Cada grande cidade brasileira – talvez cada cidade – teve alguns jornalistas capazes de catalisarem discussões. No esporte, nunca foi diferente: sempre houve aquele comentarista cujas opiniões eram ouvidas, mesmo que fosse para discordar de cada palavra delas. Por mais que a expressão tenha caído em desuso, dá para dizer: eram “formadores de opinião”, seus modos de falar viravam até estereótipos. No Amazonas, havia Carlos Zamith; na Bahia, o radialista França Teixeira; em Minas Gerais, Oswaldo Faria; no Rio de Janeiro, João Saldanha (e em sua figura, talvez, todos os comentaristas/narradores do rádio fluminense entre os anos 1950 e 1980); no Rio Grande do Sul, Paulo Sant’anna… pois bem, São Paulo perdeu um desses símbolos do que é ser jornalista esportivo, para o bem e o mal, nesta segunda, com o falecimento de Roberto Francisco Avallone, aos 72 anos, vitimado por uma parada cardíaca.

Talvez Avallone nem pensasse que seria isso, quando começou a carreira no jornalismo, em 1966, no jornal “Última Hora”, após se formar em Ciências Sociais na PUC paulistana. De qualquer forma, o caminho começou a ser traçado no ano seguinte, quando ele foi trabalhar no “Jornal da Tarde”. Para qualquer jornalista radicado em São Paulo, aquele era um dos melhores veículos para se estar naquele momento histórico (final dos anos 1960). Iniciado no ano anterior, inspirado pela “Edição de Esportes” do seu irmão maior (“O Estado de S. Paulo”), o “Jornal da Tarde” ousava: manchetes criativas, matérias que procuravam o que não estava sendo falado, um estilo atraente de fotografias. E poucos cadernos do “Jornal da Tarde” mostravam isso tão escancaradamente quanto a “Edição de Esportes”, leitura obrigatória às segundas-feiras para todo paulistano que gostasse de futebol .

No “JT”, Roberto aprendeu muito bem a fazer jornalismo. Foi repórter elogiado. De repórter, passou a “pauteiro” – na linguagem do jornalismo, aquele que define “as pautas”, define os assuntos atrás dos quais os repórteres teriam de correr para apurarem e escreverem suas matérias. No prefácio a “As incríveis histórias do futebol”, único livro de Avallone (São Paulo, Editora Tipo, 1999), seu colega de redação Mário Marinho descreveu o reconhecimento: “De excelente repórter, de excelente texto, Roberto Avallone passou a pauteiro do JT. Avallone na chefia de reportagem e eu na chefia da Editoria de Esportes. Modéstia às favas, fizemos uma dupla e comandamos uma superequipe de esportes no ‘Jornal da Tarde’. A mais premiada de todas: incontáveis Prêmios Esso e incontáveis Troféus Ford ACEESP [Associação dos Cronistas Esportivas do Estado de São Paulo]”.

De fato: foram dois Prêmios Esso de Informação Esportiva, pelas coberturas das Copas de 1978 e 1986. Paralelamente a isso, matérias de vulto. Que chamavam a atenção de muitos que amavam futebol naquela década de 1970, em São Paulo. Como um cidadão que era garoto naquela década e virou jornalista: Paulo Vinícius de Mello Coelho. Sim, PVC acompanhava o trabalho de Avallone – e descreveu a qualidade em texto para o livro “Jornalismo Esportivo”, lançado em 2003: “Investia em grandes reportagens, impressionava pela capacidade de apuração. Nos anos 70, tornou-se o principal nome do caderno de esportes do ‘Jornal da Tarde’, junto com Vital Battaglia”.

Reconhecimento a Avallone como jornalista, não faltava. No entanto, a década de 1980 trouxe uma mudança decisiva em sua carreira. Em 1984, foi convidado para ser o diretor de esportes da TV Gazeta, emissora paulista. Aceitou, com uma obrigação: trazer fôlego novo à “Mesa Redonda”, clássico debate esportivo noturno exibido aos domingos pelo canal da Fundação Cásper Líbero, muito popular nos anos 1970, pelo ar nitroglicerínico das discussões. Favorecido pela defesa apaixonada que os principais debatedores faziam de seus times: Peirão de Castro (santista), José Italiano (corintiano) e Milton Peruzzi (palmeirense).

