Do Mineirão, em Belo Horizonte

O relacionamento da Seleção com a sua torcida nesta Copa América está conturbado. Ela foi recebida pelo Morumbi, na abertura, com frieza, indiferença e vaias. Em Salvador, mais vaias. Parte do distanciamento tem a ver com a última vez que o Brasil disputou uma semifinal em casa e foi derrotado por 7 a 1 pela Alemanha. O retorno ao Mineirão para outra partida dessa fase deve ter causado calafrios no elenco, por mais que ninguém admita. Impossível haver futebol sem pelo menos um pouco de superstição, e o potencial de desastre era grande pela identidade do adversário. No entanto, foi justamente a rivalidade com a Argentina que impulsionou a torcida a dar seu maior apoio ao time de Tite neste torneio na vitória por 2 a 0 que valeu vaga na decisão do Maracanã, no próximo domingo.

“Com certeza”, confirmou Richarlison recuperado de caxumba, ao ser questionado se o apoio do Mineirão foi o maior que o Brasil recebeu nesta Copa América. “Até por se tratar de Brasil x Argentina, a torcida fica mais eufórica. Todo o pessoal que veio ao Mineirão está de parabéns pelo apoio”. Não parecia que seria assim no aquecimento para a semifinal. Nos arredores da Pampulha, mesmo em menor número, eram os argentinos quem mais faziam barulho. Com exceção de seletos grupos, brasileiros respondiam aos gritos com provocações, ou músicas como “Mil Gols”, mas o contra-ataque não durava muito tempo. Tudo mudou assim que os times entraram em campo.

Quando a torcida argentina tentou aumentar o volume, a brasileira decidiu mostrar quem era a dona da rua. O grito de “Mil Gols” abafou os dois grandes grupos de argentinos que se reuniram atrás dos gols. O hino do país vizinho mal foi ouvido, tocado entre estrondosas vaias. O brasileiro, por outro lado, foi entoado a plenos pulmões, com o arrepiante complemento à capela quando os alto-falantes se calaram.

Ao apito inicial, o maior destaque, em contraste com outras partidas da Copa América, foi o envolvimento do público com o que acontecia em campo. Muito barulho a cada desarme, a cada carrinho, a cada drible, das 55 mil pessoas presentes que insistiam em ressaltar que Vampeta tem uma Copa do Mundo a mais do que Messi – que não tem nenhuma.

A parte negativa foi, outra vez, os gritos de “bicha” contra o goleiro Armani no tiro de meta, como na abertura contra a Bolívia. E não conseguimos entender como a multa de R$ 57 mil imposta pela Conmebol à CBF não serviu para que a entidade com lucro calculado na casa das centenas de milhões de reais por ano fizesse todo o possível para que essa estúpida maneira de supostamente torcer não se repetisse. Talvez se a Conmebol dobrar o valor, pela reincidência, o problema seja resolvido.

O primeiro gol do Brasil subiu demais o volume das arquibancadas porque foi o resultado de um combo de lindas jogadas. Os primeiros gritos vieram na caneta de Coutinho. Depois, no chapéu de Daniel Alves. Houve o drible que antecipou o lindo passe enfiado para Firmino e, quando Jesus empurrou às redes, o Mineirão veio abaixo.

Talvez satisfeitos, talvez cansados, talvez porque o jogo havia dado uma esfriada, o estádio também ficou mais quieto no começo do segundo tempo. Houve tentativas fracassadas de puxar gritos de “Bra-sil!”, mas as gargantas reuniram energia apenas para cantar o nome de Marquinhos, substituído por lesão.

O volume máximo foi alcançado quando Jesus ganhou a dividida, deixou Otamendi para trás, parou a bola e apenas rolou para Firmino fazer o segundo gol. Com vantagem de dois pontos no placar, a torcida brasileira foi à forra. Provocou a argentina com gritos de “timinho” e “olé”, enquanto seus conterrâneos tocavam a bola de pé em pé. O ápice foi por volta dos 49 minutos quando achou por bem lembrar os convidados o que time deles havia sido eliminado da Copa América. E o brasileiro, segue em frente.