“O maior momento da vida do Pelé foi vestir a camisa do Vasco, quando esteve aqui emprestado pelo Santos”

A frase seca, dotada de certeza sobre si com uma dose de gozação, teria sido confidenciada a um amigo nas arquibancadas do Maracanã em meados dos anos 1970. E esse simples pensamento já serve para traduzir o apreço de Rubem Fonseca pelo Vasco. Não era o torcedor que deveria sentir a honra de um dia ter visto Pelé em seu time, cedido para o combinado formado por Santos e Vasco a um torneio amistoso em 1957. Era aquele garoto ainda despontando no futebol, às vésperas do primeiro chamado à Seleção, que precisava ter orgulho pela camisa cruzmaltina.

Nascido em Juiz de Fora, José Rubem Fonseca cresceu no Rio de Janeiro. E não era apenas a origem portuguesa, filho de imigrantes, que possibilitou sua ligação umbilical com o Vasco. Na época em que o mineiro concluía sua formação em Direito, São Januário abrigava um dos maiores esquadrões da história do futebol brasileiro. O futuro escritor era um dos tantos torcedores que puderam se encantar com o chamado Expresso da Vitória.

“Conhece muito bem Danilo, Ademir, Isaías, Chico, Ipojucan, Barbosa e Lelé. Craques do seu Vascão. Muitos deles integrantes da campanha de 1948, quando o time da Cruz de Malta conquistou o Campeonato Sul-Americano, a Libertadores da época”, escreveu o jornal O Globo, num perfil sobre o escritor publicado em 1994.

O Vasco não era tema tão frequente nas entrevistas de Rubem Fonseca. O escritor, afinal, não era exatamente adepto de aparições nas páginas dos jornais. Assim, nas raras oportunidades em que conversava diante dos gravadores, a literatura inescapavelmente se tornava tema dominante. O futebol, mesmo que ocupasse seu coração e sua rotina, não fazia parte da face mais exposta do romancista. A quem empunhava até bandeira no Maracanã, ele viveu bem mais sua relação com o esporte do que falou sobre ela publicamente aos jornalistas.

“Na paixão pelo esporte em geral, e em particular pelo futebol, está uma das marcas de sua maneira de ser carioca. Torcedor entusiasta do Vasco da Gama, vai aos estádios com os filhos quando seu time joga e vibra como qualquer homem do povo com as vitórias e os títulos conquistados”, descrevia também o Jornal do Brasil, em 1973, na mesma edição em que relata o tal comentário sobre Pelé. Durante a sua juventude, Rubem Fonseca praticou ainda natação, boxe e basquete.

E se Rubem Fonseca não tinha a necessidade de bradar o nome do Vasco à imprensa, quando seu ritual de torcedor se expressava de outras formas, o futebol acabou sendo tema apenas pontual também em suas obras. A bola vez ou outra fazia parte de sua construção do cotidiano, laço natural com a realidade em sua literatura. Em compensação, quando resolveu transformar sua paixão pelo esporte em texto, o escritor assinou um baita conto sobre futebol. É ‘Abril, no Rio, em 1970’, presente em ‘Feliz Ano Novo’, célebre livro que seria proibido pelos censores da ditadura militar em 1975.

Aos 94 anos, Rubem Fonseca faleceu nesta quarta-feira, após sofrer um infarto. Considerado um dos melhores romancistas e contistas brasileiros, deixou um legado riquíssimo através de sua obra, também pela renovação da literatura nacional que ajudou a promover. Para homenageá-lo, fica a recomendação a ‘Abril, no Rio, em 1970’. Você pode conferir o texto completo através deste link, no ótimo Literatura na Arquibancada, do jornalista André Ribeiro, ou ouvir o início do conto abaixo, na voz de Paulo Júnior, em seu podcast ‘É proibido vaiar’.