Em fevereiro, a CBF propôs um pacote de novidades ao futebol brasileiro. Entre as medidas aprovadas pelos clubes, estavam a introdução do VAR no Campeonato Brasileiro e a criação da Supercopa do Brasil. No entanto, nem todas as ideias receberam o “sim” da Série A. E uma regra que terminou barrada foi a limitação na troca de treinadores durante a competição. Cada clube poderia fazer apenas uma mudança ao longo das 38 rodadas. Os times não quiseram. E o ápice do imbróglio se nota nos últimos dias insanos ao redor do país.

A semana seria bem diferente, caso a medida tivesse sido acatada. E a própria vida de Rogério Ceni seria outra. É bastante questionável a maneira como o treinador foi demitido do Cruzeiro. O ex-goleiro aceitou até mesmo abrir mão de seus salários para seguir à frente dos celestes, algo que a diretoria não aprovou, diante da relação conturbada com nomes badalados do elenco. Ao final, a Raposa pagou a multa rescisória para tirar Ceni do Fortaleza e agora também precisará gastar mais alguns milhões pelo término antecipado do contrato que ia até dezembro de 2020. Enquanto isso, o comandante já recuperou o emprego antigo, sendo anunciado neste domingo (28).

Há uma discussão natural sobre a maneira como os clubes não valorizam o trabalho dos treinadores, com demissões precoces. Da mesma forma, alguns técnicos também não preservam tanto o seu vínculo com os clubes. No caso de Ceni, viu-se o ciclo completo. O ex-goleiro tinha uma ótima relação com o Fortaleza, mas vinha desgastado com a falta de contratações, e a queda de desempenho parecia natural. Preferiu dar um salto rumo à incerteza no Cruzeiro e imaginar um projeto maior. Não deu certo. Agora, retorna ao Leão do Pici, que não fez caso em demitir Zé Ricardo para recontratar seu antigo ídolo. A goleada do Athletico Paranaense veio a calhar.

“Quero me despedir do Fortaleza e de sua torcida e dizer que não faltaram empenho e comprometimento. Mas, no futebol, a pressão pelos resultados é muito grande, e, infelizmente, o tempo foi curto para a realização do trabalho. Agradeço ao presidente Marcelo e a toda a sua diretoria pela oportunidade e retidão comigo. Obrigado também à comissão técnica, aos jogadores e funcionários, muito dedicados, e aos torcedores que me apoiaram. Fico na torcida para que o clube alcance todos os seus objetivos”, despediu-se Zé Ricardo.

De fato, Zé Ricardo não fazia um bom trabalho no Fortaleza. O time perdia ainda mais força na tabela do Brasileirão e só havia conquistado uma vitória em sete partidas. Não apresentava tantas alternativas de jogo ou variações. Mais decisivo, a diretoria do Leão do Pici não pensou duas vezes quando viu Rogério Ceni livre no mercado. Recontratou o treinador que conquistou os dois maiores títulos do clube, que conhece tão bem o elenco e que praticava um futebol eficiente. Dá até para entender a postura dos tricolores, apenas três pontos acima da zona de rebaixamento. Entretanto, também fica a impressão de certa promiscuidade.

Vários debates éticos podem ser feitos ao redor do episódio. Ainda em sua saída, Rogério Ceni foi criticado por não seguir o seu compromisso com o clube. Agora, o maior ponto é sobre a maneira como Zé Ricardo se tornou meramente descartável. As opiniões são amplas. Ainda assim, fica difícil condenar totalmente a postura de qualquer um diante do ambiente apodrecido que persiste no futebol brasileiro quanto à escolha dos técnicos. O planejamento é mínimo, enquanto as instabilidades também acabam submetidas a puxadas de tapete. Assim, a ciranda girou intensamente nos últimos dias. Foi um verdadeiro efeito dominó.

Treinador de futebol no Brasil não precisa apenas montar um time competitivo. Precisa também lidar com os desmandos da diretoria e com os egos do elenco. Ceni sabia perfeitamente o cenário que encontraria num Cruzeiro sem rumo, com uma crise profunda por seus problemas político-econômicos nos bastidores e também com um elenco que já tinha acumulado atritos com Mano Menezes. Achou que conseguiria lidar com o campo minado e viu a explosão acontecer 45 dias depois. Viveu um “Maldito Futebol Clube” à mineira.

“Planejei treinamentos, trabalhei com afinco, escalei e substitui com convicção de estar fazendo um trabalho pautado na ética, de entregar para a torcida um time baseado em princípios modernos de técnica aliada a alta intensidade. Mas para manter isso é necessário liberdade de trabalho e que todos comprassem conosco essa ideia. E agradeço muito à grande parte dos jogadores que correu e se dedicou e a uma parte da diretoria que tentou me dar respaldo na implementação dessa ideia. Um clube vencedor só se faz com muita sintonia”, afirmou Ceni, em suas redes sociais. “A união pelo Cruzeiro deveria ser maior que qualquer interesse pessoal. Em todas as esferas.”

No Fortaleza, mesmo que o fluxo de reforços não tenha sido o ideal, Rogério Ceni segue com uma boa relação com a diretoria e é respeitado por seus jogadores. Ao que parece, terá até mais condições de sobreviver – não só ao final do campeonato no cargo, mas também ao rebaixamento. Entretanto, seis semanas valeram para desgastar sua imagem. Enquanto as diretorias tiverem o recurso de demitir técnicos para atender diferentes interesses, sobretudo para limpar sua barra, continuarão fazendo isso. Talvez só mesmo tal regra para limitar a questão – e já está claro que os clubes não a aprovarão.