Ao longo desta década, o PAOK se restabeleceu como uma potência no futebol grego. Em tempos de penúrias econômicas no país, contar com o aporte de um magnata vale demais, e os alvinegros são um dos raros clubes com esta possibilidade. Em 2012, Ivan Savvidis não apenas evitou a bancarrota da agremiação, como também iniciou um período de prosperidade. A despeito das controvérsias ao seu redor, o empresário greco-russo trouxe estabilidade a Salônica e uma boa organização para que a equipe voltasse às cabeças. Desde então, a Dikefalos Aetos fez boas campanhas nas competições europeias e também conquistou o bicampeonato da Copa da Grécia, encerrando um jejum de 14 anos. Tornou-se a principal postulante a quebrar a hegemonia do Olympiacos na Super League. E se a tumultuada temporada de 2017/18 terminou com o título do AEK Atenas, por culpa do próprio Savvidis, desta vez não houve quem impedisse o PAOK. Depois de 34 anos, o clube fatura o Campeonato Grego. Com uma campanha invicta, a coroação provocou uma incendiária comemoração no Estádio Toumba. Digna da grandeza do feito.

No último ano, o PAOK ainda tentou se reivindicar como campeão nacional. Lamentou a perda de pontos nos tribunais durante o confronto direto com o AEK. Mas vale lembrar que a punição só aconteceu depois que Savvidis invadiu o gramado ao final da partida, armado, para intimidar o árbitro a validar um gol anulado de sua equipe. Diante do desgosto, restava aos alvinegros trabalharem duro e passarem por cima do episódio. O momento era favorável, afinal. Maior campeão da Super League, o Olympiacos atravessa uma renovação. O AEK ocupou o vácuo, mas não possui uma situação tão estável assim. O Panathinaikos sofre com sua própria crise, enquanto o Aris retoma seu espaço na elite após falir. Desta maneira, nenhum outro candidato à taça tinha a força do PAOK. Algo que se refletiu na tabela.

Apesar da fraca campanha na Liga Europa, o PAOK fez um bom papel nas preliminares desta Champions. Eliminou Basel e Spartak Moscou, derrubado apenas na última campanha classificatória diante do Benfica. De qualquer forma, ficava clara a prioridade ao Campeonato Grego e os alvinegros iniciaram a campanha em ritmo muito forte. Mesmo iniciando a campanha com uma punição de dois pontos negativos, a Dikefalos Aetos conseguiu se sobressair. Exorcizou seus fantasmas contra o AEK Atenas na quarta rodada e logo na sequência bateu o Olympiacos em Pireu. Depois de uma vitória sobre o Apollon, também superou o clássico contra o Aris e completaria o momento espetacular com o triunfo sobre o Panathinaikos. O primeiro tropeço aconteceu na nona rodada, empatando com o então vice-líder Atromitos. Ainda assim, uma sequência posterior de nove vitórias consecutivas já permitiu aos tessalonicenses abrirem oito pontos de vantagem no início do returno.

O desempenho a partir de fevereiro não precisou ser tão arrasador. Com um empate ou outro, o PAOK manteve a invencibilidade. Mais importante, manteve a gordura na ponta da tabela. O Olympiacos embalou e se tornou o principal perseguidor, mas a única derrota no segundo turno aconteceu justamente na visita ao caldeirão do Estádio Toumba, por 3 a 1. Um triunfo que foi fiel da balança, dando a chance do título aos alvinegros neste domingo. Pela penúltima rodada, eles recebiam o Levadiakos dependendo apenas do empate. Fizeram muito mais que isso, com uma inesquecível goleada por 5 a 0.

O final de semana inteiro seria especial ao PAOK. Neste sábado, o clube completou 93 anos de sua fundação. A torcida tomou as ruas de Salônica e iluminou toda a baía com sinalizadores. Um espetáculo belíssimo, que anteciparia o clima incendiário no Estádio Toumba. E não demorou para os anfitriões evitarem qualquer preocupação. Com apenas dez minutos de jogo, Evgeniy Shakhov e Diego Bisewar já tinham anotado dois gols. Triunfo que se ampliaria no segundo tempo, graças a Shakhov, Fernando Varela e Karol Swiderski. A loucura inflamou as arquibancadas bem antes do apito final. Ainda assim, o momento mais legal aconteceu em campo. Nos acréscimos, Vieirinha entrou no lugar de Dimitris Pelkas. Símbolo do clube, o jogador está em sua segunda passagem por Salônica. No entanto, o capitão sofreu uma ruptura ligamentar na rodada anterior. Passará algum tempo no estaleiro, mas teve o gosto de entrar só para levantar a taça, recebendo os aplausos de todos.

Além de Vieirinha, outra liderança importante no PAOK é a do técnico Razvan Lucescu. Filho de Mircea, o romeno assumiu o cargo após um bom trabalho à frente do Skoda Xanthi. Apesar da fogueira que queima os treinadores na Grécia com enorme voracidade, resistiu no cargo após o vice em 2018. Um voto de confiança para fazer história e elevar o nível de seu elenco. Além de manter uma média defensiva ótima, inferior a 0,5 gols sofridos por jogo, o ataque também acumulou goleadas na campanha, com a incumbência por balançar as redes se dividindo bastante. E dá até para sonhar com a dobradinha nacional. O PAOK está nas semifinais da Copa da Grécia e venceu a primeira partida contra o Asteras Tripolis.

Lucescu possui uma equipe competitiva em todos os setores. Alexandros Paschalakis é o titular absoluto no gol. A defesa conta com vários jogadores experientes, incluindo Fernando Varela, Vieirinha, José Crespo e o brasileiro Léo Matos. O meio-campo se aproveita da rodagem de alguns jogadores pelo futebol holandês, como Diego Bisewar, Omar El Kaddouri e Pontus Wernbloom. O volante Maurício, ex-Fluminense, também compunha o setor, até sofrer grave lesão. Já na frente, a artilharia é do sérvio Aleksandar Prijovic, de muita presença de área. Ao seu lado, Léo Jabá possui destaque, essencial por suas assistências. O jovem atacante é uma das revelações da equipe, assim como o ponta grego Dimitris Limnios, de 20 anos – outro de sangue brasileiro, filho de uma baiana. Os garotos na linha ofensiva representam a energia do grupo, com média de idade elevada.

Este time do PAOK já garante seu lugar na história. É apenas a terceira vez que o clube conquista o Campeonato Grego, repetindo os sucessos registrados em 1976 e 1985. Além disso, desde 1988 que a taça não ia para uma agremiação de fora da Grande Atenas – e apenas a sétima vez na história da competição que isso acontece, registrada antes também por Aris e Larissa. A costumeira bagunça do futebol local não garante muitas previsões. Escândalos são comuns na liga, por vezes envolvendo a briga pelo título. Todavia, pelo investimento e pela continuidade do trabalho, os tessalonicenses demonstram ter uma força para seguir no topo. Seu principal desafio será brecar a recuperação do Olympiacos. De qualquer maneira, neste momento, os alvinegros estão no direito de curtirem a glória que tanto esperaram. A noite deve ser muito longa no norte da Grécia e a semana certamente guardará um amplo feriado regional. Quem sabe, para os alvinegros pegarem gosto pelo feito e repetirem a explosão outras vezes mais.