Por Matheus Laboissière

País localizado no Pacífico Sul, a leste de Samoa Ocidental, Samoa Americana é uma pequena ilha, com apenas 199 km² e 67 mil habitantes (dados de 2011). Território não-incorporado dos Estados Unidos – área controlada pelos ianques, mas que não pertence ao território estadunidense propriamente dito; por exemplo, o presidente é Barack Obama, mas os samoenses não votam nas eleições – desde 1899, Samoa Americana teve participação em algumas batalhas durante a II Guerra Mundial. Garotos de 14 anos foram treinados pela marinha americana a fim de combater japoneses, reparar navios e em apoio médico a feridos. Até hoje, inclusive, os samoenses lutam sob a bandeira dos Estados Unidos em suas guerras, como as de Iraque e Afeganistão. 

No que tange ao futebol, os samoenses também estão em conflito aberto permanente, mas a fim de melhorarem tecnicamente. A primeira partida disputada pela seleção data de 20 de agosto de 1983, quando Samoa Americana ainda nem era filiada à Fifa e a Confederação de Futebol da Oceania (OFC, em inglês), o que só aconteceria 15 anos depois, em 1998.

Naquele dia, os rivais de Samoa Ocidental venceram por 3 a 1, em casa, em partida válida pelos Jogos do Pacífico – o Pan Americano da região –, dando início à incômoda série de derrotas de Samoa Americana, quase sempre acompanhadas de goleadas. Aliás, o único triunfo da jovem seleção na história ocorreu dois dias depois da estreia, pelo mesmo torneio, diante da inexpressiva seleção de Wallis & Fortuna (3 a 0) – para se ter uma ideia, estes não disputam jogos oficiais desde 1995 e sequer são filiados a Fifa e a OFC.

Eliminatórias

Levando-se em conta os qualificatórios para mundiais, o desempenho de Samoa Americana é terrível. Em apenas 12 partidas – desde a edição para a Copa do Mundo do Japão/Coreia do Sul, em 2002 –, os samoenses só conhecem o desprazer da derrota. Os gols fazem parte da rotina do país, mas somente aqueles que balançam as próprias redes de Samoa Americana. Ao todo, a seleção nacional já sofreu 129 tentos, o que dá média de quase 11 gols por jogo.

Não se pode deixar de lembrar a histórica goleada sofrida diante da Austrália, durante as Eliminatórias para o Mundial de 2002. No dia 11 de abril de 2001, as três mil pessoas – público presente ao estádio Internacional de Esportes, em New South Wales, Austrália – devem ter sofrido com dores lombares ao se levantarem das arquibancadas por 31 vezes a fim de comemorar os gols dos Socceroos, 13 só do atacante Archie Thompson, maior goleador em um único jogo levando-se em conta partidas da Fifa.

Os gols da vitória da Austrália por 31 a 0

Naquela campanha, Samoa Americana levou 57 gols em apenas quatro partidas, além de não marcar nenhuma vez. A derrota de 5 a 0 para Tonga – menor revés no torneio – tornou-se motivo de orgulho para os estreantes samoenses, que ainda perderam para Fiji (13 a 0) e Samoa Ocidental (9 a 0).

Evolução

Nas eliminatórias para a Copa da Alemanha de 2006, Samoa Americana entrou em campo outras quatro vezes, igualmente derrotada em todas elas. Entretanto, havia algo a comemorar, já que o primeiro gol do país no torneio havia sido marcado, pelo meia Natia Natia, hoje com 27 anos, na derrota de 9 a 1 para Vanuatu. O número de gols sofridos também diminuiu – “apenas” 34 –, assim como o placar da menor goleada, 4 a 0 a favor de Samoa Ocidental. Fiji voltou a humilhar Samoa Americana (11 a 0), que ainda levou de 10 a 0 de Papua Nova Guiné.

Quatro anos mais tarde, no qualificatório para a Copa da África do Sul, Samoa Americana ascendeu um pouco mais. Levou 38 gols na campanha, é verdade, mas Ilhas Salomão, equipe de bom nível na Oceania, figurava no Grupo B. Inclusive, o segundo gol samoense na história das eliminatórias, marcado pelo atacante Ramin Ott, atualmente com 25 anos, ocorreu na derrota de 12 a 1 diante dos salomonenses. Nas outras partidas, reveses de 7 a 0 para Samoa Ocidental, 15 a 0 a favor de Vanuatu, mas apenas 4 a 0 diante de Tonga.

