O que uma final deve ter para ser inesquecível? Os elementos não precisam necessariamente ser os mesmos e nem estar todos juntos. Nesta quinta, como se fosse um evento astronômico em que os planetas se alinham, vários desses elementos se fizeram presentes na decisão da Copa Argentina, em Córdoba. Nem tudo foi perfeito, é verdade. A arbitragem errou para (e contra) os dois lados, o gramado estava péssimo, as defesas foram uma água. Mas o que mais interessa aconteceu: muitas bolas nas redes, viradas no placar, vontade dos dois lados, pegada, qualidade dos ataques, torcidas inflamadas, emoção até os últimos instantes. Permitiram um jogo que os argentinos não se esquecerão tão cedo, com vitória do River Plate por 4 a 3 sobre o Rosario Central. Mal deu para piscar os olhos durante os 90 minutos.

A bola nem rolou e a decisão já prometia bastante. Em campo neutro, apesar da parte forjada, o recebimento nas arquibancadas foi belíssimo. E a necessidade das equipes em campo era clara, muito além da taça em si. O Rosario Central vinha na sede de encerrar um jejum de duas décadas sem um título relevante, e depois de ser vice nas duas últimas edições da competição – perdendo para o Huracán nos pênaltis e para o Boca Juniors, em péssima noite do árbitro. O River Plate, por sua vez, colocava como objetivo primordial a conquista da vaga à Copa Libertadores, em seu último fio de esperança.

Demorou apenas 11 minutos para que o placar se abrisse. Em pênalti cometido por Musto, Alario converteu e botou o River em vantagem. Ainda no primeiro tempo, o Central buscou a virada. Os canallas empataram aos 26, com o próprio Musto, em lance no qual o goleiro Batalla reclamou bastante de falta. Já aos 30, pintura de Marco Ruben. Capitão, artilheiro e ídolo dos canallas, ele dominou uma bola dificílima com o bico da chuteira, antes de fuzilar com a outra perna. Injeção de ânimo só quebrada aos 40, em pênalti bastante contestável que Alario converteu novamente. O 2 a 2 no placar mantinha a situação totalmente aberta.

Aos 18 do segundo tempo, a história parecia até mesmo definida. Havia um vilão muito claro: o goleiro Batalla, que já falhara feio no clássico do final de semana contra o Boca Juniors, e agora soltava mais uma bola decisiva dentro da área. Além do herói evidente em Marco Ruben. Com um pouco de sorte, o camisa 9 anotou o terceiro gol do Central. De qualquer forma, parecia o herói predestinado a permitir que os rosarinos voltassem a comemorar algo importante, após anos em que os bons times não renderam nada mais que classificações aos torneios continentais.

Tudo mudaria. Viraria de cabeça para baixo. E, mais importante, viraria no placar. Alario completou sua tripleta aos 27, em lance dentro da área. Já a virada se consumou aos 30, em bola cruzada que Ivan Alonso, logo após sair do banco, completou. Sobravam 15 minutos para a emoção. Ou, ao lado derrotado, para o desespero. Ruben foi expulso em uma cotovelada infantil, jogando no lixo o papel de herói. O goleiro Sosa virou um volante lançador. Nada suficiente para tirar a taça das mãos do River Plate.

A Copa Argentina, por fim, coroa mais uma vez o trabalho de Marcelo Gallardo à frente dos Millonarios. Desde que voltou a Núñez, como técnico, o antigo maestro faturou mais de um título por ano. Dono de uma Libertadores, uma Copa Sul-americana e duas Recopas, agora também garante seu principal troféu doméstico, depois de um vice no Argentino e uma Supercopa. Além do mais, o feito ainda abrilhanta o adeus de Andrés D’Alessandro, cujo empréstimo se encerrará. O River volta para a Libertadores com uma equipe tarimbada e competitiva. Dura de roer, como o Central sentiu na pele.