Trento, uma cidade no norte da Itália, recebeu três mentes muito importantes do futebol mundial. Um total de sete títulos da Champions League. No mesmo palco, sentaram-se para conversar Pep Guardiola, Carlo Ancelotti e Arrigo Sacchi. Discutiram, entre outros assuntos, sobre a qualidade do jogo e a importância de ter ideias, mais do que jogadores de qualidade.

Sacchi, aposentado há quase 20 anos, comparou o futebol com o cinema. “Você pode ter uma grande produção, os melhores atores, mas nenhum enredo. (Bertolt) Brecht (dramaturgo alemão) disse que, sem roteiro, há apenas improvisação e ideias vagas. É a abordagem do estrategista que é melhorada ou piorada pelos jogadores. Os jogadores estão a serviço das táticas”, afirmou o italiano.

Ele lembrou da sua passagem como diretor do Real Madrid, quando a equipe contava com grandes jogadores como Beckham, Owen, Ronaldo, Figo, Zidane e outros, mas praticava um futebol tão “aborrecido” que o presidente honorário Alfredo Di Stéfano nunca via um jogo até o fim porque ficava entediado. “Bom futebol depende de ideais, não da qualidade dos jogadores. Eu vi times medianos jogarem realmente bem. Você pode jogar melhor e perder, mas apenas se não compensar o que os adversários podem fazer individualmente. O time que joga bem e vence não é reconhecido apenas como vencedor, mas também recebe autoridade moral”, disse.

Guardiola, entusiasta do jogo bem praticado, mas também um vencedor em série, afirmou que “gostaria que quem jogasse melhor vencesse”, mas que nem sempre é esse o caso. “No futebol, você precisa colocar a bola na rede, então é um esporte especial e levemente maluco”, disse. Carlo Ancelotti concordou.

“Jogar um bom futebol dá maiores chances de vencer, mas continua sendo um esporte imprevisível. Há muita conversa sobre estatísticas, mas você precisa de mais para explicá-lo. A única estatística que realmente conta é o número de gols, não quantos chutes você acertou no alvo”, explanou.

Ancelotti disse que identificou uma mudança em relação à abordagem das equipes menores: elas não se contentam mais com apenas se defender. São bem organizadas tanto atrás quanto à frente, buscando ter uma identidade própria. “Está acontecendo na Premier League também”, acrescentou Guardiola. “Os clubes menores estão evoluindo. O Sassuolo, na Serie A, me dá a sensação de ser um time muito ofensivo e positivo”.