Roberto Baggio é um dos maiores jogadores da história da Itália. Chamado de Il Divin Codino (“O rabo de cavalo divino”), jogou por grandes clubes italianos ao longo de uma longa carreira, marcando época por sua habilidade e magia em campo. Apesar da carreira consagrada, com títulos e grandes atuações, Baggio ficou muito marcado na história do futebol pelo pênalti perdido na final da Copa do Mundo de 1994, a primeira decidida nos pênaltis na história. O camisa 10 italiano, que jogou durante todo o Mundial machucado, perdeu o pênalti que decidiu a disputa a favor do Brasil. Aquele lance segue vivo como um pesadelo para o ex-atacante, que ainda pensa nisso.

“Quando eu era um garoto, eu costumava jogar com uma bola de tênis e quebrei tantas janelas… O que falta aos garotos de hoje é a alegria de jogar futebol em qualquer lugar, mesmo na rua”, disse Baggio durante o Festival dello Sport, em Trento.

“A coisa mais importante na carreira de um jogador de futebol é a humildade, porque dessa forma você não fica com medo das derrotas, uma vez que você já sabe como voltar a ficar de pé na vida”, contou Baggio. “Eu sempre vivi o afeto dos torcedores ao me colocar no lugar deles. Eu sei o que significa encontrar o seu ídolo um dia, então eu percebi o quanto é importante dedicar algum tempo aos torcedores. Eu joguei o meu futebol com desejo de passar alegria aos outros”.

O início na Fiorentina e a saída conturbada

Baggio começou a carreira pelo Vicenza, em 1982. Ficou no clube até 1985, quando foi contratado pela Fiorentina. O início da carrera na Viola, porém, foi um pesadelo para o então jovem jogador. “Foi um sonho para mim vestir a camisa do Vicenza. Eu cheguei à Fiorentina depois de uma lesão séria, então eu não joguei por dois anos e no terceiro eu ainda não estava completamente recuperado. As lesões foram um pesadelo. No dia seguinte à minha primeira operação no meu joelho, eu pedi para a minha mãe me matar”, revelou o ex-jogador.

“Quando eu joguei bem, eu senti que eu estava em dívida com os torcedores que esperaram por mim. Uma ligação profunda foi criada com os torcedores da Fiorentina e eu tentei muito continuar na Viola, mas tudo foi decidido por mim. Eu apenas desejava que eles fossem mais claros”, contou.

Baggio deixou a Fiorentina para seguir para a Juventus, o que causou revolta nos torcedores de Florença. Os dois clubes têm uma rivalidade forte e os torcedores da Fiorentina consideram a Juventus a sua principal rival, ainda que o oposto não aconteça. Por isso, a ida de Baggio para a Juventus, em 1990, despertou uma ira tão grande e foi uma novela.

A rivalidade entre os dois clubes já estava muito acirrada desde 1982, quando a Juve ficou com o título da Serie A nos últimos jogos da temporada, em uma disputa acirrada com a Fiorentina, que buscava uma taça que não ia para Florença desde a temporada 1968/69 e que não veio até os dias atuais.

A situação da Fiorentina em 1990 era muito ruim financeiramente e o clube precisava vender jogadores para levantar recursos. E surgiu um rumor que deixou os torcedores revoltados: justamente o seu principal jogador, Roberto Baggio, o craque do time, seria vendido para a Juventus. Os rumores já causaram um alvoroço. E o rumor se tornou realidade: Baggio se transferiu para a Juventus. Os torcedores, então, foram até a sede do clube protestar. E a coisa saiu do controle.

Revoltados com a diretoria, torcedores arremessaram objetos, como tijolos e coquetéis molotov, contra a sede da Fiorentina. Nos dois dias seguintes, o presidente da Fiorentina, Flavio Pontello, teve que se esconder dentro da sede do clube, por medo da violência da torcida Cerca de 50 pessoas ficaram feridas e nove foram presas. A história que se vendeu era que Baggio quis sair, mas ele mesmo dizia que não. Pontello, mais tarde, admitiria que ele acertou a venda e precisava do dinheiro da venda para tocar o dia a dia do clube. Mas a ira da torcida contra Baggio não diminuiu.

“Eu não queria ir embora, me senti culpado sobre o que estava acontecendo. Muitas pessoas acabaram no hospital por aqueles incidentes. Uma pequena consolação foi que, no final, tudo aconteceu. Pontello admitiu, mas eu carreguei um fardo por muitos anos”, contou o ex-atacante.

“Foram três dias de caos, os torcedores não aceitaram a situação e eu senti culpa por ser a causa de tudo aquilo, mesmo que eu fosse o último a ser culpado. Eu sempre disse a verdade, mas o que realmente aconteceu só veio à tona depois de 20 anos”, contou.

Bola de Ouro, Juve, Milan e Inter

Roberto Baggio ganhou o Bola de Ouro, da revista France Football, e o prêmio de Melhor do Mundo da Fifa em 1993. “Eu não esperava [pelos prêmios], eu só estava pensando no time e a Juventus realmente sofreu ao estar na Serie A ao mesmo tempo que aquele grande Milan”, contou.

