Ronaldo fenômeno resolveu entrar para o time das celebridades que apoiaram a Copa do Mundo em 2011. Mais do que isso: se tornou membro do Comitê Organizador Local, o COL, uma forma do órgão ganhar credibilidade e manchetes. Foi naquele ano que ele soltou a frase que o persegue como um zagueiro carniceiro: “Não se faz Copa com hospitais”. É claro que tinha um contexto, que ele falava sobre a necessidade da construção dos estádios. Só que ele não entendeu que a crítica não era à construção dos estádios, mas sim à forma como se gastou dinheiro público para fazer isso. E desde então, Ronaldo colecionou declarações infelizes, usando as suas costas largas como uma forma de defender o Mundial. Eis que a 20 dias do torneio, ele se diz envergonhado com a organização da Copa, com os atrasos nas obras e com a falta de legado. Como se ele mesmo não fizesse parte do COL.

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O ex-jogador disse que as críticas da Fifa ao país são justas, porque o Brasil aceitou as condições e não conseguiu cumprir as promessas e os prazos estabelecidos. “E de repente chega aqui é essa burocracia toda, uma confusão, um disse me disse, são os atrasos. É uma pena. Eu me sinto envergonhado porque é o meu país, o país que eu amo e a gente não podia estar passando essa imagem para fora”, disse o ex-jogador da seleção.

“Os estádios, de uma maneira ou outra, vão estar prontos. Agora, o legado que fica para a população mesmo – as obras de infraestrutura, de mobilidade urbana, aeroportos – é uma pena que tenham atrasado tanto”, declarou ainda Ronaldo. “Perdemos muito tempo. Os governos deveriam ter feito as coisas muito antes”.

Só que Ronaldo acha, mesmo assim, que a Copa trouxe obras que não seriam feitas de outra forma e isso é positivo. “Vi cidades com muitas obras. Quem sabe quantas obras assim seriam feitas em Cuiabá se não fosse a Copa do Mundo? A Copa do Mundo é uma ferramenta que trouxe uma série de investimentos para o nosso país. Poderia ter sido perfeito, se fizessem tudo o que prometeram, mas isso não tem a ver com Copa do Mundo, tem a ver com os governos que prometeram e não cumpriram”, afirmou.

Ronaldo se esquece que é parte da organização. Se esquece que as cobranças que agora faz aos governos foram aliviadas por ele mesmo quando, lá atrás, já se criticava a falta de obras e a quase certa falta de legado, como infelizmente acabou acontecendo. Ronaldo pulou o muro em 2011, defendeu políticos e dirigentes, foi escudo de gente como Ricardo Trade, presidente (ou CEO, como gostam essas pessoas do mundo corporativo), alguém que não conseguiu mostrar-se capaz de organizar o Mundial a contento. Agora, com o barco avariado e o legado naufragando, pula para escapar e critica. Mas escolhe só os governos para criticar, esquece os dirigentes, aqueles que são companheiros dele no COL.

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Ronaldo não tem um papel executivo no COL, não exerce um cargo que lhe atribui atividades diárias. Não é, basicamente, parte da organização cotidiana da Copa. Mas emprestou a sua imagem a se prestou a defender a organização. E continua fazendo isso, só que passou a atacar a parte dos governos. Um mês depois de jantar com Aécio Neves, candidato a presidente pelo PSDB e opositor do atual governo de Dilma Rousseff, do PT. Que, aliás, era governador de Minas quando o Brasil tornou-se o país escolhido para fazer a Copa. E, assim como os governos de todos os estados que receberão a Copa, não parece que deixará um legado decente para a população. Nenhuma cidade deixará, de governo algum.

As declarações de Ronaldo parecem apenas uma forma de ser oportunista, de criticar a obra feita da qual ele, de alguma forma, participou. Romário, que também apoiou e esteve com dirigentes em 2007, mudou de lado há muito tempo e, dentro do seu cargo de deputado federal, passou a ser um crítico contumaz da organização do torneio. Aliás, trocou farpas com o próprio Ronaldo sobre essa questão da Copa do Mundo, sobre organização e legado.

O que seria mais condizente com tudo que fez desde que entrou para o COL seria Ronaldo dizer que se sente envergonhado, mas envergonhado de si mesmo. Não só dos governos, mas também dos dirigentes que o convidaram e dos colegas que se prestam a serem bobos da corte, como Bebeto, ou como Carlos Alberto Parreira, um passador de pano para gente da CBF há muito tempo, desde muito antes de gente como José Maria Marin e Marco Polo Del Nero assumirem os seus cargos.

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