Era 17 de maio de 2008 quando Kanu, o Perigoso, marcou o gol da vitória do Portsmouth sobre o Cardiff City, em Wembley. Outros nomes conhecidos vestiram a camisa azul naquele sábado de futebol: David James, Glen Johnson, Sol Cambpell, Lassana Diarra, Sulley Muntari, Niko Kranjcar e Milan Baros, opção do técnico Harry Redknapp para o segundo tempo. O título da Copa da Inglaterra foi a maior glória dos Pompeys desde o bicampeonato inglês em 1950. E a última antes de um processo de vergonhosa deterioração no qual o clube atrasou salários, perdeu pontos, trocou diversas vezes de dono, entrou em concordata e foi rebaixado três vezes em quatro anos. Resgatado pelos seus torcedores, no entanto, o Portsmouth finalmente conseguiu reverter a direção do espiral descendente em que havia entrado: nesta segunda-feira, venceu o Notts County, por 3 a 1, e conquistou o acesso à terceira divisão inglesa.

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Junto com o troféu da FA Cup, vieram duas boas campanhas na Premier League, com o oitavo lugar naquela edição e o nono na anterior. Havia potencial, mas a situação financeira era pior do que se imaginava, depois de gastos superiores a £ 70 milhões com reforços em duas temporadas. O clube foi comprado, em agosto de 2009, pelo empresário Sulaiman Al Fahin, dos Emirados Árabes, e vendido, quatro meses depois. Também em dezembro, foram anunciados dois meses de salários atrasados. Em fevereiro, um terceiro dono: Balram Chainrai assumiu o comando e explicitou o tamanho do buraco. Eram £ 135 milhões em dívidas, parte delas com o fisco britânico. O Portsmouth entrou em concordata e, pelas regras da Premier League, perdeu dez pontos na tabela. O rebaixamento, como lanterna, foi inevitável.

A primeira temporada na segunda divisão foi medíocre, mas aceitável, com o 16º lugar, que garantiu a permanência na Championship. Mas os problemas administrativos continuavam. O russo Vladimir Antonov comprou o Portsmouth, em junho de 2011, e o tirou da concordata. No entanto, Antonov foi investigado pelo Ministério Público da Lituânia e preso por crimes fiscais. Passou pouco tempo na presidência do clube, que novamente era cobrado por impostos não pagos pela Receita. Em 17 de fevereiro, veio a segunda falência em três anos. Mais dez pontos deduzidos da tabela. Mais uma queda.

  O Portsmouth já entrou na League One condenado a um novo rebaixamento. Começou a temporada com dez pontos negativos e sem elenco. A situação era periclitante. Mas os torcedores nunca abandonaram o clube, mesmo durante os piores momentos dessa fase negativa. A média de público nas duas temporadas da Championship foi de 15 mil torcedores. Mesmo a trágica campanha na terceira divisão não viu bilheterias muito menores: 12.232 mil por jogo. Isso em arquibancadas com capacidade máxima de 21 mil pessoas. O Fundo de Torcedores do Portsmouth entrou em acordo com Chainrai – protagonista da primeira concordata -, que cobrava dívidas na casa dos £ 12 milhões e havia penhorado o Fratton Park. Compraram o estádio, por aproximadamente um quarto desse valor, e o clube. A aquisição tirou o Portsmouth da concordata e  deu início a uma reconstrução tímida, mas sólida. 2,3 mil acionistas compraram 51% das ações, com investimento de £ 1 mil cada. Os outros 49% ficaram nas mãos de 11 presidentes do clube. As bilheterias continuaram a ser consideráveis, de volta à média de 15 mil pessoas por partida, e a situação financeira finalmente era saudável. Em campo, desfrutou do conforto do meio da tabela durante duas temporadas – 13º e 16º – enquanto colocava a casa em ordem.

 

A busca pelo acesso começou com a contratação de Paul Cook para ser o treinador da equipe. Cook vinha de um bom trabalho no Chesterfield: em três anos, conquistou a quarta divisão e foi sexto colocado na primeira campanha na League One – derrotado nos playoffs pelo Preston North End. A escolha deu resultado rapidamente. O Portsmouth foi sexto colocado na temporada seguinte, mas perdeu o mata-mata do acesso para o Plymouth. A chance de subir não voltaria a escapar.

A campanha começou mal, com dois empates e uma derrota, mas decolou na reta final. A vitória por 3 a 1 sobre o Notts County, nesta segunda-feira, foi nervosa. Gareth Evans abriu o placar para o Pompey, cobrando pênalti, mas Jorge Grant empatou. O Portsmouth voltou a ficar à frente apenas aos 32 minutos da segunda etapa, com Jamal Lowe. Lowe voltou a marcar, nos acréscimos, no sétimo triunfo em nove rodadas da sua equipe. Seus gols ajudaram a abrir dez pontos de distância para o quarto colocado Luton Town. A três jogos do fim, o Portsmouth não pode mais ser alcançado.

Mesmo antes do acesso, em setembro, o presidente do Fundo de Torcedores do Portsmouth já mostrava ambição. Queria abrir as ações para atrair mais investimento, com o objetivo mínimo de se tornar um clube fixo da segunda divisão e fazer melhorias no Fratton Park. O retorno à League One é um passo importante na reconstrução do clube, principalmente por ser o primeiro resultado concreto do resgate realizado pelos torcedores e a primeira vez que o Pompey movimentou-se para cima, em vez de para baixo, desde a queda da Premier League, sete anos atrás. A tendência se inverteu.