mais em uma agremiação tão particular, na qual os pratas da casa são tão importantes e os prodígios da base se tornam tantas vezes cruciais para aperfeiçoar o grupo.

Entre as opções no mercado de técnicos, Sampaoli parece uma cartada digna. Levando em conta os dinossauros do futebol brasileiro e os novatos, o argentino oferece o olhar a outra direção. E depois da decepção vivida com Jair Ventura, limitado em seus planos, o novo comandante soa até mesmo como uma expansão da mente. Uma possibilidade de se valorizar aquilo que está raiz santista, de futebol ofensivo, de tratar bem a bola. Sampaoli tem este ímpeto, seguindo a cartilha bielsista, mesmo que não costume ser tão irresponsável na defesa. Seu Chile serve de exemplo neste sentido, registrando a histórica conquista na Copa América de 2015 e a inesquecível caminhada até as oitavas de final da Copa do Mundo de 2014.

Sampaoli, independentemente de tudo o que já foi dito, não deixa de ser um tiro no escuro. Qualquer técnico, em partes, acaba sendo um tiro no escuro. E o é ainda mais, ante as circunstâncias especiais que circundam a contratação do argentino. Os entraves internos do Santos irão continuar? O técnico poderá ser usado como um escudo pela diretoria? Quem serão os reforços do elenco? O salário do novato irá drenar o investimento em outras áreas? Interrogações inerentes, que se repetiriam com outros nomes e talvez se tornem maiores com o medalhão.

O ponto principal, contudo, está na própria visão de Sampaoli sobre si mesmo. E na maneira como o técnico irá lidar com o vexame à frente da Argentina. O respeito nos vestiários fica um pouco mais em xeque, diante do que foi exposto no Mundial. E a motivação do comandante precisará ser enorme para representar seu talento na casamata, algo também posto em dúvida após o que não aconteceu na Rússia. A Vila Belmiro será um laboratório para o argentino tentar se redescobrir. Para ver se o pesadelo terá fim e ele poderá se reerguer, pés no chão, botando no peito o emblema de um clube reconhecido mundialmente.

No fim das contas, será um teste para todas as partes. Mas, ponderando o que tem a perder e o que pode ganhar, a vantagem é evidente para o Santos seguir em frente com a empreitada. É um risco até fácil de se abraçar, após outras decepções recentes.