Ao que parece, o fracasso da seleção italiana na busca por uma vaga na Copa do Mundo 2018 é só um dos muitos aspectos que a gestão de Carlo Tavecchio falhou. O presidente da FIGC (Federazione Italiana Giuocco Calcio, a Federação Italiana) se demitiu nesta segunda-feira. O dirigente esteve envolvido em um caos e não só na sua gestão profissional.

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“Me desculpem”, disse Tavecchio ao conselho da FIGC. “Estou saindo porque eu falhei. Eu me desculpo com todos os italianos. Agora é tempo para o futebol italiano embarcar em uma nova era e não com os mesmos sentando nestas cadeiras”, continuou. “Ambições políticas e exploração da situação [de crise] nos impediu de confrontar as razões para este resultado e eu notei a mudança de atitude em alguns de vocês”, disse ainda Tavecchio ao congelho da federação italiana.

“Ofereci minha demissão e, como mero ato político, eu também pedi que os membros do conselho fizessem o mesmo, mas ninguém fez, então estou sozinho. Eu tenho a sensação que, com 18 anos de experiência, eu não tinha mais pleno apoio. Eu não hesitei por um instante”, declarou Tavecchio aos jornalistas ao anunciar a sua saída da FIGC.

Racismo, homofobia, antissemitismo e agora assédio sexual

Na campanha para a sua eleição, em 2014, Tavecchio fez comentários racistas. E não foi o único comentário absurdo de Tavecchio. Em novembro de 2015, um áudio obtido pelo jornal Corriere della Sera mostrou comentários do dirigente ofendendo judeus e homossexuais. Ou seja: pessoalmente, Tavecchio sempre foi questionável.

Mais uma acusação apareceu depois do anúncio da sua demissão, na segunda-feira: assédio sexual. Segundo o jornal La Stampa, Tavecchio, de 74 anos, está sendo acusado por uma mulher, executiva de esporte. Segundo a mulher, ela foi até o escritório de Tavecchio para discutir sobre trabalho, mas o dirigente fechou as cortinas para não ser visto e tentou tocar em seus seios.

Segundo o depoimento da denunciante, “este foi apenas um incidente, eu poderia contar muitos outros”. Ela diz que o assédio foi recente e acontece repetidamente. A denúncia foi feita à promotoria de Roma e, segundo o jornal La Stampa, há gravações em áudio e vídeo para comprovar as alegações da mulher. O dirigente negou as acusações e instruiu seus advogados a agirem de acordo.

Pior que Ventura, só o processo de escolha do técnico

O grande erro de Tavecchio no comando da FIGC, que para muitos é o fator preponderante para o fracasso da Itália, foi a escolha do técnico da seleção, Giampiero Ventura. O dirigente empurrou a batata quente para um nome importante do futebol italiano: Marcello Lippi.

“Eu nunca disse isso antes porque detalhes de uma conversa privada não são tornados públicos, mas agora vocês sabem que Ventura não foi escolhido por mim sozinho, mas agora eu tenho que pagar por ter contratado Ventura”, declarou Tavecchio.

Pressionado por jornalistas a revelar quem escolheu o treinador, ele vagamente indicou. “O presidente do CONI [Comitê Olímpico Nacional Italiano] disse que foi escolhido por Lippi”, afirmou Tavecchio.

Atualmente técnico da China, Lippi respondeu às acusações. E mostrou como o caminho escolhido pela FIGC era mesmo um mato sem cachorro, para usar uma expressão popular. Giovanni Malagò, presidente do CONI, disse que foi Lippi que, no fim, escolheu Ventura. O treinador, atualmente dirigindo a China, deu a sua versão da história.

“O que Malagò contou é tudo verdade, exceto por uma coisa: eu não escolhi o técnico da seleção italiana”, disse Lippi. “Eu tive um jantar com Malagò e Tavecchio e me foi oferecido me tornar diretor técnico da seleção. Eu comecei, não oficialmente, a conversar com alguns técnicos. Eu falei com três pessoas, Ventura, [Vincenzo] Montella e [Gian Piero] Gasperini. Ninguém mais”, contou Lippi.

“Depois disso, eu fui à federação e falei sobre o que achei, listei os prós e os contras de cada um, mas eu disse: ‘o presidente irá escolher o técnico’. Tavecchio então respondeu: ‘Eu escolheria Ventura por sua idade e sabedoria’. Eu não escolhi o técnico, não é verdade”, contou o treinador da seleção chinesa.

Marcelo Lippi ficou no cargo de diretor da seleção por apenas um mês, até que a lei sobre empresários foi aprovada. Como o seu filho é empresário, foi detectado conflito de interesses que não permitiria que Lippi seguisse no cargo.

Seja como for, a escolha dos três técnicos finalistas já mostra ideias bem ruins – e muito diferentes entre si. Montella faz um trabalho muito questionado no Milan, que vive uma temporada instável. Gasperini fez um excelente trabalhado à frente da Atalanta na temporada 2016/17, é verdade, mas é um técnico que foi muito questionado no seu tempo na Internazionale. E, bom, Ventura, como vimos, conseguiu um trabalho maior do que o seu currículo deveria permitir.

Ainda dando entrevistas sobre a sua saída, Tavecchio mostrou irritação quando perguntado sobre os erros que cometeu. “Sim, não ter interferido na partida em San Siro para demitir o técnico no intervalo”, declarou.

Segundo Tavecchio, ele chegou a entrar em contato com cinco potenciais técnicos para a seleção italiana, mas nenhum deles está disponível no momento. Considerando o processo de escolha de Ventura, é melhor mesmo que Tavecchio não seja responsável por escolher o próximo treinador da Azzurra.

Aparentemente, a escolha de Ventura foi só a ponta do iceberg de uma séria de decisões ruins de Tavecchio na sua gestão. Ainda bem que, ao menos, ele teve a dignidade de pedir demissão. Seria inviável se manter no poder. Apesar que tem país que toma 7 a 1 e a direção do futebol não deixa o cargo, só demite o técnico mesmo.