Depois de 101 dias da derrota da Argentina para a França nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018, o técnico Jorge Sampaoli deu entrevista para falar sobre a experiência dirigindo a seleção do seu país. Falou sobre a preparação, sobre Lionel Messi e comentou também sobre as reuniões com os jogadores, algo que causou uma certa repercussão sobre a sua falta de comando do elenco. A Argentina passou por momentos complicados na Rússia, com uma classificação sofrida e uma eliminação traumática diante da França.

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“Foi muito sofrido, não conseguimos aproveitar nunca”, disse Sampaoli, em entrevista ao jornal Marca. “Todos fomos muito honestos na contribuição, eu também. Eu coloquei muito coração e sentimento, mas não funcionou. Não acredito que eu tenha que me reprovar por alguma coisa”, continuou.

“Foi um ano de muita tempestade, exigência, obrigação e imediatismo. Nos preparamos muito bem para o Mundial, mas a Copa em si não foi tão boa. Cada partida era um sofrimento”, afirmou ainda o agora ex-técnico. “Nós e os jogadores estávamos obrigados apenas a ganhar. A mochila que este grupo carregava era muito pesada”.

O treinador, que tinha passado pelo Sevilla antes de assumir a seleção argentina, admitiu que não conseguiu levar o seu estilo de jogo à albiceleste. “A Copa do Mundo foi muito prematura. Havia jogadores que vinham do processo no Brasil [Copa 2014], com uma final nas costas e eu apostei no curto prazo por eles. Nós tínhamos uma lista de 100 jogadores para o curto, médio e longo prazo”, explicou.

A passagem de Sampaoli pela seleção argentina foi marcada também por boatos que os jogadores teriam se reunido com o técnico e feito exigências durante a Copa do Mundo. Perguntado sobre isso, o treinador admitiu que teve reuniões com os jogadores, sim, e, mais do que isso, defendeu a prática. Questionou a divulgação dos encontros. “O problema não são as reuniões, e sim que se tornem públicas”, declarou. “Eu acredito filosoficamente na participação e no compromisso. No futebol e na vida. Nos juntamos para buscar soluções, mas se isso acaba na sala de estar das casas porque a televisão diz ou na tela de um celular por uma rede social, aí acontece o contrário”.

Uma das cenas que ficou mais famosa durante a Copa foi uma conversa com Javier Mascherano, sabidamente um dos líderes do elenco argentino. Ele defendeu as conversas com o “Chefito”, apelido de Mascherano, que tinham o objetivo de “conseguir que a Argentina prosperasse como grupo”. “Busquei todas as maneiras para envolver o grupo, para que o jogador tirasse esse peso das costas de não ganhar, aquela ansiedade que impedia de se desenvolver individual e coletivamente. Além disso, Masche é um grande jogador de futebol”, explicou Sampaoli.

O capitão da Argentina era Lionel Messi, que Sampaoli fez questão de elogiar. Disse que o jogador era muito comprometido e que sofria quando não ganhava. “Messi vem de uma estabilidade muito grande no seu clube. Chega em seu país e tem que ganhar seja como for, com uma histeria coletiva muito grande. E se não ganha, sabe que virão muitas críticas. Assim, ele não pode nem jogar e nem desfrutar”, descreveu o treinador.

Desde a definição da saída de Sampaoli, foi escolhido apenas um treinador interino, Lionel Scaloni, mas ainda não há definição sobre o próximo treinador. Sampaoli pediu “organização, confiança ilimitada e saber que tudo requer um processo”. “Se não ganha a Copa América, deve-se manter o processo, não o romper. Se há confiança, é possível ganhar, ainda que seja mais tarde. Mas é preciso acreditar”, analisou.

Ainda sem definição sobre o seu futuro, embora se especule o interesse de clubes brasileiros em seu trabalho, Sampaoli deixou em aberto qualquer possibilidade. “Estou esperando basicamente um projeto que me faça aproveitar de novo do meu trabalho de técnico”, respondeu. “Quero uma equipe que me faça gostar do jogo que sinto. Sigo sendo um tipo apaixonado pelo ataque, que trata de ser protagonista, como foi no Sevilla, jogando de igual para igual contra qualquer time”, explicou ainda o treinador.

Apesar de se dizer atraído pelo trabalho cotidiano nos clubes, Sampaoli não descartou assumir outra seleção. Países como México e Colômbia estão sem técnico na América Latina. Precisará montar uma nova comissão técnica, uma vez que muitos dos que trabalharam com ele na Copa 2018 já estão trabalhando em outros projetos. “Estou armando uma nova equipe com as pessoas que ficaram. Vamos torcer para que em breve”, disse.