Roger Milla x Higuita: 30 anos do lance que traçou a história de dois ícones do futebol

A Copa de 1990 muitas vezes é lembrada por ter apresentado um futebol pobre. No entanto, poucos Mundiais na história foram tão ricos em personagens. E o dia 23 de junho, há exatos 30 anos, gravou imagens inesquecíveis de figuras emblemáticas na Itália. Foi nesta data que o San Paolo recebeu o duelo entre duas sensações, Camarões e Colômbia. Apenas uma delas faria história rumo às quartas. Quis o destino que o resultado fosse selado pelo encontro titânico de dois jogadores tão talentosos quanto carismáticos. René Higuita, porém, primava por sua loucura. O excesso de confiança virou imprudência e o drible além da área resultou no mais amargo gol. Roger Milla roubou a bola. Aproveitou a meta vazia para concluir. E, em sorriso incontível, até hoje dança nas bandeirinhas de escanteio da memória de quem não se esquece da alegria dos Leões Indomáveis, primeira seleção africana entre as oito melhores de uma Copa.

Roger Milla e Higuita chegaram à Copa do Mundo em momentos bastante distintos de suas carreiras. O atacante era um nome histórico do futebol africano, mas visto sob desconfiança por seus próprios companheiros mais jovens, que não queriam sua convocação. Presente na Copa de 1982 e bicampeão da Copa Africana de Nações com Camarões, Milla havia se aposentado da equipe nacional três anos antes. Dono de uma trajetória respeitável no Campeonato Francês, o craque de 38 anos preparava-se à aposentadoria, ao se transferir ao futebol semi-profissional das Ilhas Reunião – onde já começava a estudar para ser treinador.

A ida de Roger Milla à Copa de 1990 surgiu como uma possibilidade a partir de dezembro de 1989. Presente no amistoso de despedida de Théophile Abega, seu antigo companheiro de seleção, o atacante foi ovacionado pela torcida e acabou com o jogo. A imprensa começou a perguntar se a convocação era palpável e os resultados ruins dos Leões Indomáveis reforçaram esta ideia. Até que Paul Biya, o ditador de Camarões, assinasse um decreto que determinava o chamado do veterano. “Eu me senti honrado por ajudar meu país, me senti em uma missão. Sabia que estava velho, mas concordei em disputar o Mundial para mostrar que a idade não é um obstáculo. Sentia que ainda poderia jogar e ajudar meu país”, declararia Milla, à revista Blizzard. Fora de forma, o ídolo passou por um regime especial de treinos antes do torneio.

Higuita, por outro lado, era um dos representantes mais fulgurantes do futebol-arte praticado pela Colômbia. O goleiro se tornou uma peça imprescindível no jogo ofensivo aplicado por Pacho Maturana, com sua habilidade acima da média com os pés. Seus dribles tresloucados começavam a abrir as marcações adversárias e iniciavam muitos dos ataques cafeteros. Mas, indo além de seu diferencial, Higuita também atravessava uma grande fase sob as traves. No ano anterior, foi herói do Atlético Nacional que conquistou o título da Copa Libertadores, pegando quatro pênaltis na final. Entre suas excentricidades e suas qualidades, o rapaz de 23 anos era um dos protagonistas do time colombiano que pedia atenção.

Pouca gente se lembra, mas Roger Milla era reserva de Camarões na Copa de 1990. Numa equipe que chegou desacreditada à Itália, o camisa 9 dava espaço a François Omam-Biyik e Cyrille Makanaky na linha de frente dos Leões Indomáveis. Durante a histórica vitória sobre a Argentina na abertura, o veterano seria um mero coadjuvante, saindo do banco para os dez minutos finais – embora tenha criado a jogada que quase rendeu o segundo gol nos acréscimos. Fez realmente a diferença na segunda rodada, quando atuou por cerca de meia hora contra a Romênia e deu força ao ataque. Em lances de ótima definição, anotou os dois gols camaroneses no triunfo por 2 a 1, que selou a classificação.

Aqueles tentos de Roger Milla, aliás, marcaram pela primeira vez sua tradicional comemoração – a célebre dança na bandeirinha de escanteio.”Não é uma dança real. Foi uma manifestação instantânea da minha alegria. Não foi de todo planejado! Senti vontade de dançar cada vez que balancei as redes. Foi a primeira vez que tive vontade de fazer essa dança”, explicaria, à revista Blizzard. Já na última rodada da fase de grupos, mesmo com o atacante saindo do banco já no primeiro tempo, ele não evitou a desastrosa goleada sofrida ante a União Soviética por 4 a 0. Apesar disso, os Leões Indomáveis ficaram na primeira colocação da chave.

Higuita, por sua vez, vinha com moral do Grupo D. Na estreia contra os Emirados Árabes, teve algum trabalho para manter o placar zerado no primeiro tempo, antes que a Colômbia encaminhasse a vitória por 2 a 0 na etapa complementar. Diante da Iugoslávia na segunda rodada, o goleiro nada pôde fazer no tento que determinou a derrota colombiana por 1 a 0, mas pegou um pênalti sem nem dar rebote. Já o grande resultado dos Cafeteros viria no terceiro compromisso, quando arrancaram o empate por 1 a 1 contra a Alemanha Ocidental e garantiram a inédita classificação às oitavas. Higuita chegou a aplicar um chapéu em Rudi Völler (embora quase tenha perdido a bola depois) e faria grande defesa quando Jürgen Klinsmann tentou encobri-lo. Ganharia “Nota 9” do jornal O Globo por sua exibição, sem culpa no tento de Pierre Littbarski.

Antes do encontro em Nápoles pelas oitavas de final, Higuita era o centro das atenções. Suas saídas como “goleiro-líbero” recebiam elogios da imprensa. Mas Maturana já alertava que o excesso de otimismo entre os jogadores colombianos era perigoso, especialmente depois da boa atuação contra a Alemanha. “O time de Camarões sabe tocar a bola e joga fechado na defesa. Isso dificultará bastante nosso trabalho. Teremos que sair para cima deles e isso contraria um pouco nossas características”, declarou o treinador. Já Camarões enfrentava seus problemas. Thomas N’Kono deveria ser barrado após a goleada soviética, com uma chance ao intempestivo Joseph-Antoine Bell. Enquanto isso, François Omam-Biyik não estava 100% e poderia abrir espaço a Milla entre os titulares.

Nada disso aconteceu. Bell acusou N’Kono de “ter se vendido aos soviéticos” e, em consequência, sequer ficou no banco, com a manutenção do titular. Omam-Biyik também ganhou carta branca dos médicos, deixando Milla de novo como reserva. E, por mais que Camarões tivesse encerrado a fase de grupos na primeira colocação, a Colômbia parecia mais pronta à classificação. Orquestrados por Pibe Valderrama, os Cafeteros dominaram o primeiro tempo no San Paolo. N’Kono seria obrigado a realizar boas defesas e, pouco antes do intervalo, uma cobrança de falta permitiu a Freddy Rincón carimbar a trave camaronesa. Higuita mal tinha sujado o uniforme.

O segundo tempo viu a Colômbia perder seu vigor, à medida que Camarões também cresceu. Roger Milla entrou em campo aos nove minutos, no lugar do habilidoso Louis-Paul Mfédé, e os Leões Indomáveis se tornaram mais agressivos. O camisa 9 estava com vontade e infernizava a marcação, embora sem criar chances tão claras. A defesa colombiana passou a ser bem mais exigida pela velocidade adversária e Higuita realizou suas primeiras defesas, batendo de frente com Milla. Ao menos, o goleiro mantinha a tranquilidade, com lances seguros. O empate sem gols prevaleceu, forçando a prorrogação, e o primeiro tempo extra também não teve emoções.

A definição da partida ficou para os 15 minutos finais. Logo no primeiro ataque, Camarões abriu o placar. A jogada foi toda assinada por Milla. O camisa 9 recebeu o lançamento, escapou de Leonel Álvarez, tabelou com Omam-Biyik e passou no meio de dois, deixando Andrés Escobar no chão, antes de invadir a área. De frente com Higuita, o veterano tirou proveito de sua experiência: contra um goleiro de pouca estatura, Milla encheu o pé no alto para estufar as redes. Na comemoração, de novo a dança na bandeirinha de escanteio.

O desespero bateu na Colômbia. E o lance mais famoso ocorreu dois minutos depois, encaminhando a vitória de Camarões. Com seu time todo no ataque, Higuita dominou sem precisão na intermediária e tentou driblar Roger Milla. Seu erro foi fatal. Após desarmar o adversário, o artilheiro partiu com o caminho aberto até a área e definiu com tranquilidade, antes que o goleiro chegasse no carrinho para tentar evitar o desastre. É o tento que vale toda uma história. A cinco minutos do fim, Bernardo Redín descontou aos colombianos, mas não conseguiu permitir uma reviravolta no placar. Milla fechou a partida com uma “Nota 10” e ainda virou vice-artilheiro da Copa, somando quatro tentos.

Aquele gol de Roger Milla, todavia, não tinha sido uma obra do acaso. O veterano já estudara Higuita bem antes. Ele tinha um informante: justamente o Pibe Valderrama. “Eu tinha jogado com Valderrama no Montpellier. Quando ele chegou, não conhecia a cidade e eu apresentei, então ficamos amigos. Certo dia, um ano antes da Copa, ele me deu uma fita de vídeo com os jogos da Colômbia. As imagens mostravam Higuita e seus dribles. Eu disse a Valderrama: ‘Se Camarões pegar a Colômbia no Mundial, ele não poderá fazer isso, temos jogadores rápidos e inteligentes’. Acabamos nos enfrentando e percebi que Higuita seguia com seus truques. Vi uma chance de desarmá-lo e fiz isso. Foi um bom planejamento”, contou o camaronês, anos depois, ao jornal The Guardian.

Já Higuita chorou bastante nos vestiários, mas se mostrou resignado com o passar dos anos. “Foi um tipo de erro que quem joga futebol comete: aqueles que amam a bola, que querem manter a bola nos pés e não apenas pretendem mandá-la para longe. O futebol é um jogo de erros e tirar vantagem dos erros acontece. Se perdêssemos de 2 a 0, não seria um problema, ninguém veria o erro de Higuita. Agora, você vê depois que descontamos. Todo mundo no time aceitou. Sabíamos que alguém poderia cometer um erro, então não precisamos de pessoas apontando a quem errou. Posso levantar minha mão e assumir. Sair jogando com os pés era uma maneira de me expressar. Foi algo que o mundo viu e outras figuras do futebol tomaram de exemplo”, relembrou ao livro World in Motion: The Inside Story of Italia ’90.

O sonho de Roger Milla na Copa do Mundo de 1990 acabou dias depois, contra a Inglaterra nas quartas de final. O veterano de novo saiu do banco. Passou em branco, mas sofreu um pênalti e deu uma assistência que possibilitaram a virada de Camarões no segundo tempo. Só que os ingleses buscaram a igualdade no final e, suando muito, saíram com a classificação na prorrogação. A grande história do atacante na competição, de qualquer forma, estava escrita.

Roger Milla e Higuita se encontrariam algumas vezes nos anos seguintes. As imagens de ambos no gramado em Nápoles podem até contar um episódio de vencedores e vencidos, mas dizem muito mais sobre duas personalidades tão marcantes do futebol. E que, entre a loucura ou o sorriso, sabem que aqueles instantes sempre os acompanharão. “Vi René algumas vezes, nos Estados Unidos e em Madri, temos o telefone um do outro. Ele não ficou bravo comigo, conversamos como irmãos. Ele me disse: ‘Isso é futebol, você jogou bem’. É um cavalheiro”, recontaria Milla. E a lembrança daquele lance, nos últimos dias, serviria até de brincadeira entre os dois sobre a importância ‘de não sair’ em tempos de pandemia. Dois futebolistas transcendentais.