Encerrada a jornada espetacular com o Bayern, a mais bela de sua carreira, os 35 anos indicavam que Arjen Robben ainda teria o que oferecer ao futebol. Uma história como a sua não poderia terminar assim, num rompante, a quem se colocou entre os melhores jogadores do mundo neste século. Que a idade se tornasse um fardo cada vez mais pesado, a magia da canhotinha parecia intacta, pronta a render dribles e chutes cruzados aos montes em uma liga de menor exigência. Seria no PSV, onde estourou? Ou então no Groningen, a casa onde se criou? Quem sabe em alguma outra liga alternativa? Mas não. Não seria mais. Mesmo que pudesse alongar o livro de sua carreira em mais um capítulo, Robben preferiu parar. As últimas linhas não deixam de ser belas. Apenas abreviam o adeus de quem se imortaliza como lenda.

A decisão de Robben pode oferecer uma sensação de vazio, de inesperado. Depois da bela despedida que recebeu em Munique, com gol e taças, boas propostas chegaram em sua caixa de mensagens. E talvez neste ponto, justamente, resida a maior sabedoria de quem sempre será craque. Para não ter que sofrer com as dores de ser jogador profissional, por mais benesses que um novo rumo oferecesse, ele abraçou a difícil escolha de pendurar as chuteiras. Só o ponta sabe o que sentiu com suas lesões, tão recorrentes quanto suas conquistas. Por boa parte de sua caminhada, elas limitaram um potencial imenso. Ao final, não impediram a consagração de quem poderia ainda mais sem elas. Mas, agora liberto, Robben não mais se submeterá ao calvário do esforço pela recuperação e da incerteza se voltará. A idade tornava o ciclo cada vez mais árduo.

“Sem dúvidas, foi a decisão mais difícil que já tomei na carreira. Uma decisão na qual ‘coração’ e ‘compreensão’ se colidiam. É o amor por jogar bola, a convicção de que você pode surpreender o mundo, contra a realidade de que nem sempre as coisas saem como você quer, e que você não é mais um garoto de 16 anos, que não faz ideia de como é duro se recuperar de uma lesão. Neste momento, estou em forma, saudável, e como amante de vários outros esportes, quero manter isso no futuro. Assim, paro definitivamente. Mas estou bem assim”, anunciou Robben, conforme a tradução feita pelo excelente Espreme a Laranja.

Nas entrelinhas de suas palavras, Robben ofereceu uma declaração de amor. Mas uma declaração de amor rompido, mesmo que ainda apaixonado. Sem qualquer ressentimento, ele precisou admitir a hora de abandonar. Leva a paixão vivida em intensidade máxima por quase duas décadas, desde que surgiu como um precoce talento de 16 anos. E que, no entanto, precisa prefere prezar pelo próprio bem estar. O “quero manter isso no futuro” é a frase simples de quem vislumbra a vida além dos gramados. A quem tanto fez, não há motivos para se sacrificar, por mais que uma belíssima despedida na Eredivisie o aguardasse. E ele está bem assim, o que mais conforta.

A sala de troféus de Robben mostra como ele não teria motivos para não estar bem. Oito vezes campeão alemão no Bayern de Munique, além de faturar também a Champions como herói na final, o ídolo definitivamente está entre os maiores da história do clube. A dupla Robbery é daquelas dignas de estátua. O prodígio do PSV também não pode dizer que não venceu em casa, levando a Eredivisie em 2002/03, em tempos de uma parceria infernal com Mateja Kezman. Apesar do papel de coadjuvante, era um talento pulsante do Chelsea bicampeão inglês, uma máquina pelos lados do campo. E que o Real Madrid não tenha aproveitado o melhor de sua qualidade, ainda esteve presente para contribuir à Liga de 2007/08. Jogou em quatro países e ergueu a taça nacional em todos eles.

Se há uma lacuna de títulos no currículo de Robben, esta se dá pela seleção holandesa. Centímetros impediram façanhas maiores, seja pela defesa de Iker Casillas no Soccer City, seja pelo carrinho de Javier Mascherano em Itaquera. Mas quem seria mais capaz que o ponta para liderar uma das melhores gerações da Oranje na história? Querendo ou não, o camisa 11 possui duas medalhas em Mundiais, o que não é pouco. Entrou para um rol de gênios do futebol em seu país. E se não carrega consigo a Bola de Ouro da Copa de 2014, é mais por incompetência da Fifa na escolha do que por falta de futebol. Individualmente, ninguém superou o carequinha naquele inverno mágico vivido no Brasil. Algumas de suas maiores apresentações pela equipe nacional, em quase 100 jogos, aconteceram por aqui.

As condecorações individuais, aliás, acabam menos gratas ao que Robben construiu dentro de campo. Não passou de um quarto lugar na Bola de Ouro, ainda que fosse um troféu que talvez merecesse em sua estante. A concorrência no período e a própria sequência errante, prejudicada pelas lesões, impediram uma progressão maior. Não é isso que reduz, de qualquer forma, a sua importância como um dos pontas mais letais de sua era. Pelo contrário, a persistência ao se refazer e se reconstruir, mesmo quando o próprio corpo era uma barreira, valoriza os feitos de Robben. Seu melhor – embalado depois daquela final de Champions em 2013, quando se recuperou do pênalti perdido um ano antes – aconteceu justamente depois que o craque estava calejado. E, por isso, respeita-se mais o anúncio realizado nesta quinta.

Qual é o Robben que ficará na mente? Talvez alguns estereótipos persistam. Mas, de maneira alguma, pode ser considerado o “jogador de vidro” ou o “amarelão”, em rótulos que o perseguiram durante parte da carreira. O atacante construiu sua eternidade, apesar dos longos períodos no departamento médico, e calou nos maiores palcos aqueles que questionavam o seu poder de decisão, seja com o Bayern ou com a Holanda. Assim, a imagem inescapável será sempre daquela jogada, aquela que você sabe, a infalível. O corte da direita para esquerda que todo marcador sabia como aconteceria e ninguém conseguia parar, antes dos arremates perfeitos que nem mesmo se antecipando os goleiros alcançavam.

O repertório repetitivo não era o único, a um atacante incontrolável também por seus dribles incisivos, por sua velocidade imensa, por sua visão de jogo e por seu faro de gol. Na realidade, a “jogada do Robben” é o suprassumo de quem se manteve em alto nível por quase duas décadas, até quando o físico desafiava o seu mental. O camisa 11 primou pela qualidade e, tantos gols depois, o lance típico prova como sua virtude é atemporal. Robben foi uma promessa que se cumpriu, foi a referência que conduziu seu país de volta ao topo, foi o craque que ampliou as fronteiras de uma potência já tão dominante. É uma lenda, da acepção mais pura da palavra. E mesmo que seus fãs ainda achem que um ano ou dois seriam capazes de aumentar sua veneração, compreendem plenamente o passo consciente e importante dado nesta quinta. Já são repletos de memórias, em gratidão que torna o veterano para sempre eterno.