O relógio cravava 23 segundos quando o árbitro Damir Skomina apontou para a marca da cal. O pênalti precoce assinalado pelo esloveno recaía como uma maldição sobre o Tottenham, ainda mais pela decisão dúbia. Do outro lado, surgiu como uma predestinação a Mohamed Salah. Privado da última decisão da Liga dos Campeões, após a dolorosa lesão provocada por Sergio Ramos, ele teria a bola em suas mãos. A bola que conduziu a final, graças ao chute forte do egípcio. Não seria o único agraciado pelo destino em Madri, porém. Afinal, os descaminhos do futebol parecem ter uma predileção particular por Divock Origi. Ele não brilhou em tantos momentos da temporada. Mas quando apareceu… Everton, Newcastle e Barcelona sabiam o tamanho de sua estrela. Os Spurs também descobriram. E o tiro fatal do belga, no cantinho, definiu o triunfo por 2 a 0. Um jogo em que os Reds não contaram com o seu melhor futebol, mas tiveram muito empenho e os golpes certeiros de dois “talismãs”. Dois nomes que ficam para a história.

Salah merece ser lembrado como um dos craques deste Liverpool. Um cara que mudou os rumos do clube, ao mesmo tempo em que redefiniu sua trajetória. A aposta era imensa quando o egípcio se mudou à Inglaterra, após o renascimento vivido na Itália. A desconfiança parecia natural, por não vingar no Chelsea. Em Anfield, as coisas seriam diferentes. O calor da torcida é maior, o plano de jogo é muito mais voltado ao ataque. E, entre muita coisa que se encaixou, o futebol do atacante atingiu um nível que talvez nem ele imaginava. A campanha em 2017/18 foi avassaladora, destroçada apenas pela final da Champions. Mas haveria tempo para se reerguer.

Um ano, para ser mais exato. Um ano para voltar à melhor forma física, para manter a sede de gols, para recobrar seu protagonismo nas grandes competições europeias. Salah não foi tão imparável, mas nem precisou ser. Desta vez, encontrou um conjunto mais equilibrado, em que outros apareciam mais constantemente em seu apoio. Apesar da artilharia, dá até para discutir se o egípcio se manteve como o melhor do ataque, diante da franca ascensão de Sadio Mané. Fato é que, com menos gols, não deixou de ser essencial. E foi em momentos notáveis, sobretudo na vitória sobre o Napoli na fase de grupos e na reta final da Premier League. O Faraó nem seria tão preponderante nos mata-matas da Champions, sobretudo por ficar limitado ao lado de fora no milagre contra o Barcelona. Sem qualquer vaidade, comemorou demais a classificação. Até aquela bola em Madri vir parar em suas mãos.

Certamente um turbilhão de pensamentos invadiu a mente de Salah, a 11 metros de distância de Hugo Lloris. Precisava expurgar os temores. Fez isso com um chute raivoso, com muita força, mesmo sem tanta direção. Não foi a melhor das cobranças. Porém, a bomba foi tamanha que o goleiro adversário não chegou a tempo nem quando caiu no canto certo. Precisou vê-la morrendo nas redes. Definitivamente, seria uma nova história, bastante diferente da vivida em Kiev. Salah não precisou de muito tempo para ter essa confirmação.

Não seria uma partida deslumbrante de Salah, cabe dizer. Mas foi determinante e abnegada. Depois do gol, ele muito arriscou, mas não geraria tantos perigos. Foi mais importante pela ajuda na criação, nas escapadas em velocidade. E, principalmente, na maneira como o Liverpool encarou a partida. Se os Reds precisavam segurar o resultado, era primordial marcar sem descanso. O exemplo começava lá na frente, com o camisa 11 caçando os calcanhares dos adversários. Esta pressão incessante facilitou muito o trabalho dos Reds, bem como anulou o jogo do Tottenham.

De qualquer maneira, a partida seguia por um fio. O Tottenham não impressionava, mas também não desistia. Jürgen Klopp apelou ao ritual que tanto reverteu o improvável nesta temporada do Liverpool. Chamou Divock Origi para o lugar de Roberto Firmino. Era uma alteração até óbvia, considerando as limitações físicas do brasileiro e sua falta de efetividade. Mais do que isso, parecia jogar com a sorte, diante daquilo que o belga representara no ano esplêndido dos Reds.

De jogador mal visto por boa parte da torcida e cotado como negociável pelo clube, Origi ganhou seu lugar como xodó. E não há melhor maneira para um atacante cair nas graças da galera do que os gols em grandes jogos. Quem se esquece do lance agônico contra o Everton na Premier League? Era só um prenúncio do que se consumou ao final da temporada. Quando a corrida alucinante contra o Manchester City se mantinha, ele mudou os rumos do jogo contra o Newcastle. Dias depois, faria o mesmo contra o Barcelona, agora como titular. Reavivou as esperanças logo no início e sacramentou a façanha nos instantes finais. Que seus tentos sequer enchessem os dedos de ambas as mãos, eram todos inesquecíveis. Obviamente, o universo reservaria algo especial para o atacante em Madri.

Origi teve mais de meia hora em campo, mas pouco tocou na bola. Era mais um para emprestar suas pernas e correr, embora pouco acertasse as jogadas. Tentou só oito passes e errou metade deles. No melhor lance, em que puxava um contra-ataque, mandou uma bola nas pernas da marcação, quando poderia ter dado a assistência decisiva. E não tinha finalizado a gol até os 42 do segundo tempo. O seu momento.

É até interessante observar sua movimentação durante a cobrança de escanteio. Origi era marcado, até ser esquecido e transitar livremente na área. Esperava a briga dos companheiros quando o passe de Joel Matip veio açucarado a seus pés. Com liberdade, raciocinou rápido. Ajeitou da direita para a esquerda e ficou com o ângulo aberto. Mais importante, conseguiu ser cirúrgico na execução. O chute de canhota indefectível, no cantinho, longe do alcance de Hugo Lloris. O ápice da temporada dos Reds também tinha a face do belga.

Habilidade, inteligência e outras tantas virtudes técnicas determinam o sucesso de grandes jogadores. Mas, no calor do momento, poucos fatores são mais preponderantes do que a confiança. E isso não faltou ao Liverpool quando a bola concedeu uma oportunidade. Salah confiou que aquela poderia ser a sua redenção, diferente do que ocorrera um ano atrás. Origi confiou que os bons fluidos continuariam, com um novo arremate vital. São faces de uma final abaixo das expectativas, mas igualmente marcante aos torcedores do Liverpool. Eles que, diante da incumbência, foram lá e resolveram. Que garantiram o lugar deste time no panteão da Champions. Em dois estalos, a predestinação fez história.