Os anos de Cristiano Ronaldo no Manchester United passaram longe de ser de unanimidade na Inglaterra. Mesmo amado pelos torcedores dos Red Devils e admirado por boa parte dos neutros, o português era alvo de muita antipatia por rivais e mesmo pela crítica especializada. Uma figura divisiva, sobre a qual boa parte da opinião pública no país foi formada a partir do incidente com Wayne Rooney nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006.

Quem assistiu ao torneio lembra bem: Portugal e Inglaterra disputavam partida no mata-mata do Mundial da Alemanha, e, no segundo tempo, o inglês pisou em Ricardo Carvalho, então jogador do Chelsea, após uma disputa pela bola. Cristiano Ronaldo correu em direção ao árbitro argentino Horacio Elizondo, pedindo a expulsão de seu companheiro de Manchester United, e a pressão surtiu efeito. Sem o atacante, a Inglaterra perdeu nos pênaltis para os portugueses e foi eliminada do Mundial.

De lá pra cá, Rooney já falou bastante sobre aquele episódio. Neste domingo, em coluna publicada no jornal Times, o inglês voltou ao assunto, reforçando o perdão ao português e dizendo até mesmo que aquilo foi o início de uma união forte entre os dois. É curioso verificar também como Rooney foi capaz de entender a atitude de Ronaldo no mesmo dia, ainda no estádio, enquanto a imprensa inglesa passou meses remoendo o incidente.

“Foi uma reação ao árbitro, Horacio Elizondo, não me dar uma falta. Houve uma falta clara, o ex-zagueiro do Chelsea, Ricardo Carvalho, estava me puxando e empurrando, e o Petit veio do outro lado. O Elizondo não fez nada, e aí eu pisei no Carvalho. Foi um daqueles momentos em que você não está pensando. Eu sabia que era um cartão vermelho e, quando fui para o vestiário, assisti ao resto do jogo em uma TV pequena, pensando: ‘Se vencermos, estou suspenso para a semifinal e a final da Copa do Mundo. E, se perdermos, a culpa é minha’. Foi a pior e mais esquisita sensação que já tive no futebol.

Eu estava com meu celular na mão, recebendo várias mensagens sobre o Ronaldo. Claro que, quando ele correu para pedir que o Elizondo me expulsasse, eu o empurrei. Naquele momento, eu não acreditava no que ele estava fazendo. Porém, no vestiário, tive tempo de me acalmar e pensar.

Coloquei-me no lugar do Ronaldo. Eu faria o mesmo? Provavelmente. Ficaria em cima do árbitro para garantir que ele o expulsasse? Se ele merecesse o vermelho, se isso fosse nos ajudar a vencer, sim, sem dúvidas. Faria isso amanhã mesmo. Pensei: ‘Na verdade, eu tentei fazer com que ele levasse um cartão no primeiro tempo por simular’. E, sobre a piscadela, não vi nada de errado naquilo. Não foi nada.

Então, eu me acalmei. Fui até ele depois, no túnel. Senti que era importante falar com ele enquanto a coisa toda ainda estava fresca, presencialmente. Ele olhou para mim como se estivesse se desculpando, mas ali eu já estava com a cabeça no United. Disse a ele: ‘não tenho problemas com você. Aproveite o torneio e boa sorte. Vejo você em algumas semanas – e vamos tentar vencer a liga’.

(…)

Quanto a mim e ao Ronaldo, a imprensa tentou arrastar isso durante todo o verão, dizendo que tínhamos problemas, mas não tínhamos problema algum um com o outro. No primeiro jogo da nova temporada, derrotamos o Fulham por 5 a 1. Eu marquei dois gols e dei assistência para ele marcar outro, e isso acalmou as coisas. No vestiário, sempre fomos muito próximos. Sempre éramos nós dois fazendo pegadinhas com o técnico ou com outros jogadores. E o que nos uniu foi justamente o que aconteceu na Copa. Os três anos seguintes foram os nossos melhores como parceiros, nos trazendo três títulos (da Premier League) e a Champions League. Aquele meu cartão vermelho em Gelsenkirchen foi o começo de tudo.”

Recordando aquela Copa do Mundo, o ex-jogador do Manchester United analisou também o que deu errado para aquela Inglaterra tão estrelada. Para ele, o problema foi sobretudo tático, em um time que tinha nomes como Lampard, Scholes, Gerrard e Beckham e insistia em um jogo que não favorecia seus maiores talentos.

“A Inglaterra perdeu aquele jogo nos pênaltis. Sei que o Sven (Eriksson) se arrepende de não ter levado um psicólogo, mas não tivemos psicólogos na Copa do Mundo de 2014 e na Euro de 2016, e não deu certo, né? Acho que tem uma área em que o Sven poderia ter se saído melhor, e era a tática. Com ele, sempre jogamos no 4-4-2 ou no 4-4-1, e, quando você faz isso, sempre concede muito a posse de bola. Você olha para aquela época e se pergunta por que nunca tentamos um 4-3-3, especialmente com todos os meio-campistas que tínhamos. Mas tínhamos grandes personagens no vestiário. Por que eu, o Lamps (Lampard) ou o Becks (Beckham) não dissemos nada? Por que nós, como grupo, não pedimos uma mudança? Então, o lado tático não é só culpa do Sven, mas de todos nós, jogadores.”

Rooney revelou também ter jogado o torneio com uma lesão, falando que não faria o mesmo hoje em dia e que inclusive recomendaria a Kane e Rashford, atualmente tratando lesões, que tivessem certeza de que estavam 100% para ir à Eurocopa caso ela fosse mesmo disputada neste ano – o que não irá acontecer, devido à pandemia do Coronavírus.

“Trabalhei com um dos fisioterapeutas todos os dias, em silêncio. Estava tomando analgésicos. Não queria dizer nada, porque muita gente tinha trabalhado bastante para me deixar em forma. Não relatei a lesão até o torneio acabar – e ali eu já tinha seis centímetros de rompimento na virilha. Se me encontrasse na mesma posição hoje, eu teria me descartado. É por isso que, se a Euro fosse em frente neste verão, eu teria dito a Harry Kane e Marcus Rashford que, caso eles estivessem com qualquer dificuldade, seria melhor não forçar. Claro, digo isso em retrospectiva. Na época, eu tinha 20 anos, era minha primeira Copa do Mundo, e havia muitas expectativas sobre mim.”