Era um desafio para um “tímido quando lhe apontavam um microfone”, como Avallone era, segundo as palavras de Mário Marinho nas palavras que prefaciaram seu livro. Desafio que começou a ser superado de múltiplas maneiras. Primeiro, ampliando o lado informativo do “Mesa Redonda”: PVC escreveu se lembrar de um bloco do debate, em 1984, dedicado totalmente à Eurocopa que acontecia na França – uma raridade, em tempos de monopolização da televisão aberta. Segundo, abrindo espaço para vários colegas: dos tempos de “JT”, Edison Scatamachia e Mário Marinho foram fazer parte da equipe do “Mesa” – Edison dirigindo, Mário debatendo -, e lá Milton Neves teve suas primeiras participações televisivas. Terceiro, dando espaço a algumas revelações: um game-show da Gazeta envolvendo torcidas de clubes paulistas tinha apresentação de um novato chamado Luis Roberto, e quem apresentava o “Sábado Esporte”, noticioso da hora do almoço no dia citado, era um jovem chamado Cléber Machado.

Em quarto lugar, e mais importante, Avallone realçou o papel do esporte na TV Gazeta ao chamar a atenção dentro do “Mesa Redonda”. Passou a ser um apresentador desenvolto, se valendo dos tempos de jornal para criar bordões e maneirismos. Bordões como “No pique!”, para acelerar o programa, ou “Aqui tem comando!”, para tentar controlar uma discussão que saía do controle na mesa. E maneirismos como aquele pelo qual sempre será conhecido, e que um dia explicou. Ao escrever, era fácil dar ênfase a uma frase, por meio da pontuação. Isso se tornava mais difícil por meio da fala. A partir daí, Avallone começou com os famosos “interrogação?” e “exclamação!”: para realçar o que pretendia dizer, como explicou ao UOL em 2013: “Esses bordões são expressões que eu já usava quando trabalhava em jornal. Eu falo ‘interrogação’ para ficar mais enfático, pois estou na televisão”.

Avallone acumulou TV Gazeta e “Jornal da Tarde” até 1988, quando ficou só com a televisão – “Paga muito melhor e dá ao jornalista que trabalha com esporte uma visibilidade que os jornais não oferecem mais”, como comentou a PVC no livro “Jornalismo Esportivo”. A partir de então, se tornou uma das estrelas da Gazeta. Para o bem e para o mal. Na opinião de alguns – muitos deles, leitores do “Jornal da Tarde” -, deixou de lado a informação, matéria-prima do jornalismo, para apelar ao histrionismo, ao exagero puro e simples, cativando a audiência.

Para o bem, Avallone conseguia fazer isso, de fato. Qualquer amante de futebol em São Paulo, nas décadas de 1980 e 1990, sabia: tinha no canal 11, a partir das 21h, parada obrigatória. Era quando começava o “Mesa Redonda – Futebol Debate”. Primeiro, matérias mais criativas, para competir com os “Gols do Fantástico”, exibidos no dominical da TV Globo. Quem explicou foi um dos parceiros históricos de Avallone: Chico Lang, vindo para o “Mesa Redonda” em 1990, falando ao UOL no ano passado. “Dez horas começava o Mesa Redonda. No mesmo horário tinha os ‘Gols do Fantástico’. Não tinha um filho da mãe que não via os ‘Gols do Fantástico’ com o Leo Batista. O Avallone falou: ‘Vamos fazer o que a Globo não faz’. Começaram as reportagens nos vestiários no pós-jogo, os bastidores da vida privada do jogador: o carro, a casa, o hobby”. O resto seria debater as polêmicas do jogo.

