A rivalidade entre brasileiros e argentinos restringe-se ao campo de futebol. Fora dele, as relações são amigáveis, atenciosas e gentis. Essa é a impressão dos torcedores com os quais a Trivela conversou ao longo da orla de Copacabana, interrompendo por alguns instantes a impressionante festa dos vizinhos no Rio de Janeiro, que aquece a decisão da Copa do Mundo no Maracanã, contra a Alemanha.

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O torneio foi uma oportunidade boa para os dois povos conhecerem-se um pouco melhor. Os argentinos, sempre muito numerosos, invadiram Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo. São veementes ar afirmar não ter tido nenhum problema pessoal com os brasileiros e todos relatam que foram muito bem recebidos.

Patrício Carando, 38 anos, acha que a rivalidade é meramente superficial. “A rivalidade é apenas no futebol. São todos muito amáveis, muito atenciosos”, completa o advogado, que passou 15 dias no Rio de Janeiro, acompanhou a seleção argentina pelo Brasil e agora está de volta à capital fluminense. “É uma rivalidade por causa de Maradona e Pelé, são os dois países mais importantes da América do Sul. É folclore futebolístico, apenas isso”, acrescenta Diego Gutiérrez, comerciante de 27 anos

O problema é que às vezes a provocação extrapola o futebol, e a piada passa dos limites aceitáveis. Alguns hinchas argentinos chamam os brasileiros de “macaquitos”, uma ofensa racista. mas os argentinos que conversaram com a Trivela recriminaram fortemente. “É uma vergonha”, sentencia Eduardo González, contador de 24 anos. “São determinadas pessoas que falam isso”. Emiliano Aballe, 28 anos, foi o único a não ver problema com o termo. “É uma forma carinhosa de falar porque na Argentina não há muitos negros”, comenta. “São poucos que falam querendo ofender.” Embora, a intenção, nesse caso, importe muito pouco.

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O curioso é que, mesmo com tanta rivalidade, os argentinos reclamam do fato de os brasileiros terem torcido contra a equipe de Messi. Para eles, a provocação é válida, mas não supera a solidariedade continental. Sherman García, comerciante de 28 anos, esteve nos jogos contra a Suíça, a Bélgica e a Holanda e achou essa atitude bem estranha. “Nas três vezes, os brasileiros torceram contra. Eu entendo, mas nunca faria isso. Somos todos sul-americanos, todos latinos”, afirma. Eduardo González também estranhou. Ele não vê nenhum cenário em que os argentinos, por exemplo, torceriam pelo Chile, adversário do Brasil nas oitavas de final. “Gritamos sempre pela Argentina”, declara, orgulhoso. “É medíocre”, resume Daniel Duplin, empresário de 39 anos.

Chega ao ponto de Patrício Carando criticar a volúpia ofensiva da Alemanha contra a seleção brasileira na semifinal. Um sentimento não exatamente compartilhado pelos seus conterrâneos, vários usando camisetas lembrando a goleada por 7 a 1 que o time de Felipão sofreu e transformando o “siente” do seu cântico favorito em “siete”. “Eu vi uma falta de respeito da Alemanha com o Brasil. Precisa sempre respeitar os adversários. Não precisava fazer sete gols”, diz. “A Argentina nunca faria isso.”

Porque a impressão é mesmo que os brasileiros se importam mais com os argentinos do que vice-versa, e a Copa do Mundo pode ter servido para ao menos desmistificar um pouco a ideia de que todo argentino é arrogante e metido – embora, obviamente, haja alguns casos. “Vocês têm rivalidade com a gente, nós não temos com vocês”, resume Daniel Gaitáni, 22 anos, desempregado, mas nem por isso menos animado para gritar “Brasil, decíme qué se siente”.

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