A Fifa terá que lidar com mais um problema para arranhar a sua imagem. O investigador-chefe do Comitê de Ética da Fifa, Michael Garcia, pediu demissão do cargo nesta quarta-feira, depois de ver o seu relatório sobre as candidaturas dos países para sediar as Copas do Mundo de 2018 e 2022 ser mantido em sigilo, apesar dos seus pedidos para torná-lo público. A decisão da Fifa de manter tudo em sigilo foi fortemente criticada no mundo do futebol e criou um racha no comitê independente contratado pela Fifa.

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O investigador analisou as candidaturas de Rússia e Catar, que ganharam direito de sediar os Mundiais de 2018 e 2022, respectivamente, além das candidaturas dos países derrotados. O resultado foi um documento de 430 páginas. O relatório gerou uma expectativa grande pelas suspeitas de corrupção em relação à candidatura do Catar.

Como Mohamed Bin Hammam foi um dos articuladores da campanha catariana e acabou afastado da Fifa por corrupção comprovada na compra de votos para a eleição presidencial da entidade de 2011, havia expectativa para saber se havia algum envolvimento dele, ou de alguém do Catar, em corrupção. Como o relatório não foi publicado integralmente, só em um resumo feito pelo juiz Hans-Joachim Eckert, que foi duramente criticado por Michael Garcia. O americano acusou o relatório do juiz de esconder pontos importantes. Segundo o relatório de Eckert, a investigação deveria ser encerrada por falta de provas. Garcia discordou e recorreu da decisão, o que criou uma situação constrangedora para a Fifa.

“A decisão de Eckert me fez perder a confiança na independência da câmara decisória, mas é a falta de liderança nessas questões dentro da Fifa que me leva a concluir que o meu papel nesse processo chegou ao fim. Nenhum comitê de governança independente, investigador ou painel arbitral pode mudar a cultura de uma organização”, afirmou Garcia, nesta quarta-feira.

Mais do que criticar a cultura da Fifa, Garcia ainda criticou a atuação de Joseph Blatter e do Comitê Executivo da entidade, que tentou abrir procedimentos disciplinares contra ele em setembro. A tentativa foi rejeitada pelo presidente do painel disciplinar. “Nos primeiros dois anos, eu senti que o comitê de ética estava fazendo professo real no avanço de aplicação de ética na Fifa. Nos últimos meses, isso mudou”, declarou o americano.

“Quando visto no contexto do relatório que pretendia resumir, nenhuma abordagem baseada em princípios poderia justificar a decisão de edição de Eckert, as omissões e adições”, afirmou Garcia sobre o relatório. “Parece agora que, ao menos no futuro próximo, a decisão de Eckert vai ficar como a palavra final para o processo de candidatura para as Copas do Mundo de 2018/2022”, afirmou ainda Garcia.

A decisão de Garcia coloca um ponto de interrogação em todo processo que a Fifa vem tentando fazer para limpar a sua imagem. Sempre houve desconfianças, mas havia expectativa que fosse possível esclarecimentos, pela pressão que começou a ser feito sobre a entidade – inclusive perdendo patrocinadores. Não adiantou. O relatório foi uma piada, criticada em todo mundo, incluindo o seu autor, que viu o trabalho ficar escondido.

A Fifa perde credibilidade a cada novo problema como esse, o que pode aumentar o pedido por mudanças. Lembremos que a eleição presidencial da Fifa é em 2015 e Blatter resolveu concorrer mais uma vez. A crise institucional pode levar à nomeação de um candidato de oposição. Esse talvez seja o temor de Blatter. Mas também sabemos que há o temor das federações em nomear um opositor e, com a derrota, sofrer com as represálias. Essa história deve ter mais capítulos em breve.