Em 1995, Baggio trocou a Juventus pelo Milan, em uma transferência que chamou muito a atenção. Ele tinha acabado de conquistar o título italiano em 1994/95, logo depois da Copa do Mundo de 1994. Só que a temporada terminou mal e a direção da Juventus não queria renovar com o astro, a não ser que ele baixasse o salário em 50%. Viam em Alessandro Del Piero o seu substituto e planejavam dar a camisa 10 ao garoto. Assim, ele foi vendido ao Milan, em uma operação que envolveu o técnico Fabio Capello e o presidente do time de Milão, Silvio Berlusconi. Torcedores da Juventus protestaram pela saída do astro.

“Eu ganhei o scudetto com o Milan em 1995/96 e joguei com muitos grandes campeões. O Bologna foi um passo importante porque no Milan eu estava arriscado a não jogar consistentemente e perder a Copa do Mundo de 1998, então eu decidi sair. Eu descobri uma cidade fantástica em Bologna e eu joguei, o que me fez feliz”.

Depois do Bologna, Baggio se transferiu para a Internazionale em 1998, onde jogou com grandes nomes como Christian Vieri e Ronaldo. Era o seu clube do coração, segundo ele conta na sua biografia, e, assim, realizou o sonho. “Eu fiquei muito feliz em vestir a camisa da Inter, já que eles tinham tentado me contratar já em janeiro, mas eu não podia trair o Bologna e sair no meio da temporada”.

“No Brescia, eu estava procurando por um clube mais perto de casa depois de treinar por mim mesmo. Eu esperava que o Vicenza me ligaria, mas eles não pareceram trabalhar por isso… Uma noite, o telefone tocou e Carlo Mazzone queria falar comigo sobre o Brescia. Foi onde o conto de fadas começou. Mazzone não tinha interesse em conflito, ele é um homem sábio”.

“Eu tive a sorte de ser treinado por ótimos técnicos. Às vezes os relacionamentos terminavam devido a algumas divergências. Talvez porque as pessoas me amavam, sempre havia muito carinho ao meu redor, e se eu jogasse bem, elas falavam de mim. E se eu não jogasse, eles critivavam porque não me deixaram jogar. Não sei, talvez tenha sido isso. Mas nunca fiz nada para me colocar acima dos outros, muito menos acima de um treinador. Sempre tentei fazer o meu melhor pelo time”, afirmou Baggio.

O jogador comentou especificamente sobre o técnico Carlo Mazzone, com quem trabalhou na reta final de carreira, no Brescia. Baggio jogou por quatro anos no clube, de 2000 a 2004. Mazzone o dirigiu até 2003. “Ele me ensinou a simplicidade, algo que eu já tinha em mim e por isso que entramos em sintonia imediatamente”, declarou Baggio.

Cristiano Ronaldo e Messi

“Cristiano Ronaldo e Messi? Todos fenômenos. Dybala tem uma qualidade incrível, a Juventus com Sarri tem um técnico que no Napoli fez o time jogar um belo futebol, mas é preciso de tempo. Neymar é divertido, não dá para definir jogadores que são fenômenos assim”, avaliou o ex-jogador.

“Eu gostaria de jogar neste futebol, quando o árbitro mantém a barreira na distância certa… Pense quantos gols eu poderia ter feito e não apenas eu, pense em Zico, Mihajlovic e muitos outros”, disse Baggio.

Copa do Mundo pela Itália

Baggio também falou sobre Copa do Mundo, algo que ele viveu três vezes. Em 1990, quando foi destaque da Itália que chegou à semifinal em casa, mas acabou derrotada pela Argentina; em 1994, quando era o principal jogador do time, mas jogou machucado e acabou perdendo o pênalti decisivo na disputa de penalidades na final; e em 1998, que foi com a Itália até as quartas de final, quando perderam para a anfitriã, França, nos pênaltis. Baggio, porém, acha que poderia ter ido além e disputado também a Copa do Mundo de 2002, no Japão e Coreia do Sul.

“Pela primeira vez, eu talvez pareça arrogante, mas eu merecia ser convocado para a Copa do Mundo de 2002, ainda que houvesse algumas dúvidas sobre o meu físico”, disse o jogador. Foi a primeira Copa que os técnicos puderam convocar 23 jogadores, e não mais apenas 22, como foi até 1998. A Fifa esperava que dois jogadores que atuavam na Itália pudessem estar no Mundial: Ronaldo, o Fenômeno, e justamente Roberto Baggio.

“Foi uma decepção profunda, semelhante à de Pasadena [na final da Copa de 1994]. Talvez até por esse motivo eu fique longe do futebol. Porque em mim havia um desejo de vingança logo após o pênalti. Nunca cobrei um pênalti daquele jeito na minha vida. Talvez alto, mas não tão acima da trave. Às vezes, mesmo antes de dormir, eu penso naquele pênalti”, revelou Baggio.

“Quando criança, eu sonhava jogar uma final de Copa do Mundo entre Itália e Brasil. A única coisa que eu não sonhava era que terminaria comigo perdendo um pênalti”, disse. “Eu faria tudo para compensar pela Copa de 1994”, disse ainda o jogador, em lágrimas ao falar sobre o assunto.

Baggio ficará para sempre na história do futebol pelo que fez no futebol italiano que era muito forte na sua época. Foi um grande craque de uma época que a Itália ficou perto, mas nunca venceu a Copa. Mesmo assim, pelos clubes, Baggio foi gigante, com uma coleção farta de grandes jogos. O pênalti sempre será uma cicatriz, mas não pode apagar a grandeza de Baggio.