Os sete gols sofridos em pouco mais de 100 minutos minariam as esperanças de qualquer time. O ânimo da Roma já havia sido surrado no primeiro jogo das semifinais da Liga dos Campeões, apesar da reação tardia em Anfield. E se tornava ainda mais difícil levantar o moral com os dois gols tomados em casa logo nos primeiros 25 minutos, ambos originados em erros pueris. A missão impossível dos giallorossi no Estádio Olímpico, entretanto, rendeu um segundo tempo titânico da equipe de Eusebio Di Francesco. Edin Dzeko era o principal encarregado de incorporar o espírito de luta dos romanistas, que não se entregaram jamais. O esforço rendeu três gols, 16 finalizações e uma impressão de que, com um pouco mais de tempo ou acertos da arbitragem, seria possível devolver o placar da ida.

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A Roma aprendeu com os erros na Inglaterra. Acertou a sua marcação, desta vez com quatro defensores, e tinha o controle da partida no Estádio Olímpico. De qualquer maneira, encontrou dificuldades para abrir espaços na zaga do Liverpool, um tanto quanto confortável na primeira etapa. Não fosse o lance bisonho entre Dejan Lovren e James Milner, os giallorossi não teriam criado tantas oportunidades assim para balançar as redes. Por mais que Stephan El Shaarawy incomodasse bastante pelo lado esquerdo, faltou um pouco mais de aproximação, com a equipe limitada aos arremates de longe. Já do outro lado, o vacilo de Radja Nainggolan e a pane coletiva após a cabeçada para trás de Dzeko permitiram que os Reds alargassem a vantagem em relação ao primeiro jogo, então com 7 a 3 no agregado.

Di Francesco precisava injetar adrenalina em seu time para o segundo tempo. E conseguiu, contra um Liverpool que preferiu se retrair, diante da vantagem ampla. A atitude da Roma era determinante dentro do cenário difícil, se impondo no campo de ataque, buscando o gol. Dzeko chamava a responsabilidade neste sentido. O pé do bósnio não estava tão calibrado, mas ele fez muitíssimo bem o seu papel como centroavante. Serviu de referência aos cruzamentos, brigou com a dupla de zaga adversária, explorou os espaços às costas da última linha, arriscou várias finalizações. Tornou-se uma liderança mais do que necessária a um time que amassava seus oponentes. Realmente desequilibrou, como se cobra a alguém de seu relevo.

Dzeko poderia ter gerado um pênalti à Roma, em lance negligenciado pela arbitragem, mas logo anotou o seu gol (em posição ligeiramente adiantada), aproveitando um rebote de Loris Karius. Balançou as redes pela oitava vez nesta Champions, com cinco tentos apenas nos mata-matas. E, mais do que um líder aos giallorossi, se tornava um exemplo por todo o empenho que demonstrava a cada bola. O time se entregava junto com o veterano, se esfolava à procura dos gols que mantivessem a respiração. À procura dos gols que mantivessem o pulso na competição continental.

Durante a pressão romanista da segunda etapa, outros personagens também têm seus méritos. Cengiz Ünder entrou para causar problema no mano a mano, enquanto Patrik Schick auxiliava tanto na criação quanto na presença de área. El Shaarawy aguentou enquanto pode, infernizando nos duelos pela esquerda. Aleksandar Kolarov e Alessandro Florenzi eram saídas fluídas pelas laterais. Alisson realizou defesas que permitiram a sobrevida. E o próprio Eusebio Di Francesco jogou sem medo, com alterações que mantiveram a intensidade do time. Em meio a esta segurança, créditos especiais a Kostas Manolas e Federico Fazio, bastante seguros para anular os contragolpes dos Reds, talvez o maior temor em atacar desta maneira.

Já nos minutos finais, a redenção ficou por conta de Radja Nainggolan. O erro inicial pesaria às costas do belga como vilão. Mas, em uma boa atuação, ele quase se transformou em salvador. O chute cirúrgico de fora da área aumentou as expectativas para os minutos finais. E o meio-campista não afinou durante a cobrança de pênalti nos acréscimos, enchendo o pé para superar Karius. Sua firmeza, ainda assim, não seria suficiente para garantir ao menos a prorrogação. Entre os erros pontuais e outras questões, a Roma pode lamentar a sua queda. Mas também deve se orgulhar da grande campanha que protagonizou e da exibição cheia de coragem para quase reverter outro confronto que parecia definido. O reconhecimento veio da torcida, através dos cânticos e aplausos ao apito final.

A Roma cresce depois destas semifinais. Sai com a certeza de que possui time para desejar mais. Há uma preocupação com o elenco de um clube que precisa vender para manter as contas, mas a união deste grupo indica que os giallorossi possuem uma base para os próximos anos, até pelos jovens talentos que despontam. E possuem, principalmente, um técnico para se colocar na primeira prateleira da Europa. Di Francesco não se priva a mudar e a arriscar, embora ainda cometa seus erros. Em evolução, pode continuar como o mentor de uma equipe ofensiva e cheia de energia. Uma Roma para a história, mesmo sem final.