Reinaldo Rueda desembarca no Flamengo como o treinador sonhado em meio ao pesadelo. Diante das perspectivas no mercado, é difícil apontar um nome melhor do que o colombiano. Cobiçado por muitos clubes brasileiros por sua histórica passagem pelo Atlético Nacional, Rueda se transforma não apenas na resposta imediata à crise que se instaura na Gávea, como também em uma opção para se estabilizar por algum tempo à frente do time. O ponto será a compreensão de que, se não cumprir a primeira etapa de sua missão com tanto êxito, dependendo de sua adaptação ao Brasil e ao clube, o novo comandante pode vir a ser a solução a médio prazo que o Fla necessita para fazer o seu poderio financeiro garantir grandes campanhas. Para isso, o colombiano precisará ser bancado em um ambiente naturalmente conturbado e ainda superar a fogueira brasileira de técnicos que arde mais forte aos estrangeiros.

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Rueda deixou o Atlético Nacional com moral. Apesar da eliminação precoce na Copa Libertadores, depois do sentido desmanche do elenco campeão continental no ano anterior, os Verdolagas conseguiram conquistar o Torneio Apertura do Campeonato Colombiano. Contudo, a relação nos bastidores se desgastava, principalmente depois da mudança na presidência dos paisas. Assim, o treinador admitiu sua saída como um processo de “oxigenação” dentro do Estádio Atanásio Girardot. Seguiria em frente para novos desafios. Surgiu, então, o Flamengo em seu caminho. Era o que os rubro-negros almejavam para estancar seus problemas e, futuramente, desempenhar um estilo de jogo ofensivo que corresponda às ambições do clube.

“É a dificuldade que se tem agora, assumir um projeto que já está iniciado. Eu tinha ofertas de vários países, até na Colômbia, e não queria aceitar, porque a experiência mostra que é muito difícil. Mas penso que uma oportunidade como essa, do Flamengo, não é todo dia. Vamos assumir sabendo que temos metas imediatas e metas a médio prazo e vamos apostar no êxito”, declarou Rueda, em sua apresentação nesta segunda. “No futebol não há paciência, ainda mais na América do Sul. Somos muito emotivos, é da nossa raça. O importante é ter um projeto esportivo sério, querer algo a médio prazo. Temos que ser conscientes que somente os resultados podem garantir sua continuidade”.

O cenário que encontrará na Gávea é bastante diferente do que teve em seu início no Atlético Nacional. Rueda pegou um time em constante mutação, mas já com uma filosofia de jogo estabelecida, principalmente pelo trabalho de Juan Carlos Osorio. O veterano colombiano aperfeiçoou as diretrizes, mantendo a vocação ofensiva, mas proporcionando um equilíbrio bem maior. Mais seguros defensivamente, os verdolagas deram um passo à frente para manter a hegemonia no Campeonato Colombiano e também para buscar os sonhados títulos internacionais. Deu a Libertadores que os paisas não comemoravam desde 1989, além de levar o clube à final da Copa Sul-Americana contra a Chapecoense.

O Atlético Nacional acaba sendo a grande experiência de Rueda em clubes. Antes disso, suas passagens mais duradouras ocorreram ainda na década de 1990, à frente de Cortuluá e Deportivo Cali. Sua afirmação como treinador aconteceu mesmo com seleções. Comandou as equipes de base da Colômbia, até chegar ao nível principal. Também disputou duas Copas do Mundo, levando Honduras e Equador à fase final da competição, em 2010 e 2014. A vivência no trabalho do “dia a dia” se espelha especialmente por aquilo que se passou em Medellín.

Se Rueda lidava no Atlético Nacional com uma gestão conhecida por sua tremenda capacidade em transformar a realidade profissional no clube, no Flamengo ele encontrará uma diretoria que tateia nesta visão, embora nem sempre consiga agir desta maneira. Neste primeiro momento, será fundamental o respaldo e a confiança do alto comando rubro-negro no comandante. Caso o seu trabalho não se reverta em ótimos resultados desde os primeiros jogos, necessitará de uma blindagem que nem sempre se viu com os últimos treinadores estrangeiros que passaram pelos grandes clubes brasileiros. Rodrigo Caetano, especialmente, precisará ser uma figura mais presente nesta linha de frente. Na coletiva de apresentação do técnico, ele referendou não apenas os métodos de Rueda, como revelou o contato desde os tempos em que o comandante ainda estava no Atlético Nacional.

Historicamente, o Flamengo possui uma ótima relação com treinadores estrangeiros. Manuel Fleitas Solich, multicampeão na Gávea e responsável por lançar diversos ídolos, inclusive Zico, compõe o rol de maiores cérebros que já estiveram à frente dos rubro-negros. A importância histórica do “feiticeiro paraguaio” é inegável, se alongando em diferentes períodos, entre as décadas de 1950 e 1970. De passagem mais curta, o húngaro Dori Kürschner também ofereceu grandes conhecimentos táticos durante os anos 1930, em época na qual os rubro-negros se estabeleciam como um verdadeiro clube de massas. No entanto, faz tempo que os gringos não passam pelo banco flamenguista. O último deles foi o velho ídolo Modesto Bría, que desempenhou diferentes funções após se aposentar como jogador e assumiu o time após a saída de Cláudio Coutinho, em 1980 – antes de ser substituído por Dino Sani e só então por Paulo César Carpegiani, este responsável pelos maiores títulos da história do Fla.

Rueda carrega consigo esta herança, mas sem que isso ofereça qualquer garantia ao seu trabalho. Mais valiosa é a experiência internacional, que pode ajudar na Copa Sul-Americana, um dos principais objetivos do clube neste semestre, ao lado da Copa do Brasil. Aliás, se reencontrará com a Chapecoense, à qual deu grande mostra de humanidade diante da tragédia ocorrida com o avião dos catarinenses, mas que também venceu na última Recopa Sul-Americana, e com o Botafogo, seu algoz na Libertadores. Os mata-matas serão parte fundamental de seus desafios durante as próximas semanas, assim como a presença no G-6, com o Flamengo perdendo força na tabela do Brasileirão. Mais essencial será a paciência.

Afinal, mais do que dar uma cara ao badalado (e ainda pouco eficiente) elenco do Flamengo, Rueda precisará demonstrar um entendimento do futebol brasileiro que nem sempre se vê entre os treinadores estrangeiros que desembarcam por aqui. A excelência do currículo do colombiano oferece confiança neste sentido, mas há barreiras claras como a língua – apesar dos muitos atletas estrangeiros – e a própria falta de fôlego da equipe que não engrena. Talvez fosse mais prudente deixar Jayme de Almeida por mais algum tempo à frente do time. Não será o caso, tanto pela pressão da má fase quanto pelo calibre do novo técnico. Por isso mesmo, a atuação também de quem o contrata neste momento será tão importante.

Vale lembrar que Rueda não é o único treinador a chegar ao Flamengo com tal pompa de “transformador” nos últimos anos. Mano Menezes e Muricy Ramalho, sobretudo, vieram referendados por projetos que nunca saíram do papel. E, ainda que os motivos de suas saídas não sejam necessariamente a falta de resultados, ambos se foram com aproveitamentos aquém do esperado. O colombiano terá mais esse obstáculo a superar, caso os rubro-negros pretendam mesmo bancá-lo como o mentor de uma nova época. Desde o eterno Carlinhos, em sua passagem que resultou no título Brasileiro de 1992, o Fla não possui um treinador que superou os 100 jogos ininterruptamente na Gávea. Curiosamente, quem mais se aproximou da marca foi Zé Ricardo, o criticado antecessor de Rueda.