Dezessete anos depois de sua melhor campanha na Copa Africana de Nações, um vice-campeonato em 2002 com a geração que surpreendeu o mundo ao abrir o Mundial daquele ano com uma vitória contra a então defensora do título França, Senegal chega como uma das favoritas ao título da competição continental. Seu grande líder técnico é Sadio Mané, que deu um salto em sua carreira ao deixar o Southampton pelo Liverpool e, no mês passado, alcançou seu ápice até aqui pelos Reds: o título da Champions League. Triunfo este que ele trocaria por uma conquista da CAN com sua seleção.

Em entrevista à revista France Football, Mané ilustrou bem o significado de se conquistar um título inédito (e também o primeiro em todas as competições) por seu país. Por maior e mais significativo que tenha sido ajudar o Liverpool a conquistar seu primeiro grande título desde 2005, ele trocaria isso por uma vitória na decisão da Copa Africana de Nações.

“Depende de nós conquistarmos algo grandioso. Claro que estamos entre os favoritos, não vamos nos esconder disso. Mas este status não é suficiente para ir até o fim. Ganhar pelo seu país, que nunca ganhou uma Copa Africana de Nações antes, deve ser maravilhoso. Estou até disposto a trocar uma Liga dos Campeões por uma CAN. A volta a Dacar seria extraordinária. Seria o meu maior sonho”, contou o atacante à revista francesa.

Como muitos jogadores de países pobres que chegam à seleção, Mané teve que enfrentar uma vida de dificuldades na infância para pavimentar o caminho de seu sonho. A entrega que mostra em campo é consequência direta desse instinto de lutar, faceta que forjou desde jovem. À France Football, o atleta do Liverpool revela que chegou a fugir de casa aos 16 anos rumo à capital Dacar para buscar seu sonho.

“Preparei tudo cuidadosamente, sabendo que não tinha dinheiro nenhum. No dia anterior, escondi minha mochila com minhas coisas no mato na frente de casa para não ser pego quando saísse. E, na manhã seguinte, por volta das 6 da manhã, escovei os dentes e nem sequer tomei banho. Saí sem contar a ninguém, exceto ao meu melhor amigo.”

Mané contou com a ajuda de um amigo, que lhe emprestou dinheiro para pegar um ônibus para a capital senegalesa. Chegando lá, ficou com uma família que sequer conhecia antes, participando logo cedo de treinamentos com equipes estabelecidas. Mas seus pais andavam preocupados.

“Estavam convencidos de que o meu melhor amigo sabia. Ele aguentou, não disse nada. Como a minha família e a dele exerceram uma pressão terrível sobre ele, ele finalmente confessou. Os meus pais ligaram, me pedindo para voltar para casa”, relembra o jogador.

O então garoto não quis voltar, tinha vergonha por algum motivo, mas decidiu ceder, contanto que seus pais fizessem o mesmo. “Eu os fiz prometer que me deixariam tentar minha sorte assim que o meu ano escolar terminasse.”

A peneira que deu pontapé inicial à carreira de Mané teve a essência das narrativas que imaginamos de jogadores que bateram as adversidades para chegar à terra prometida: muita concorrência, os rivais por uma vaga caçoando de seu visual e até mesmo desdém por parte dos recrutas.

“Havia duzentos, trezentos jovens esperando na fila para tentar a sorte. Começou mal para mim, porque, quando eu me apresentei, estavam rindo de mim. Eu não me parecia muito com um jogador de futebol. Eu estava vestindo uma calça que não parecia nem um pouco com shorts de futebol. E as minhas chuteiras estavam todas rasgadas na lateral, consertadas como eu podia, com fio. As pessoas que estavam conduzindo os testes olhavam para mim de forma estranha. “Você quer mesmo ser jogador de futebol?” Eu os entendia, mas não tinha escolha… Como não fui muito mal, fui escolhido. Foi o início da minha aventura.”

Antes disso, paralelamente à sua formação como jogador nas ruas de Sédhiou, 382 quilômetros ao sudeste de Dacar, veio sua formação como pessoa. Ninguém em sua família gostava de futebol, e sua mãe costumava correr atrás do filho quando o via jogando bola na rua. Ele também, por imposição, teve que se afastar das más companhias, o que o chateou à época. Sentia-se sozinho, mas entendeu a lição mais tarde. “Faz parte da educação. Graças a isso, nunca me perdi. Agradeço à minha mãe todos os dias por isso.”

Ainda que tenha alcançado uma prateleira mais alta no futebol mundial com o desempenho mostrado nesses três anos de Liverpool, Mané não faz o tipo que se deslumbra e ganha manchetes fora do campo.

“Há todo esse dinheiro, a cobertura midiática… Não quero saber disso, falando sério. Não me preocupo com isso. Claro que faço parte desse ambiente, mas sou um pouco desconfiado disso. Fico longe, evito as redes sociais e volto à minha aldeia o mais frequentemente possível para manter os pés no chão. Não gosto de ser visto. Sou uma pessoa discreta que queria ser jogador de futebol, não uma estrela.”

PlayStation também não é para ele, como já havia revelado em entrevista neste ano e reforça na conversa com a France Football. “Talvez eu seja o único jogador profissional no mundo que não sabe jogar PlayStation, sério. Nunca tentei antes e não estou nem um pouco interessado. Mas, seja no clube ou na seleção, estou cercado de jogadores que passam seu tempo nisso”, conta. Ele admite que sequer sabe usar um controle, dando preferência à diversão analógica: “Prefiro jogar Uno”.

Suspenso na partida de estreia pela Copa Africana de Nações contra a Tanzânia, vencida pelos Leões, Mané estará de volta a partir do próximo jogo, na quinta-feira (27), contra a Argélia, podendo, por fim, começar a influenciar diretamente seu destino e seu sonho de levar o inédito título a Dacar.