A final da Libertadores reuniu dois times enormes, ainda que de formas diferentes. O River Plate, atual campeão, finalista pela terceira vez em cinco anos, foi o que se espera de um time como esse. Na final da Libertadores 2019, o campeão do ano anterior foi um adversário duro. Diante de um Flamengo que era tecnicamente superior, o River, de Marcelo Gallardo, conseguiu anular o adversário. Mas não o tempo todo. Conseguiu por 88 minutos. Em três minutos, dois gols. Mudou tudo. O atual campeão caiu. Uma derrota dura, de um time que teve o título tão perto. Perdeu, mas foi grande em campo. Tornou a vitória do time que era melhor o mais difícil possível.

Havia muita dúvida em relação a como o River Plate atuaria. Se especulou durante a semana que Marcelo Gallardo pudesse mudar o esquema tático, mexesse, de forma a ser um time mais defensivo. Nada disso aconteceu. O River que foi a campo foi o que vinha sendo o titular, sem nenhuma surpresa. Se houve uma mudança, foi a forma de exercer a pressão, mais pelo lado do campo. E conseguiu sufocar a saída de bola rubro-negra. Fez com que os laterais do time brasileiro, um trunfo, fossem mal no jogo. Filipe Luís foi tão pressionado que errou muito acima da sua média.

O Flamengo gosta de correr com a bola, e o River não permitiu que isso fosse feito. O primeiro tempo teve o River muito melhor, superior em quase todos os aspectos, se não todos, sendo mais perigoso no ataque, mais seguro na defesa e emocionalmente mais inteiro. Parecia um time mais preparado para o que a final exigia. O Flamengo foi anulado nos primeiros 45 minutos.

Um ponto fundamental para o Flamengo, o meio-campo, ficou deslocado. Gérson, um dos melhores do time, ficou deslocado. O River tornou o jogo desconfortável para o Flamengo por 88 minutos. Porque o segundo tempo manteve um roteiro parecido, ainda que Jorge Jesus tenha melhorado o Flamengo, que passou a pressionar no ataque e criar chances como não fez no primeiro tempo. O Ri ver continuava sabendo o que estava fazendo, tornando Rafinha e Filipe Luís duas armas pouco eficazes e, pior ainda, vulneráveis, tornando Arão e Gérson jogadores deslocados em campo, gerando espaços para os Millonarios.

Gallardo foi muito bem na estratégia. Arrascaeta, Éverton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol tentaram se movimentar, mas pareciam se deslocar à toa. Eram muito bem marcados por todo o time do River. Enzo Pérez, no meio-campo do River, tinha uma atuação soberba no primeiro tempo. Foi dos seus pés que saiu a bola que originou o primeiro gol, passando a Ignacio Fernández e dele para Borré.

Marcelo Gallardo, do River Plate (Getty Images)

O quadro, porém, mudou quando Marcelo Gallardo começou a mexer no time. Primeiro, sacou Ignacio Fernández, um dos melhores do time em campo, e colocou o jovem Julián Alvarez, aos 24. Depois, tirou Rafael Borré e colocou Lucas Pratto. Por fim, tirou Milton Casco – que de fato não fazia uma boa partida e começava a ter problemas na marcação – para colocar outro zagueiro, Paulo Díaz. Nenhuma das alterações melhorou o time. Ao contrário. O time piorou.

O cansaço é um fator, claro, porque a pressão exercida tem um custo físico e emocional. Mas o River não parecia sofrer com isso, mesmo com o passar do tempo na segunda etapa. Estava dentro do plano. Recuou um pouco a linha defensiva, à medida que o desgaste aumentou, e tentava esticar a bola para acelerar.

É verdade que os minutos passavam a estava ficando mais difícil segurar o Flamengo, mas a marcação seguia bem-feita, seguia organizada, e o time seguia podendo ser perigoso. As corridas no ataque passaram a ser maiores, mais difíceis. O Flamengo começou a perder chances mais claras. Começou a faltar ao Flamengo não mais criar, como no primeiro tempo, e sim ser preciso. Ao River, faltava força para continuar sendo o time perigoso que foi ao longo dos primeiros 70 minutos do jogo. Com tudo isso, o caminho do jogo seguia na direção da taça ir para Buenos Aires.

Não por acaso, o gol de empate nasce de um erro de Pratto no ataque, quando perde a bola, em uma bobeada. O atacante não entrou bem no jogo e o lance é um exemplo de como era preciso de pouco para determinar o resultado. Como a água, o Flamengo aproveitou uma pequena brecha para inundar. O segundo gol, ainda quando o River estava atordoado, veio da única falha de Javier Pinola no jogo. O zagueiro foi muito bem na marcação. Quase impecável. Quase. E o quase é o que faz a diferença. Porque nesse lance, que Pinola perdeu a disputa no corpo para Gabigol, que fuzilou Armani e deu o título da Libertadores ao Flamengo.

Com todos os problemas na fase final do jogo, o River Plate de Gallardo ficou a poucos minutos de levar o segundo título consecutivo de Libertadores. Perdeu o título, mas não perdeu sua altivez. O River fez o que podia diante de um adversário que era melhor. Foi o trabalho do time, do técnico e dos jogadores, em conjunto, que tornou esse River tão competitivo. O título não veio. Apesar disso, o River continua sendo um dos melhores do continente. E poderá se manter assim, se o trabalho se mantiver.