Tais métodos levaram o programa até a vencer a TV Globo na audiência em São Paulo – mais precisamente, no dia 30 de maio de 1993, quando o Corinthians fizera 1 a 0 no São Paulo, pelo Campeonato Paulista, com um gol impedido de Neto. Enquanto a Globo exibia o “Festival Charles Chaplin”, a Gazeta mostrou um “Mesa Redonda” totalmente vinculado àquele jogo – e à polêmica. Em 2013, Avallone comentou: “Naquela noite, a Globo teve um episódio ótimo do Charles Chaplin, mas era cult. Nossa mesa redonda estava cheia de polêmicas, pois o Corinthians tinha vencido o São Paulo com um gol do Neto, mas foi contestado…era ruim o festival do Chaplin? Pelo contrário. Só que pegava uma faixa de público mais específica”. E a faixa de público que gostava de esportes em São Paulo ficava toda com o “Mesa Redonda”. Em dias de título, então, os destaques do time campeão debatiam, e as imagens se intercalavam com as torcidas comemorando na Avenida Paulista. Foi assim, por exemplo, em 1993, com o Palmeiras campeão paulista. Enfim: o “Mesa Redonda” era uma verdadeira instituição paulistana, estereótipo tão dominical da cidade quanto comer pizza à noite.

Aos poucos, porém, o estilo foi se desgastando. Muitos consideram que outubro de 1997 trouxe o ponto culminante para o início do desgaste: uma discussão pública entre Avallone e Milton Neves, durante um “Mesa Redonda”, motivada por uma participação deste numa apresentação de um evento no Corinthians, causando discordâncias de Avallone, por proximidade supostamente pouco recomendável com o clube. O debate já se dava nas colunas de ambos em jornais – Milton Neves no “Diário Popular”, Avallone em “A Gazeta Esportiva”. E teve um momento tenso naquele “Mesa Redonda”. Depois, Avallone pediu desculpas – “estava com um problema, pouco lítio no sangue”, segundo Milton Neves explicou -, e os dois voltaram a ter relações cordiais (tanto que coube a Milton noticiar a morte de Avallone, nas rádios do Grupo Bandeirantes em que trabalha). No entanto, para muitos, a partir dali, o âncora nunca mais foi o mesmo. Até deixar a Gazeta, em 2003, após 19 anos.

A carreira continuou. Em 2003, Avallone foi para a Rede TV!, apresentando tanto o noticiário “Rede TV! Esporte” (no qual sucedia Jorge Kajuru) quanto o “Bola na Rede”, mais um debate noturno dominical (em que sucedeu Juca Kfouri). Ficou lá até 2005, quando se transferiu para a Bandeirantes, na qual tanto apresentava o “Esporte Total + Interativo”, dentro da parceria que a emissora paulista tinha com o Esporte Interativo, quanto comentava sobre futebol no “Jornal da Band”. Em 2007, deixou a Band. E ficou fora da televisão. Na volta, em 2009, foi para a CNT, apresentando outra mesa-redonda, “No Pique”, que durou até 2012. Paralelamente, fazia participações em rádios de São Paulo, como Bandeirantes ou Capital.

Então, Avallone já era um símbolo de um jornalismo que não era mais o mesmo. Mantinha seus vínculos com as novidades, como um blog no UOL, aberto em 2012. Até que, em 2015, passou a ser convidado frequente do “Redação SporTV”, por convites de André Rizek (mais um jovem paulistano cativado pela “Mesa Redonda” da Gazeta na década de 1980/1990).

Para sempre Avallone foi grato por aquilo. E por meio dessas participações, se fez conhecido para alguns das novas gerações. Além de confirmar o que já se sabia, e o que está sendo lembrado nesta segunda: entre o repórter de jornal dos anos 1970 e o apresentador marcante e histriônico, amado por uns e odiado por outros, dos anos 1980 e 1990, ele virou nome comentado em São Paulo até por quem não ligava para futebol. Um símbolo do jeito paulista(no) de ver a modalidade – ponto final.