Há quase dez meses, Boca Juniors e River Plate se digladiavam numa decisão da Libertadores que nascia já consagrada à eternidade. O roteiro da Superfinal fugiu de todas as expectativas, especialmente pelo desfecho em Madri. O doce sabor da vitória, de qualquer maneira, nunca se tirará da torcida millonaria. E soa até como um anticlímax que, logo na edição seguinte do torneio continental, os rivais se reencontrem numa semifinal. O duelo que começa nesta terça não se equiparará ao terremoto experimentado em 2018, mas oferecerá uma excelente oportunidade para que a história se amplie.

É um novo capítulo, afinal. Nada custará o lugar privilegiado do River Plate, embora o time de Marcelo Gallardo possa renovar sua lenda. O Boca Juniors, por sua vez, ganha uma chance de ouro para se reerguer e tentar suceder os rivais no trono. Os clubes são os mesmos, mas não necessariamente os times ou os personagens. Em dez meses, muito mudou em Buenos Aires, o que deixa um cenário mais nebuloso ao novo Superclássico.

O primeiro semestre de 2019, aliás, parecia uma grande ressaca a Boca e River. Enquanto os millonarios sentavam sobre os louros de um título que não poderia ser maior, os xeneizes tentavam se reconstruir. Os motores voltaram a esquentar neste semestre, com o início dos mata-matas na Libertadores garantindo classificações maiúsculas à dupla e a largada do Campeonato Argentino referendando o trabalho do técnico Gustavo Alfaro na Bombonera. A semifinal marcará outra vez o começo do fim ao Superclássico.

O Boca Juniors até parece mais embalado. Além de trocar o seu treinador, os xeneizes montaram uma equipe praticamente nova. A maioria absoluta dos protagonistas no vice de 2018 saiu, enquanto remanescentes ascenderam na hierarquia e novos candidatos a destaque chegaram em intensos mercados. O River Plate, de qualquer maneira, não pode ser menosprezado, depois de tudo o que Gallardo já foi capaz de alcançar. E nem é exatamente uma equipe idêntica ao que se viu no Bernabéu. Apesar das raras vendas, jogadores importantes viraram baixas e novos heróis também surgiram. Nomes como Nicolás de La Cruz e Alexis Mac Allister, que eram ilustres desconhecidos há dez meses, agora se tornam vitais.

Em 1° de setembro, no único clássico oficial desde a Superfinal, o empate por 0 a 0 prevaleceu no Monumental de Núñez. Entretanto, os dois times não pareciam muito dispostos a abrir seu jogo, quando já sabiam qual seria o destino nas semifinais da Libertadores. A partir desta terça, tentarão mostrar o seu máximo. Abaixo, contamos um pouco mais sobre o que mudou em River Plate e Boca Juniors desde então.

Os novos soldados de Gallardo

Há cinco anos, a grande certeza do River Plate atende pelo nome de Marcelo Gallardo. A chegada do treinador marcou não apenas o ápice desde o retorno dos millonarios à primeira divisão do Campeonato Argentino, como também iniciou a era mais vitoriosa do clube além das fronteiras. O time se firmou como um temível adversário copeiro, como não era necessariamente o costume em sua história. Tal força se converteu em dois títulos da Libertadores e um da Copa Sul-Americana. Enquanto tiver Gallardo em seu comando, o River será um fatal favorito dentro dos mata-matas. O conjunto se sobrepõe às individualidades.

As bases da equipe se mantêm ao longo deste período. É um time que trata muito bem a bola e, com ótima aceleração, sabe trabalhar a posse para superar os seus adversários. Além disso, o River Plate consegue lidar bem com as diferentes temperaturas dentro de uma mesma partida, com um controle emocional raro de se notar nas grandes competições. Entre a qualidade técnica, a capacidade tática e a mentalidade vencedora, os millonarios construíram o seu legado. É a receita que deu certo outras vezes contra o Boca Juniors e que intimida novamente os xeneizes neste reencontro, por mais que o momento na Bombonera seja positivo.

O River Plate realizou contratações pontuais desde a conquista da Libertadores em 2018. A mais importante delas, entretanto, não pôde contribuir com o time nos últimos meses. Juan Fernando Quintero foi o herói no Bernabéu e terminou comprado em definitivo pelos millonarios. O colombiano seguia vivendo um início de ano espetacular em Núñez. Em março, porém, rompeu os ligamentos do joelho e desfalca a equipe desde então. Seria um diferencial técnico, mas Gallardo se vira sem o armador.

Das adições, a mais importante foi a de Matías Suárez. O centroavante não é um primor, mas possui rodagem e atravessa uma boa sequência. Assumiu uma posição central no ataque e ganhou até convocações à seleção argentina. Jorge Carrascal se tornou uma peça útil na rotação ofensiva, enquanto Fabrizio Angileri não correspondeu totalmente na lateral esquerda, após ser trazido sob grandes expectativas do Godoy Cruz. Já no miolo da zaga, o jovem paraguaio Robert Rojas vem sendo utilizado com certa frequência, enquanto o chileno Paulo Díaz é uma versátil opção, após ser contratado junto ao Al Ahli.

