As lembranças mais reluzentes que Robbie Keane deixa ao futebol são aquelas vestindo a camisa verde, da seleção irlandesa. O artilheiro já acumulava seus gols pela equipe nacional desde 1998, quando participou das eliminatórias para a Euro 2000. De qualquer maneira, sua apresentação ao restante do mundo veio na Copa do Mundo de 2002. Carregou os irlandeses em uma campanha digna. Durante a fase de grupos, garantiu o empate no último minuto contra a Alemanha e abriu o placar na vitória sobre a Arábia Saudita. Já nas oitavas, forçou os pênaltis contra a Espanha, quase deixando a Fúria pelo caminho. Se no início perguntavam se aquele era o “irmão de Roy Keane” (e não era, sem qualquer parentesco com o volante), com o tempo o artilheiro criou luz própria. Foram 68 tentos pelos Boys in Green, quinta maior marca por uma seleção entre jogadores europeus. E uma longa trajetória por clubes, que se encerrou nesta quarta-feira, quando o veterano confirmou sua aposentadoria aos 38 anos.

Robbie Keane teve uma carreira movimentada por clubes. Foi descoberto ainda na Irlanda pelo Wolverhampton, mudando-se à Inglaterra aos 15 anos. Logo despontou pelos Lobos e não sentiu o peso da estreia, anotando 22 gols em suas duas primeiras temporadas no Estádio Molineux, na segunda divisão do Campeonato Inglês. O adolescente também emplacou na seleção, estreando antes de completar 18 anos, na mesma época em que conquistou o Campeonato Europeu Sub-18. Badalação que o levou ao Coventry City, disputando a Premier League em 1999/00, e que logo rendeu uma transferência à Internazionale. As expectativas sobre o garoto, todavia, não se confirmaram na Itália. Comprado por £13 milhões, ficou apenas uma temporada com os nerazzurri. Marcello Lippi, que o contratara, logo foi demitido e o irlandês não caiu nas graças de Marco Tardelli, o novo treinador interista. Deixou Milão com apenas quatro gols anotados, em 13 jogos disputados, transferido ao Leeds.

Em Elland Road, Keane recuperou sua forma e ganhou a convocação para a Copa de 2002, seu primeiro torneio internacional. Às vésperas de completar 22 anos, deixou ótimas impressões na Coreia do Sul e no Japão. Era um atacante com faro de gol, mas que também combinava muita mobilidade e explosão. Não tinha grande estatura, se valendo da inteligência e do ótimo senso de posicionamento para se combinar com um centroavante mais fixo. Abria espaços aos companheiros e sabia potencializar a equipe da Irlanda, na época com uma geração que se apontava como promissora. Não cumpriram aquilo tudo que se esperava, mas os Boys in Green seguiram fazendo campanhas relevantes internacionalmente, sobretudo graças ao artilheiro.

Enquanto o Leeds perdia força, Robbie Keane acabou mudando de ares. Logo após a Copa de 2002, assinou com o Tottenham e se transformou em um dos principais ídolos dos Spurs na década. Os tentos do artilheiro irlandês eram praticamente uma certeza, em tempos mais modestos em White Hart Lane. Não que brigasse pela artilharia da Premier League, longe disso. Mas em seis temporadas consecutivas, sempre registrou dois dígitos, acumulando 80 gols na liga. Formou duplas célebres com Teddy Sheringham, Jermain Defoe, Mido e (principalmente) Dimitar Berbatov. O auge da parceria com o búlgaro, aliás, abriu as portas em Anfield para Keane. Transferiu-se ao Liverpool por £19 milhões, em negócio que criou rusgas entre os clubes. Uma bolada que nunca se pagou.

Diante da influência do Liverpool dentro da comunidade irlandesa, Robbie Keane declarou que era torcedor dos Reds durante a infância. Só que essa motivação nunca se notou em campo. O atacante foi uma decepção em sua passagem pela equipe, com raros gols. Não durou nem seis meses por lá. Na janela de transferências de janeiro, o Tottenham pagou somente £12 milhões e levou o ídolo de volta. Neste momento, a carreira do artilheiro na Inglaterra começava a entrar em declínio, já aos 28 anos. Passou mais um ano em Londres, como reserva, até ser emprestado ao Celtic, onde empilhou 16 gols em 19 partidas. Não foi campeão com os Bhoys, mas recebeu o prêmio de jogador da temporada. Além disso, o irlandês ainda teve empréstimos fugazes por West Ham e Aston Villa. A partir de 2011, seu sucesso estaria do outro lado do Atlântico, com a camisa do Los Angeles Galaxy.

