Arrigo Sacchi segue como uma voz a ser ouvida sobre o que acontece dentro de campo na Europa. O treinador, responsável por uma revolução com seu Milan na virada dos anos 1980 para os 1990, se distanciou das pranchetas, mas oferece sua visão analisando as principais partidas do continente. Nesta semana, ele comentou a eliminação do Paris Saint-Germain contra o Real Madrid, nas oitavas de final da Liga dos Campeões, pelo canal italiano Premium Sport. “Pensei que veria o PSG com a faca nos dentes, mas no final vimos o Real Madrid com um cigarro na boca”, declarou. Já nesta quinta, o veterano concedeu uma longa entrevista ao L’Equipe. Falou sobre o projeto esportivo do PSG e fez críticas pertinentes, ao menos para a reflexão, sobre aquilo que não vem dando certo no clube. Abaixo, traduzimos os principais trechos:

A análise da partida contra o Real Madrid

“Eu achei que o PSG foi muito decepcionante em sua atitude. Eu esperava mais agressividade, intensidade. Não sei o que se passou na mente dos jogadores. É o que eu posso dizer, já que sempre considerei Emery como um ótimo treinador. A questão é: os jogadores continuarão? Eu não sei o que acontecerá. Um treinador deve ter uma ideia de jogo clara. Porque o jogo ajuda a equipe. É como o cenário de um filme. Então, um treinador deve ser seguido por sua equipe. Eu conheço bem os jogadores do PSG, porque muitos deles jogaram na Itália ou na Espanha. Vi Verratti nas seleções de base por anos. Eu o acompanhei crescendo desde o sub-17, e quando você observa sua atitude naquela noite… Não, em certos níveis, você não pode se comportar assim. E se ele fez isso, há um problema. Todos devem se colocar a favor do clube. É importante perceber que o clube é a parte mais importante. Porque tudo parte do clube, de sua história, de sua visão, de suas regras e de sua liderança. O clube vem antes da equipe e a equipe vem antes da individualidade. A sensação que eu tenho, é que essa hierarquia está invertida no PSG”.

Como fazer o PSG evoluir

“Você não constrói uma história como a do Real Madrid em poucos anos, é verdade, mas você pode ter ideias, uma visão, uma organização. O PSG gasta muito, mas isso não pode ser suficiente. Nós vimos na terça: eles gastaram mais do que todos no verão passado e fizeram uma partida realmente insuficiente. Os parisienses não tem uma grande história europeia. Então, se eles realmente desejam vencer, precisam de ideias, e ideias claras. As ideias não podem ser compradas. No Manchester City, atualmente, o clube segue o treinador em tudo. E deveria ser o mesmo no PSG, se eles querem subir de nível. Sou muito amigo do Guardiola. Ele foi lá e disse: “Nós compramos este, este e este”. Trouxe jovens com as características que correspondem ao que desejava fazer. Eles não têm uma grande história europeia, mas vemos que são muito competitivos. O jogo é a base de tudo e a maioria das pessoas não conseguem entender isso. O futebol é um esporte de equipe com momentos individuais. Mas se você deseja ganhar… Um grande jogador pode te fazer ganhar uma partida, mas somente uma partida. É a equipe que te faz ganhar títulos. E há outro problema ao PSG, que a Ligue 1 não é o campeonato mais forte”.

A culpa de Unai Emery na derrocada

“Sim, é papel do treinador ser respeitado por seu vestiário. Mas você precisa de um clube para te ajudar. Caso contrário, você se torna um homem solitário e tudo está acabado. O treinador é o responsável pelo setor esportivo e é um homem do clube. É o homem do clube. Quando ele diz qualquer coisa, todo o clube deve dizer com ele”.

O projeto em torno de Neymar para conquistar a Champions

“O projeto para ir longe na Liga dos Campeões não pode ser um jogador. Um jogador, por melhor que seja, não é um projeto! O Neymar não é um projeto! Ganhamos a Serie A em 1988 com o Van Basten, que acabara de chegar e que, das 30 partidas do campeonato, não jogou mais do que três completas [lesionado, somou apenas 11 aparições na competição, somente três ficando em campo mais do que 45 minutos]. Se o projeto fosse o Van Basten, não ganharíamos nada. Ganhamos a Copa dos Campeões em 1989/90 com o Gullit e você sabe quantas partidas ele jogou? Uma só, em nove! Batemos o Barcelona na Supercopa Europeia sem Baresi, Ancelotti ou Gullit. A música sem partitura não é possível. Brecht dizia que mesmo os grandes atores precisam de um diretor para se expressar plenamente. O dia em que, com o dinheiro que gastaram, os parisienses também tiverem uma organização que parte do clube, eles avançarão”.

A responsabilidade pela organização

“São o presidente e o diretor esportivo que estabelecem as regras e que fazem elas serem respeitadas. A autoridade, ela vem do clube. No ano passado, houve o exemplo da Juventus, que na minha visão jogou um futebol muito positivo, mas que é um grande clube, com uma liderança verdadeira. Quando ela viu certos jogadores protestando porque o treinador os tirou, ou que se tornaram um pouco arrogantes, o que ela fez? Tirou Bonucci, um dos líderes da equipe, e o colocou nas arquibancadas durante uma noite de Champions. Então, no verão seguinte, ele foi vendido. A Juve deu o sinal a todo mundo que, no clube, não são os jogadores que comandam, que o treinador é o homem do clube e que cabe a ele as escolhas técnicas. As pessoas não pessoas não podem se comportar como ele, ouvindo sem respeitar. Seria como se o pobre Pavarotti cantasse Volare, enquanto os outros cantam Aïda. Seria impossível! No futebol, são necessárias poucas ideias, mas elas precisam ser claras. Se não forem, desperdiçam dinheiro”.

O conselho ao PSG

“Não estou aqui para aconselhá-los. Tudo o que eu digo é que, para ganhar, o mais importante é o clube, sua visão, sua competência, suas regras e suas escolhas. Só depois vem a equipe. Ela é dirigida por um trenador que não deve apenas treinar, mas tornar as ideias sólidas. Na terça, vimos uma partida medíocre. Em todos esses anos, o PSG jamais deixou sua marca na Champions. Seu melhor confronto foi contra o Barcelona, com Ancelotti [empataram os dois jogos nas quartas de final de 2013]. Você precisa fazer as perguntas certas”.