Ronaldo marcou época no futebol italiano em um momento que a Serie A era uma das melhores do mundo, se não a melhor. Foi atuando pela Internazionale que ganhou o apelido que carrega desde então, Fenômeno, justamente pelas suas atuações que impressionaram. Chegou em 1997, mas deixou o clube em 2002, logo depois da Copa do Mundo, e foi considerado um traidor. O jogador contou, em evento na Itália, que não queria deixar o clube, mas sentia que não poderia continuar trabalhando com o técnico Héctor Cúper. Os dois se desentenderam na temporada que os nerazzurri ficaram perto de conquistar o título, em 2001/02.

“Aquele time da Inter era fantástico. Junto com Bobo Vieri, nós tínhamos Clarence Seedorf e muitos outros talentos. Infelizmente, as lesões me impediram de dividir o campo com Vieri mais vezes”, afirmou Ronaldo durante o Festival dello Sport, em Trento, na Itália. Ele deu o depoimento em uma ligação por vídeo, enquanto Vieri estava presente.

“Quando eu cheguei, havia um grande entusiasmo na Inter e os torcedores acreditavam que podíamos alcançar resultados maravilhosos. Eu vejo o entusiasmo nos torcedores da Inter neste ano também e espero que eles possam ganhar algum título”, afirmou ainda Ronaldo.

Ronaldo pela Inter em 1997, antes de jogo com o Milan (Getty Images)

As lesões

As lesões marcaram a carreira de Ronaldo na Inter, além dos golaços e grandes jogadas. Foram duas lesões sérias de joelho, uma seguida da outra. Em 21 de novembro de 1999, ele rompeu a patela e ficou 26 jogos fora do time, até a volta em 10 de abril de 2000. Foi quando ele retornou ao time, em um jogo contra a Lazio, na Copa da Itália, e, no dia 12 de abril, rompeu novamente a patela, em uma das lesões mais chocantes do futebol. Desta vez ficou mais tempo fora e só retornou aos gramados em setembro de 2001, perdendo uma temporada inteira.

“Eu percebi imediatamente que o joelho tinha rompido. Eu tive que segurar o joelho no lugar, porque ele estava indo para a coxa. Foi uma lesão que realmente nunca tinha acontecido antes no futebol e não havia muita informação, então os primeiros 10 dias foram de total escuridão e tristeza. Eu tive que encontrar dentro de mim todo o amor pelo futebol, um amor que eu nem sabia que eu tinha”, contou Ronaldo.

“Eu nunca faltei um dia durante a fisioterapia e sempre esperei que pudesse voltar aos gramados. Eu sinto que os exercícios de treinamento que eu tive antes não ajudaram na situação”, relatou ainda o Fenômeno.

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A cicatriz no joelho de Ronaldo, em dezembro de 2001 (Getty Images)

O título que escapou

Quando Ronaldo chegou à Inter, havia uma sede para ganhar novamente o Campeonato Italiano. Os anos 90 foram amplamente dominados por Milan e Juventus. A última vez que o time azul e preto de Milão tinha sido campeão foi em 1988/89, sob o comando do técnico Giovanni Trapattoni e com os alemães, Andreas Brehme e Lothar Matthäus, além do atacante argentino Ramón Díaz.

A Inter era uma séria candidata ao título na temporada 2001/02. O time, com Ronaldo, se tornou ainda mais forte e o time fez uma campanha que tinha tudo para acabar em título. Líder até a última rodada, a Inter precisava vencer a Lazio na última rodada para garantir o título, mas perdeu por 4 a 2 e viu a Juventus passar e ficar com o scudetto. A Inter terminou dois pontos atrás, sendo ultrapassada também pela Roma, que ficou com um ponto a mais. O dia 5 de maio de 2002 deixou uma marca muito forte nos interistas e também em Ronaldo.

“Eu pensei nisso muitas vezes. Eu acho que fomos a campo muito convencidos que nós iríamos vencer. Eu também acho que [Héctor] Cúper escolheu a escalação errada, colocando jogadores demais no meio-campo. Houve alguns erros individuais também. Foi uma das maiores decepções da minha carreira”, contou o jogador.

Ronaldo iria então para a Copa do Mundo, ainda com muitas dúvidas sobre a sua condição física. Conseguiria fazer o torneio da sua vida, marcou oito gols, foi o artilheiro e o Brasil deixou o Japão com o seu quinto título na história. Pouco depois do Mundial, ele deixaria o clube e se transferiria para o Real Madrid.

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Saída da Inter

Ronaldo com o técnico Héctor Cúper ao fundo (Getty Images)

Contratado em 1997 como a maior transferência da história até então, US$ 27 milhões, Ronaldo se tornou ídolo da torcida especialmente porque suas atuações foram incríveis enquanto ele esteve em campo. A temporada 1997/98 foi uma das melhores da sua carreira em nível de desempenho.

Disputas com o técnico Héctor Cúper, porém, desgastaram a situação de Ronaldo com a Inter. Na sua última temporada, foram apenas 15 jogos disputados, com sete gols e uma assistência. Ele perdeu os primeiros três jogos da Serie A, ainda se recuperando da grave lesão no ano anterior. Chegou a ficar no banco já no dia 23 de setembro, mas ficaria fora do time novamente outros quatro jogos.

Ronaldo queria jogar mais, Cúper não estava convencido que o atacante estava recuperado. Ele ficou fora do time de 23 de dezembro de 2001 a 7 de abril, quando retornou ao time e ficou apenas no banco. Foi titular nas últimas quatro partidas daquela campanha, com quatro gols e uma assistência. Estava em campo naquela derrota para a Lazio por 4 a 2 e foi substituído aos 33 minutos do segundo tempo, mesmo com a Inter precisando da vitória. Cúper colocou Mohamed Kallon em campo.

“Eu nunca quis sair da Inter, eu sentia que era minha casa e que eu ficaria a vida toda. Eu nunca fui ao presidente para pedir que eles demitissem o técnico, porque isso não parecia certo e esse não era o meu estilo”, contou Ronaldo. “Contudo, nós chegamos a um ponto com Cúper que eu simplesmente não podia fazer mais nada. Ele não me tratava bem, de modo algum. Eu não sei se ganhar o scudetto teria me feito mudar de ideia”.

“Eu estava convencido que Massimo Moratti iria demitir Cúper, então foi uma surpresa horrível quando ele apoiou o técnico. Naquele momento, como eu era muito orgulhoso, eu decidi sair. A cidade que primeiro me amou agora me odiava. Eu precisei de proteção policial. Foi difícil. Eu adoro Moratti, ele era como um pai para mim. Nós chegamos à conclusão pelo nosso relacionamento que nós dois cometemos um erro”, declarou Ronaldo.

Moratti acabaria demitindo o técnico Héctor Cúper, mas apenas um pouco mais de um ano depois, em outubro de 2003. Ronaldo foi para o Real Madrid por € 45 milhões (próximo a € 59 milhões, em valores corrigidos) e ficou lá até janeiro de 2007, quando retornou à Itália para jogar pelo Milan. O Fenômeno jogou no Milan até fevereiro de 2008, quando se lesionou gravemente mais uma vez, e novamente com uma lesão na patela do joelho. De lá, acertou com o Corinthians no final de 2008 e jogou de 2009 até os primeiros meses de 2011, quando se aposentou.

Assista a todos os gols de Ronaldo pela Inter durante seus anos como nerazzurro: