Roberto Carlos é um dos jogadores brasileiros mais importantes da história do Real Madrid. Ficou no Real Madrid de 1996 a 2007, completando 11 anos pelo clube. A lista de títulos é bastante longa: são quatro títulos espanhóis e três de Champions League pelo clube merengue, onde viveu o famoso período dos galácticos. E contou histórias sobre a época de dividir o vestiário com outra superestrelas, com cervejas, vinhos e aviões particulares.

“O ambiente no vestiário, o ambiente no hotel… Havia ambiente de vestiário de verdade. Eu sinto falta disso, mas sempre há partidas beneficentes, vou e tento fazer as mesmas coisas dentro do ônibus. O ambiente do futebol é maravilhoso”, contou o jogador.

“Na época dos Galácticos, éramos sete. Era um perigo o vestiário. Sempre controlamos bem, tínhamos uma boa relação, menos com [José Antonio] Camacho [treinador em 2004] que aguentou 10 dias. Chegou ao vestiário, cumprimentou todo mundo muito sério e com história no Real Madrid. Eu só observava o que ia dizer: ‘Quero todo mundo amanhã às 7’. Normalmente, treinávamos às 10h30. Falávamos com ele para mudar o horário, nós tínhamos o nosso costume”, contou o ex-lateral-esquerdo.

Segundo Roberto Carlos, o mesmo aconteceu com Vanderlei Luxemburgo, que chegou ao clube também naquele ano de 2004 e apesar de ser brasileiro, como ele e Ronaldo, dois dos mais importantes jogadores do vestiário na época.

“Na segunda partida da liga, tínhamos o costume de chegar à concentração, deixar as malas nos quartos e, antes do jantar, tomarmos nossa cerveja e nosso vinho. Em cima da mesa sempre havia duas garrafas de vinho. Ronaldo e eu dissemos: ‘Professor, as pessoas aqui têm seus costumes, você vai ver, mas tente não mudá-los. Não tire as garrafas de vinho da mesa e a cerveja antes do jantar, porque se não vamos ter problemas’. O que ele fez? Tirou primeiro as cervejas e logo depois as garrafas de vinho. Durou três meses. O mundo do futebol é pequeno, as notícias vão chegando à diretoria e tchau”, contou o brasileiro.

Já o técnico Vicente Del Bosque se deu muito bem com os jogadores. “Era mais um amigo. O jogador sabe o que tem que fazer. Nos entendia perfeitamente. Os treinamentos de segunda eram às 17h. Não os colocava às 11h da manhã porque quase ninguém chegava”, contou ainda o jogador.

O Real Madrid tinha David Beckham, Ronaldo, Luis Figo e Zinedine Zidane, entre outros. E Roberto Carlos contou um pouco de bastidores. “Eu penso hoje: Como é possível que fizemos tantas bobagens? Acabava cada partida e era muitos aviões privados. Nos encontrávamos no terminal privado em Barajas. Era Beckham que ia não sei onde, Figo, Zidane que ia a tal lugar, Ronaldo, eu… E tínhamos que treinar depois de amanhã. Eu rezava para que as partidas fossem aos sábados para poder ir à Fórmula 1 aos domingos. Eram voos privados para todos os lados. Uma loucura”, relatou o ex-jogador.

Os Galácticos do Real Madrid acabaram não conquistando tantos títulos quanto se esperava. Foi uma era chamada assim porque o presidente de então, Florentino Pérez – que voltou a estar por lá – contratou muitas estrelas para o time. A primeira era galáctica é tratada como iniciada em 2001, com a chegada de Zinedine Zidane, e encerrada com saída de David Beckham, em 2007.

Esta primeira era galáctica foi marcada por muitas estrelas, mas poucos títulos. E olha que começou muito bem. O time conquistou, logo de cara, a Champions League, na temporada 2001/02 – aquele do golaço icônico de Zinedine Zidane na final contra o Bayer Leverkusen, em Glasgow. Na temporada seguinte, conquistou o título espanhol, em 2002/03, já com Ronaldo no elenco. Depois disso, porém, os títulos minguaram.

O time não voltaria a ganhar a Champions League. Chegou à semifinal em 2002/03 e às quartas de final no ano seguinte, 2003/04. Depois disso, foi eliminado nas oitavas de final seguidamente até a temporada 2009/10 – já bem depois do fim daquela geração galáctica. No Campeonato Espanhol, o time venceria em 2006/07, já no canto do cisne daquela era, com Ronaldo deixando o clube no meio da temporada para ir para o Milan e Roberto Carlos deixando os merengues, já com Marcelo à sua sombra.

As confissões de Roberto Carlos chamam a atenção, ainda que não surpreendam. Havia uma sensação na época que o Real Madrid era um time de superestrelas, mas que faltava o coletivo. O clube empilhava jogadores ofensivos, o que fez com que todos os técnicos sofressem para armar a equipe. Beckham terminou a sua carreira no clube merengue jogando no centro do campo, equilibrando um time desequilibrado com tantos atacantes, em campo e no banco.

O que Roberto Carlos fala sobre o Real Madrid mostra um time que era difícil de ser administrado. Havia um vestiário cheio de jogadores consagrados que nem mesmo um Camacho com experiência e história foi capaz de lidar. Nem mesmo Luxemburgo, com o seu conhecimento desse tipo no Brasil e a proximidade com os jogadores tornou possível. Muito mais que questões táticas ou falta de conhecimento da língua, parece que Luxemburgo entrou em um turbilhão que moeu técnicos no Real Madrid por anos. E, a bem da verdade, continua acontecen do por lá.