Se o elenco do River Plate continua praticamente o mesmo em relação ao título da Libertadores, com as saídas de Pity Martínez (esta já sabida, apesar de toda a importância do armador na campanha) e Jonathan Maidana, não dá para dizer que o time segue igual. Gallardo possui uma indiscutível capacidade de reinventar sua equipe e encontrar novas peças imprescindíveis dentro de seu próprio plantel. Foi um pouco o que aconteceu nestes últimos meses. De fato, a venda de Pity perdeu a referência na ligação. Quem vem ocupando essa lacuna é Ignacio Fernández, um nome antigo no grupo, mas que assumiu responsabilidades e tem decidido partidas aos millonarios com uma frequência acima de seu comum.

Outro nome a ascender na hierarquia foi Nicolás de la Cruz. O garoto até fez boas aparições na Libertadores passada, mas agora é fundamental ao River Plate. O uruguaio garante aceleração ao meio-campo e cresceu em partidas importantes na atual campanha, contribuindo com gols e assistências. O jogo mais emblemático aconteceu na volta contra o Cerro Porteño, quando se manteve no time mesmo depois de precisar prestar contas à justiça paraguaia e anotou o gol que garantiu o alívio no duro jogo que os millonarios encararam na Olla Azulgrana. Ao lado de Exequiel Palacios, serve como motor a um meio-campo que também aprendeu a lidar com as ausências recentes do capitão Leo Ponzio, por conta das lesões.

Em outros momentos, o River Plate deu impressão de um futebol mais consistente. O semestre não salta aos olhos, com uma campanha de meio de tabela no Campeonato Argentino e doses de dificuldades na Libertadores. Os millonarios dominaram o Cruzeiro em crise, mas não souberam sufocá-lo, e quase cederam a sobrevida ao Cerro Porteño. Entretanto, as pitadas de brilhantismo enchem os olhos, como nos 6 a 1 sobre o Racing. A expectativa da torcida é, em novo encontro com o Boca, ver a equipe ligada m seu máximo. Gallardo sabe como extrair isso de seus jogadores.

Há predicados, afinal, que não mudam. Franco Armani permanece como um dos melhores goleiros da Argentina, mesmo já tendo vivido fases melhores. Gonzalo Montiel e Milton Casco são duas úteis peças nas laterais. O meio-campo possui, além dos nomes supracitados, também a tarimba de Enzo Pérez na cabeça de área. Já na frente, sobram alternativas. Lucas Pratto, Ignacio Scocco e Rafael Santos Borré podem atender a diferentes leituras de jogo de Gallardo, apesar dos números pouco convincentes nos últimos tempos.

Ainda sem poder contar com Ponzio e Quintero (com a expectativa da volta do colombiano para o segundo jogo), o River Plate possui uma equipe titular de nomes mais constantes. A única dúvida de Gallardo é sobre quem atuará ao lado de Lucas Martínez Quarta no centro da defesa. Javier Pinola não foi bem em encontros recentes e Paulo Díaz deve ser privilegiado por ali, por ter mais mobilidade. Já no meio, embora retorne de lesão, De la Cruz deve ser escalado em quarteto com Pérez, Palacios e Fernández. Na frente, Borré e Suárez são os favoritos. Uma equipe que sempre merecerá respeito, especialmente com Gallardo à beira do campo.

Um Boca Juniors completamente renovado

O vice-campeonato da Libertadores pode não ter significado necessariamente o fim do mundo para o Boca Juniors, mas culminou numa reformulação massiva. Os xeneizes vinham de um período importante em sua história recente, com o bicampeonato argentino. Ainda assim, as mudanças foram amplas, a começar no comando técnico. Guillermo Barros Schelotto deixou seu posto logo no final de dezembro. Terminou substituído por Gustavo Alfaro, treinador bem mais rodado, que vinha de trabalho recente no Huracán, embora seus maiores sucessos tenham acontecido à frente do Arsenal de Sarandí.

Além de Schelotto, a debandada incluiu outros tantos jogadores importantes do Boca Juniors vice da Libertadores. O capitão Pablo Pérez puxou a fila, ao se transferir para o Independiente. Também na virada do ano, o volante Wilmar Barrios deixou o clube após as críticas pela expulsão no Bernabéu e virou o motor do Zenit. O lateral Lucas Olaza seguiu por empréstimo ao Celta, enquanto o zagueiro Lisandro Magallán foi contratado pelo Ajax. Leonardo Jara assinou com o DC United e, acumulando lesões, Fernando Gago assinou sua rescisão.

