Rogério Ceni terá o desafio da sua carreira, e o Flamengo terá um técnico de muito potencial

Com um elenco farto de talento e titubeando defensivamente, treinador terá a missão de ajeitar o sistema defensivo e reformar o Flamengo

O Flamengo anunciou o seu novo técnico, o que já parecia certo desde esta segunda-feira: Rogério Ceni, que deixou o Fortaleza. O contrato do ex-goleiro será até dezembro de 2021 e ele chega com a missão de recuperar a força que o Flamengo mostrava em 2019, mas que vinha sofrendo para manter sob o comando de Domènec Torrent. O treinador chegou ao Rio de Janeiro nesta terça-feira. Sua primeira missão será reorganizar a defesa do Flamengo, que se tornou tão frágil sob o comando do técnico catalão.

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É uma aposta dos dois lados. Rogério Ceni ainda é um técnico jovem, com uma carreira ainda pequena na casamata. Começou no São Paulo, em 2017, mas ficou pouco tempo no clube que se consagrou em campo, sete meses. Em 2018, assumiu o Fortaleza e se tornou ídolo, um dos maiores da história do clube com títulos cearenses, da Série B e da Copa do Nordeste. Sua passagem pelo Cruzeiro, em 2019, foi desastrosa. Menos por ele, é verdade, e mais por um clube desorganizado e um elenco rachado. Mesmo assim, é uma mancha no currículo.

No seu retorno ao Fortaleza, Ceni voltou a fazer um bom trabalho e foi além. Neste ano de 2020, complicou a vida de adversários mais ricos e mais fortes em confrontos por competições nacionais, como foi contra o São Paulo na Copa do Brasil, quando só perdeu nos pênaltis em confrontos equilibrados. Teve outros jogos importantes no Campeonato Brasileiro, como a vitória por 2 a 0 sobre o Palmeiras, no Ceará, ou sobre o Internacional, ainda em setembro, ou sobre o Atlético Mineiro, com um homem a menos, e mesmo ter dificultado a vida do próprio Flamengo, ainda com Domènec.

Ceni se mostrou maleável no seu trabalho pelo Fortaleza, montando times que podiam ser ofensivos ou mais defensivos, com diferentes estratégias de jogo. Na Série B, Ceni montou uma equipe majoritariamente agressiva, o que manteve em parte na Série A, mas com muito mais cuidados defensivos em 2019. Depois da passagem pelo Cruzeiro, Ceni em 2020 pareceu mostrar mais recursos no Fortaleza, se adaptando e montando times capazes de posturas bem diferentes em campo. Essa flexibilidade, que não se notou com Domènec Torrent, será importante no novo ambiente. Ceni conhece melhor a realidade do futebol brasileiro para adaptar detalhes do Fla e entender melhor os jogadores. Além disso, seu trabalho intenso e minucioso nos bastidores se assemelha bem mais com o que realizava Jorge Jesus.

O primeiro grande desafio de Rogério Ceni é organizar o sistema defensivo. Neste aspecto, ele vinha fazendo um bom trabalho: o Fortaleza sofreu 14 gols em 18 jogos (0,77 gol por jogo) e é a melhor defesa do Brasileirão. Mesmo em média de gols sofridos, já que o número de jogos é diferente, o time é o melhor. A segunda melhor defesa é do São Paulo, com 15 gols sofridos em 17 jogos (0,88 gol por jogo) e a terceira é a do Grêmio, com 17 gols sofridos em 19 jogos (0,89 gol por jogo). O Inter, o líder, tem também uma boa defesa, com 18 gols sofridos em 20 jogos (0,9 gol por jogo).

Nas competições, o primeiro desafio será curioso. O Flamengo, agora de Ceni, terá a estreia do novo treinador contra o São Paulo, clube que o consagrou, pela Copa do Brasil. Logo ele, eliminado pelo próprio São Paulo enquanto técnico do Fortaleza na fase anterior. Na Libertadores, o time tem o Racing, da Argentina, como adversário nas oitavas de final. As duas competições eliminatórias estão marcadas dentro dos próximos 30 dias, o que deve fazer a vida de Ceni no Flamengo já começar agitada. No Campeonato Brasileiro, o Flamengo é o terceiro colocado com 35 pontos, a um ponto do líder, Inter, que tem 36, completamente dentro da luta pelo título.

Uma informação importante para evitar o que aconteceu no Cruzeiro é a vontade dos jogadores. Segundo Paulo Vinícius Coelho, no GE, os jogadores queriam a contratação de Rogério Ceni. Com esse respaldo, o treinador terá muito mais probabilidade de dar certo. Ele ganha a oportunidade de comandar o melhor elenco do Brasil, com todas as competições ainda em aberto e com possibilidade de ser campeão. Será importante que o grupo também sinta a capacidade de Ceni no comando, algo que se perdeu com Domènec.

A saída de Rogério Ceni, desta vez, deixará mais marcas. Depois de ter largado o Leão do Pici para assumir o Cruzeiro em 2019, o clube cearense o recebeu de braços abertos para o retorno. Desta vez, porém, a ferida deve ficar aberta por mais tempo. Ele não deve ter portas abertas caso algo dê errado no rubro-negro, como aconteceu com o time celeste em 2019. O Fortaleza é muito maior que Rogério Ceni e o treinador será reconhecido pelos seus feitos, mas isso agora é história. O clube pode e deve pensar em ir ainda mais longe sem o treinador. O time tem potencial para seguir fazer uma bela história. Será preciso escolher bem quem continua essa trajetória do Leão.

Com a saída de Ceni do Fortaleza para o Flamengo, são 17 trocas de treinadores, sendo que dois clubes trocaram duas vezes (Coritiba e Goiás). Dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro, Atlético Mineiro, Flamengo, Fluminense, Santos, Grêmio e Ceará são os que continuam com o mesmo técnico desde o início.

Rogério Ceni, aos 47 anos, tem um grande desafio na sua carreira. O Flamengo dá a oportunidade de ganhar tudo, enquanto a pressão será equivalente. Com o potencial que mostrou até aqui e o potencial que o elenco do Flamengo demonstra ter, será ao menos interessante ver como essa história se desenvolve.