Tal qual uma romada, o prêmio mais esperado não veio. Ainda assim, “Roma” pode ser considerado um dos grandes vencedores do Oscar 2019. O longa de Alfonso Cuarón recebeu dez nomeações, igualando o recorde histórico para um filme em língua diferente do inglês. Ao final, os mexicanos levaram para casa três estatuetas: melhor filme estrangeiro, melhor diretor e melhor fotografia. Pois a produção ainda fica marcada como um dos candidatos mais boleiros que já passaram pelo Oscar. Em diferentes momentos, o futebol permeia a narrativa – mesmo que faça aparições sutis dentro da história. Cuarón exibe, sobretudo, o tamanho de sua paixão pelo Cruz Azul.

Nascido em 1961, Cuarón cresceu em Colonia Roma, bairro na Cidade do México que inspirou a sua história. E o período que alimentou sua criatividade para o longa, o início dos anos 1970, também foi bastante frutífero ao Cruz Azul. O clube surgiu em 1927, fundado por trabalhadores da companhia cimenteira homônima, localizada no estado de Hidalgo. O sucesso dentro de campo levou os cementeros a representarem sua região em competições amadoras e a ingressarem na segunda divisão do Campeonato Mexicano a partir de 1961. Três anos depois, com um estádio recém-inaugurado na cidade de Jasso, a equipe alcançou a elite da competição. Já no final da década, a Máquina Celeste passou a erguer seus primeiros títulos.

O Cruz Azul virou um dos clubes mais populares do país naquele momento cabal ao futebol do México. Faturou de maneira inédita o Campeonato Mexicano em 1969 e, no ano seguinte, também ganhou uma edição especial da liga para celebrar a Copa do Mundo. No mesmo intervalo, conseguiu ainda o bicampeonato da Concachampions. Já em 1971, os cementeros deram um passo crucial em sua história. Atraindo cada vez mais torcedores, o clube decidiu deixar Hidalgo e se mudar à Cidade do México. Passaria a mandar seus jogos no Estádio Azteca, algo enorme para seu crescimento institucional – unido ao investimento de seus donos e à excelência esportiva.

Desta maneira, a transição para a capital não apenas sublinhou a grande fase do Cruz Azul, como também eternizou uma das equipes mais fortes que o futebol da América Latina já viu. Além de consumar o tricampeonato continental, o time levou mais três títulos nacionais até 1974. A chamada ‘Era de Ouro’, comandada por Raúl Cárdenas, lenda local em seus tempos como jogador e técnico de El Tri no Mundial de 1970. Embora a Máquina Celeste não tenha mantido sua força na metade final da década e até enfrente um incômodo jejum desde os anos 1990, a magia garantida naquela época de eclosão do futebol no país permanece no imaginário.

Alfonso Cuarón teve o gosto de ser um dos tantos meninos que se encantaram com a Copa do Mundo no México e que mantiveram a febre de bola aflorada com o grande futebol apresentado pelo Cruz Azul. O garoto da capital, então com 10 anos, embarcaria na onda de torcedores que passaram a apoiar os cementeros em sua mudança ao Azteca. E isso se percebe em diferentes momentos de sua obra, com a belíssima fotografia repleta de “easter eggs” fazendo alusão ao futebol – em especial, ao Cruz Azul. Por linhas tortas, ajuda a dimensionar a importância do esporte e do clube dentro no contexto da sociedade mexicana ao longo daquele período.

“É impossível retratar o México dos anos 1970 sem incluir a presença do Cruz Azul: seus caminhões, suas pinturas e seus muitos campeonatos”, escreveu Cuarón, em seu Twitter. Durante o final de 2018, inclusive, o diretor aproveitou as imagens do longa para desejar sorte os cementeros na reta final do Campeonato Mexicano. Porém, precisou amargar mais uma derrota, com a queda diante do rival América na final do Apertura. De certa maneira, ‘Green Book’ também deu motivos para os vizinhos ironizarem o jejum da Máquina Celeste. A importância daquele Cruz Azul ao futebol mexicano e de “Roma” ao cinema mexicano, ao menos, são inegáveis.

Abaixo, uma lista de cenas de “Roma” nas quais há alguma relação com o futebol. É possível que ainda outras tenham passado despercebidas. Confira:

– No quarto da família, há um pôster genérico da Copa de 1970, inspirado no original, e também um desenho do mascote Juanito (que não aparece na fotografia abaixo)

– Na periferia da cidade, há uma propaganda e um caminhão da “Cemento Cruz Azul”

– Na cena do acidente de automóvel, há também uma parede com menção ao “Cemento Cruz Azul”

– Durante a visita de Cleo à periferia da cidade, há inúmeros garotos batendo bola em um campo de terra batida

– Em uma cena na mesa de jantar, há a menção de um dos garotos ao período vitorioso do Cruz Azul no Campeonato Mexicano, enquanto também falam sobre futebol americano

– Durante a viagem à praia, Pepe usa a camisa do Cruz Azul da época

– Na cena do protesto, os manifestantes gritam o “Goya”. O cântico é tradicional entre os estudantes da UNAM, onde Cuarón se formou. Além disso, também é repetido nos jogos do Pumas, clube ligado à universidade. O “Goya” também aparece em um episódio do Chaves, no qual o Professor Jirafales revela torcer pelo Pumas.