O desmanche geral se consumou no meio de 2019, aproveitando a janela de transferências à Europa. Vários protagonistas de Schelotto fizeram as malas, embora parte deles perdesse espaço já com Alfaro. Darío Benedetto realizou o desejo de atuar no Velho Continente e assinou com o Olympique de Marseille; Nahitan Nández transformou-se na compra mais cara da história do Cagliari; Cristian Pavón não recebeu as propostas esperadas e arranjou um empréstimo para se juntar a Schelotto no Los Angeles Galaxy; e até mesmo o goleiro Agustín Rossi saiu, emprestado ao Lanús. Dos 16 jogadores utilizados nas finais de 2018, dez deixaram La Boca.

Em contrapartida, a diretoria xeneize também contratou bastante nas duas últimas janelas. Montou uma equipe nova, que pudesse se encaixar melhor no estilo do treinador e com outras estrelas para ocupar o coração da torcida na Bombonera. A barca de janeiro foi intensa. O principal nome foi o volante Iván Marcone, que trabalhou com Alfaro no Arsenal e voltou à Argentina após uma boa passagem pelo México. Revelação do Atlético Nacional, Jorman Campuzano ocuparia a lacuna deixada por Barrios. Já a defesa contaria com a nova dupla formada por Lisandro López, outro ex-Arsenal que não se firmou no Benfica, e o paraguaio Júnior Alonso, vinculado ao Lille.

No meio do ano, o Boca Juniors despejou mais uma grana em contratações. A pecha de craque ficou reservada a Eduardo Salvio. Depois de uma expressiva passagem pela Europa, sobretudo pelo Benfica, o ponta chegou para ser um diferencial. O venezuelano Jan Hurtado veio como aposta, após despontar no Gimnasia, enquanto Franco Soldano não agradara no Olympiacos e surgiu como alternativa ao ataque. Nenhum deles com o potencial midiático de Daniele de Rossi, um grande golpe do marketing xeneize, mas também com um caráter notável ao plantel em remontagem. E nenhum deles com o impacto de Alexis Mac Allister, jovem meio-campista emprestado pelo Brighton e logo decisivo na Libertadores.

Cabe dizer que Gustavo Alfaro ainda conseguiu recuperar alguns jogadores que estavam no grupo ou mesmo elevou o moral de outros. Esteban Andrada passou a viver a melhor fase da carreira, enquanto Frank Fabra se tornou um ótimo “reforço” na lateral ao voltar de lesão. Na frente, Wanchope Ábila preponderou nos mata-matas da Libertadores e até mesmo Carlos Tevez renasceu, passadas as antigas rusgas com Schelotto. E se um atleta de rotação como Bebelo Reynoso passou a frequentar o time titular por suas boas aparições, nem todos se mantiveram, com a queda de Sebastián Villa. O novo técnico também passou a conceder um espaço progressivo a garotos da base, com o exemplo do meio-campista Nicolás Capaldo e do lateral Marcelo Weigandt, que foram titulares em jogos de peso neste semestre.

O trunfo de Alfaro está na capacidade defensiva do Boca Juniors, ampliando a segurança que se notava com Schelotto. E os números da equipe no semestre são espantosos. Os xeneizes sofreram apenas dois gols nas últimas 13 partidas. Tudo bem que um deles custou a eliminação contra o Almagro na Copa Argentina. Em compensação, a equipe assumiu a liderança do Campeonato Argentino e avançou às semifinais da Copa Libertadores sem grandes dificuldades. Apesar dos temores contra o Athletico Paranaense, os xeneizes conseguiram se impor nas duas partidas. Além disso, sobraram diante da LDU nas quartas. Os boquenses apostam em um estilo mais direto e reativo, enquanto costumam criar perigo nas bolas paradas.

Andrada surge como uma das referências na defesa, enquanto Carlos Izquierdoz e Lisandro López formam uma sólida dupla de zaga. No meio, enquanto Iván Marcone serve de ponto de equilíbrio na cabeça de área, Alexis Mac Allister combina energia e boa chegada para garantir intensidade. Já na frente, além da presença de área e do espírito de luta de Wanchope Ábila, há também a alternativa de Mauro Zárate, um jogador de capacidade técnica que terminou subaproveitado na fase decisiva da Libertadores passada. Também respaldado por Alfaro, o veterano foi o principal nome xeneize durante a fase de grupos.

A amplitude do elenco oferece boas alternativas a Alfaro, mesmo com os desfalques e as dúvidas. Na defesa, o treinador deve optar por laterais com maior capacidade defensiva – o que significa a provável utilização de Weigandt e Emmanuel Más. O meio contará com Capaldo ao lado de Marcone na proteção, enquanto o quarteto de frente dependerá das condições físicas. Salvio até apareceu na convocatória após retornar de lesão, mas não está 100%. Da mesma maneira, Ábila e Zárate voltam de problemas recentes, embora sejam mais cotados a pintarem entre os titulares. Se entrarem, serão diferenciais pela experiência e pelo poder de decisão. É um novo Boca, sedento por também se firmar.