Diversos jogadores brasileiros deram a sua contribuição para o estabelecimento do futebol no Japão. Zico é o nome mais óbvio e significativo, mas outros tantos destaques, muitos de Seleção, participaram da eclosão da J-League. E, quando se fala do boom futebolístico nos estádios nipônicos, é impossível não citar um talento que passou longe do estrelato no Brasil, mas virou lenda por lá. Ruy Ramos, o homem que se transformou também em um Samurai Azul e permitiu que os japoneses sonhassem com a Copa do Mundo, completou 60 anos nesta quinta.

Nascido na pequena cidade de Mendes, no interior do Rio de Janeiro, Ruy Ramos se tornou um fanático por futebol ainda na infância. Paixão que o ajudaria a superar as dificuldades, em uma família humilde. Aos 10 anos, o garoto perdeu o pai. Junto com a mãe e os irmãos, se mudou para São Paulo. Na capital, fez diversos bicos para ajudar em casa – chegou a lavar carros, realizar pequenos consertos, trabalhar em uma gráfica. Mas logo o futebol virou uma escolha de vida. O jovem abandonou os estudos no Ensino Médio, passou a se dedicar a equipes amadoras. Atuava no Black Power, time tradicional do bairro do Ipiranga. Depois, defendeu também o Saad, de São Caetano, que militava nas divisões inferiores do futebol paulista.

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Neste momento, em março de 1977, surgiu a oportunidade para Ruy Ramos mudar de vida. Sem espaço entre os profissionais do Saad, o jogador de 20 anos recebeu um convite para ir ao Japão. Um amigo descendente de japoneses fora trabalhar no Grupo Yomiuri, conglomerado de mídia nipônico. Quando retornou ao Brasil, ofereceu a chance para que o carioca seguisse para a Grande Tóquio e se juntasse ao time da empresa, que disputava o Campeonato Japonês. “Vim para o Japão só preocupado em arrumar uma casinha para a minha mãe”, comentou o veterano, em entrevista à Folha de S. Paulo em 1995. “Tem gente que vem e não diz o motivo. Não tenho vergonha: vim por causa do dinheiro, para ajudar a minha família”.

O intuito de Ruy Ramos era passar dois anos no Japão, fazer seu pé de meia e retornar a São Paulo. Não foi assim que aconteceu. O início do jogador no novo país teve suas dificuldades. Zagueiro em seus tempos de Brasil, também passou a jogar de atacante no Japão, até se firmar no meio de campo. A língua também proporcionava uma barreira, especialmente para se comunicar com os companheiros. Em 1978, por brigar durante um jogo, o brasileiro acabou suspenso por um ano. Quando retornou, estava com sangue nos olhos, no melhor sentido possível: se transformou no artilheiro da liga e no líder de assistências, eleito também para a seleção do Campeonato Japonês em 1979.

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A partir de então, a carreira de Ruy Ramos no Japão decolou. O namoro com uma japonesa, com quem se casaria em 1984, ajudou em sua adaptação. E, apesar de alguns momentos de baixa, especialmente ao sofrer uma fratura em 1981, a década de 1980 foi ótima ao meio-campista. Liderou o Yomiuri em três títulos do Campeonato Japonês e em três da Copa do Imperador. Pouquíssimos jogadores tinham o impacto do camisa 10, idolatrado pelos torcedores em Tóquio. Seu talento com a bola nos pés, aparecendo muito ao ataque para marcar gols, se somava ao espírito extremamente competitivo. E, em 1989, ele deu um passo além. Naturalizado japonês após 12 anos no país, logo começaria a ser convocado para a seleção nacional.

Ruy Ramos estreou pelos Samurais Azuis em setembro de 1990, durante os Jogos Asiáticos. Na mesma época, voava pelo Yomiuri, conquistando o Campeonato Japonês outras duas vezes, em 1991 e 1992. Já a primeira glória com a seleção nipônica aconteceu na Copa da Ásia de 1992. Titular absoluto da equipe, o camisa 10 teve participação ativa na conquista do torneio continental, a primeira da história do país. Repetia a parceira de sucesso com o lendário Kazu Miura, que voltou do Brasil em 1990 e também se tornou protagonista do Yomiuri.

Em outubro de 1993, contudo, Ruy Ramos viveu sua grande frustração com a seleção japonesa. Os Samurais Azuis eram favoritos nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Sucumbiram, no mais lembrado desastre da equipe nacional, eternizado como a “Agonia de Doha”. Durante a última rodada do hexagonal final, os japoneses dependiam apenas de si. Apareciam na zona de classificação e enfrentavam o Iraque. Mas, após abrirem vantagem duas vezes no placar, tomaram o empate por 2 a 2 aos 45 do segundo tempo. A presença inédita em Mundiais escapava pelo vão dos dedos, com a Coreia do Sul e a Arábia Saudita assegurando viagem aos Estados Unidos.

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Ao menos em seu clube, a felicidade de Ruy Ramos continuou plena. Também em 1993, uma nova era se iniciou no Campeonato Japonês. A J-League foi fundada, levando a estruturação do esporte no país a um nível superior. O Yomiuri foi rebatizado como Verdy Kawasaki, mas, ainda assim, continuava como grande potência nacional. Nas duas primeiras edições da liga reformulada, Ruy Ramos voltou a colocar a faixa no peito, bicampeão nipônico. Seu time derrotou o Kashima Antlers de Zico na decisão de 1993, enquanto superou o Sanfrecce Hiroshima no ano seguinte. O camisa 10 anotou o gol do título em 1994 e foi eleito para o time ideal do torneio em ambos os anos.

Depois disso, o desempenho do veterano caiu aos poucos. Apesar dos anseios de ir à Copa de 1998, disputou sua última partida pelo Japão em 1995, justamente contra o Brasil – com goleada da equipe de Zagallo por 5 a 1. Já no clube, entrou em rota de colisão com o técnico Emerson Leão e se transferiu ao Kyoto Purple Sanga em 1996. No ano seguinte, retornaria ao Verdy Kawasaki, disputando sua última temporada nos gramados em 1998, aos 41 anos. Pendurou as chuteiras para viver ainda outras empreitadas no futebol japonês: como técnico, como dirigente e até mesmo como jogador de futsal.

Por todo o seu empenho, o nome de Ruy Ramos é uma verdadeira sumidade entre os nipônicos. Afinal, foram mais de duas décadas atuando em alto nível e dando uma extensa contribuição ao país. Se o jogador pretendia mudar sua vida quando partiu a Tóquio nos anos 1970, de certa forma, ele também ajudou a transformar o futebol local. Ofereceu técnica, experiência e, sobretudo, um espírito vencedor.


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