Não seria exagero dizer que a trajetória de Robbie Keane pela Califórnia é tão expressiva quanto os seus tempos de Tottenham. O atacante já não vivia mais o auge da carreira. De qualquer maneira, ajudou o Galaxy a se tornar uma máquina de conquistar títulos, formando outras parcerias prolíficas, sobretudo com Landon Donovan. Foram 104 gols em 165 partidas na Major League Soccer, divididos por cinco temporadas completas. É o segundo maior artilheiro da história da franquia, atrás apenas de Donovan. Além do mais, faturou três títulos da MLS Cup. Fez gols nas finais de 2012 e 2014, bem como deu a assistência ao tento decisivo em 2011. Por quatro anos consecutivos foi eleito o MVP do Galaxy e também esteve presente na seleção da MLS ininterruptamente de 2012 a 2015. Enquanto alguns veteranos vão para encher os bolsos nos Estados Unidos, o irlandês engrandeceu a liga.

Neste longo intervalo, Robbie Keane permaneceu como a principal face da seleção irlandesa. Não disputou uma nova Copa do Mundo (até pelo roubou ocorrido na repescagem em 2010), mas esteve presente na Eurocopa em 2012 e 2016. Anotou muitos gols, garantiu vitórias, recebeu a braçadeira de capitão. A característica comemoração de braços abertos se repetiu exaustivamente. Quebrou o recorde de partidas e de gols pelos Boys in Green, com 68 tentos acumulados em 146 aparições. Os gols, aliás, o deixaram em pé de igualdade com outras lendas no cenário internacional. A última vez que balançou as redes aconteceu justamente em seu jogo de despedida, realizado em agosto de 2016. Assinalou o seu na goleada por 4 a 0 sobre Omã, em que saiu ovacionado do gramado em Dublin.

O ano de 2016, aliás, praticamente marcou o final da carreira de Robbie Keane. Ele deixou o Galaxy em novembro daquele ano, após a queda nos playoffs da MLS. Já a partir de 2017, se juntou ao ATK, da Super Liga Indiana. Nas curtas temporadas da competição, acumulou seus gols. Já nesta temporada, trabalhando como jogador-treinador, disputou mais três partidas, até anunciar o adeus definitivo nesta quarta. “Hoje, depois de 23 anos maravilhosos, estou anunciando minha aposentadoria. Do Crumlin United a vários cantos do mundo, nunca imaginaria o caminho que minha vida tomou. Superou todas as expectativas que eu tinha como um garoto fanático por futebol crescendo em Dublin”, ressaltou, em sua carta de despedida.

“Parece que faz um século que deixei minha casa aos 15 anos para tentar a carreira na Inglaterra. Eu era um jogador de rua cheio de esperanças, armado com grandes ambições e determinação. Tudo o que eu precisava era uma chance. Gostaria de agradecer principalmente ao Wolverhampton por acreditar em mim e dar esta oportunidade. De lá, minha carreira seguiu um caminho que me levou longe, dando à minha família a oportunidade de conhecer e trabalhar com tantas pessoas maravilhosas, além de experimentar diferentes países e culturas”, complementou Keane. “Jogar e capitanear meu país foi o ponto alto da minha carreira. Aproveitei cada momento da mais incrível jornada com a seleção ao longo de 18 anos. Como já disse tantas outas vezes, as palavras não podem expressar minha honra de ser irlandês. Espero ter deixado os torcedores orgulhosos por vestir a camisa verde e a braçadeira”.

Pois é esta história com a seleção, sobretudo, que faz a diferença para a carreira de Robbie Keane. O atacante será lembrado com carinho especialmente pelos torcedores do Tottenham e do Galaxy, além de ser o 14° jogador com mais gols pela Premier League, 126 no total – acima de nomes como Didier Drogba, Ian Wright e Dwight Yorke. Ainda assim, a maneira como encabeçou os Boys in Green por tanto tempo vale o maior reconhecimento. Foi uma das principais faces do futebol da Irlanda. É o que fica realmente eternizado.