Esperança

Mesmo com retrospecto tão desanimador, a pequena ilha pretende juntar forças para acreditar em nova ascensão nas próximas eliminatórias, para o Brasil 2014. Samoa Americana começa, no próximo dia 22 de novembro de 2011, a disputa da Fase Preliminar das Eliminatórias da Oceania, contra Tonga. Esta etapa reúne as quatro piores seleções do continente (além dos dois supracitados, Ilhas Cook e Samoa Ocidental, dona da casa), que brigarão por apenas uma vaga à 2ª Fase do qualificatório.

Entretanto, será difícil para os samoenses conseguirem algo além de derrotas. Nos Jogos do Pacífico 2011, ocorridos entre 27 de agosto e 9 de setembro, que serviram de teste, o presidente da Federação de Futebol de Samoa Americana (FFAS, em inglês), Iuli Alex Godinet, em entrevista ao site oficial da OFC, até que estava confiante com a equipe convocada pelo técnico local Iofi Lalogafuafua, esperando uma boa campanha. Mas ela não se realizou por completo.

Pelo Grupo A, Samoa Americana voltou a perder todos os cinco jogos, sem marcar gols, além de sofrer 26, o que não deixa de ser evolução – na edição de 2007, foram 38 gols em quatro partidas. Perder de apenas 4 a 0 para Ilhas Salomão foi um presente divino, mas goleadas de 8 a 0 diante a favor de Vanuatu e Nova Caledônia, além de 2 a 0 para Guam e 4 a 0 contra Tuvalu – esta última não é filiada a Fifa – mancharam o desempenho samoense.

Novo comandante

Por esta razão, Iofi Lalogafuafua deixou a seleção e um técnico mais experiente desembarcou em Pago Pago, capital do país, de 11 mil habitantes (dados de 2000). Assim, o holandês Thomas Rongen, de 54 anos, foi contratado com a missão de continuar apontando o caminho do crescimento a Samoa Americana. Técnico desde 1984, Rongen comandou o Tampa Bay Mutiny, em 1996, na edição inaugural da Major League Soccer dos Estados Unidos, além de ter passado os últimos seis anos (2006-11) à frente da seleção sub-20 estadunidense.

“Demitido” no último mês de maio, Rongen ainda está sob contrato com a Federação de Futebol dos Estados Unidos (USSF, em inglês) e foi emprestado à seleção de Samoa Americana até o fim de 2011, quanto termina seu vínculo com a entidade estadunidense. O holandês, ex-meia e atacante revelado pelo Ajax, em 1975, disse ao site oficial da OFC que pretende fazer o melhor possível junto aos samoenses: “Espero que eu possa deixar algo de tangível para o futebol local”. Até o final de outubro, pouco menos de um mês antes do primeiro jogo pelas eliminatórias, Rongen terá de vasculhar os 15 clubes amadores da liga nacional de Samoa Americana e outros 2.038 atletas registrados na FFAS – de acordo com o site da Fifa –, a fim de encontrar candidatos a heróis. Trabalho árduo para o holandês, que terá de se ater a atividades simples do futebol.

Larry Mana’o, aconselhador técnico da entidade que rege o futebol samoense, observou a equipe nos Jogos do Pacífico 2011 e redigiu um relatório com suas anotações – publicado na página oficial da FFAS. Os principais pontos de destaque do profissional versam sobre a necessidade de os atletas treinarem mais “passes e controle de bola, táticas ofensivas e organização defensiva, além de terem mais rapidez na leitura do jogo”, entre outros pormenores.

Ou seja, cabe a Thomas Rongen passar um pouco de sua experiência de 13 anos como atleta profissional e de 27 nos cargos de treinador a uma das piores seleções do mundo – 203ª no Ranking da FIFA, com zero ponto. Se Samoa Americana marcar um gol ou até conseguir seu primeiro empate na história, já terá sido um feito enorme! Será que é possível este milagre acontecer?

Jogos de Samoa America na Fase Preliminar:
22 de novembro – Tonga
24 de novembro – Ilhas Cook
26 de novembro – Samoa Ocidental


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