Juan Román Riquelme tentará voltar ao Boca Juniors. E não será para a despedida em campo, marcada previamente a 12 de dezembro, que terminou cancelada. Como já vinha dando indícios, o lendário camisa 10 anunciou que concorrerá às eleições presidenciais que se aproximam na Bombonera. Não será candidato principal, mas deverá assumir o posto de segundo vice na chapa de oposição. Aumenta as expectativas de um novo ciclo aos xeneizes.

Atual presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici não pode mais se reeleger. O herdeiro de Mauricio Macri assumiu o comando do clube sob grandes promessas, almejando levar o clube ao topo do continente. De fato, os xeneizes passaram anos estáveis, melhoraram contratos de patrocínio e anunciaram jogadores midiáticos. Porém, os títulos não foram suficientes para respaldar a gestão. Os boquenses até conquistaram três taças do Campeonato Argentino e duas da Copa Argentina desde 2011. Mas a obsessão pela Libertadores não se cumpriu.

Pior ainda é a comparação com o River Plate. Angelici assumiu quando os millonarios tentavam conquistar o acesso na segunda divisão. Os rivais não apenas voltaram à elite, como se tornaram inegavelmente a equipe mais forte do continente. São dois títulos da Libertadores, com o terceiro em disputa. Ao Boca, sobraram frustrações com dois vices e três quedas nas semifinais durante estes oito anos. E a situação se agrava diante da própria freguesia xeneize nos superclássicos. O retrospecto geral no confronto direto nem é dos mais discrepantes, com oito vitórias do River contra seis do Boca. O problema é que os rivais triunfaram em todas as ocasiões realmente importantes, sobretudo a decisão de 2018.

Neste cenário, e por uma herança macrista que não anda lá com muito moral na Argentina, o Boca Juniors parte para as eleições com perspectivas de mudanças. Boa parte da torcida deseja novos ares. E ninguém melhor para sustentar os seis anseios que Riquelme, que representaria uma reaproximação com as raízes e com a torcida. Muito mais do que Macri ou Angelici, é quem simboliza o ciclo vitorioso dos xeneizes. E por mais que sua relação com a situação tenha idas e vindas, as afrontas são muito mais famosas. O “Topo Gigio” dos tempos de jogador ganhou ares míticos. A desfeita quanto ao jogo de despedida, neste momento, também entra para a lista de atritos. Román prioriza seu futuro na Bombonera.

O candidato à presidência que Riquelme apoiará também não é carta nova no baralho, é verdade. Jorge Amor Ameal foi o antecessor de Angelici na presidência e perdeu as duas eleições seguintes para o atual mandatário. Dirigiu o Boca Juniors de 2008 a 2011, chegando ao poder ainda ao lado do macrismo. Ameal assumiu o cargo após o falecimento súbito de Pedro Pompilio, que sofreu um infarto nos primeiros meses de mandato, após servir como vice durante a gestão de Macri. Contudo, Ameal distanciou-se do ex-presidente do país, a ponto de se associar com o kirchnerismo num espectro mais amplo.

Ameal, além do mais, também não teve sucesso na Libertadores durante seus quatro anos. Conquistou dois títulos do Campeonato Argentino no período. Em compensação, manteve os seus elos com o time multicampeão no início do século. Trouxe de volta Carlos Bianchi e apostou suas fichas na dupla formada por Palermo e Riquelme. Foi o mandatário, aliás, quem renovou o contrato de Román em 2010 – uma decisão que provocou um racha interno e o pedido de demissão do então tesoureiro, justamente Angelici, que passaria a se tornar seu principal opositor. O camisa 10 até atuou sob as ordens de Angelici, mas não tinha uma relação tão boa, como se evidenciou em sua passagem pelo Argentinos Juniors.

Riquelme chegou a falar com partidários de Angelici nos últimos dias, em meio ao seu claro interesse de entrar para a política do Boca Juniors. Todavia, foi convencido pelas outras propostas a se juntar à oposição. “Sim, tomei uma decisão. Como pedi que todos fossem juntos, hoje era minha obrigação anunciar. Farei parte da chapa de Ameal com Pergolini. Estou agradecido à situação, porque tentou me convencer, mas tomei esta decisão e quero que o torcedor do Boca saiba por mim. Fico feliz com a possibilidade de voltar ao meu clube, à minha casa”, apontou. “Tanto Ameal quanto Pergolini se comprometeram a me acompanhar. Claramente sei que não estou preparado para ser presidente, mas tentarei me preparar para isso nos próximos quatro anos. Se as pessoas nos elegerem, vou administrar o futebol”.

Segundo Riquelme, quem o motivou a voltar para o Boca Juniors foi seu filho. E a razão foi justamente a derrota em Madri para o River Plate. “Pensei muitíssimo e me sinto contente com a decisão. É hora de tentar voltar. É este o momento. Vamos precisar da ajuda dos torcedores para que votem na gente. Também a ajuda dos companheiros que estão aqui, para que todos fiquem juntos”, explicou Román. “No dia em que aconteceu a derrota em Madri, pensei que havia chances de voltar ao clube. Pedi que todos se juntassem, o que não foi possível. É o que precisava fazer. Gosto muito do clube, todos sabem. Tenho que ajudar, faço o que sinto”.

Sobre sua despedida, Riquelme avaliou que não teria clima para um jogo festivo, quatro dias após as eleições. Para ele, é necessário que todos se divirtam e isso estaria em risco por conta da disputa nas urnas, ainda mais com a sua participação direta no pleito. Sua ideia é remarcar o jogo para junho, antes da Copa América. Prometeu tentar até mesmo a presença de Messi. Não indica desistir da ideia se perder o pleito.

Por fim, Riquelme não se incomoda que seu envolvimento na política atrapalhe a imagem como ídolo, admitindo que permaneceria imaculado se curtisse a aposentadoria longe da Bombonera. O veterano avalia que os torcedores entenderão sua posição. “Eu também sou torcedor do Boca e conheço eles, eles me conhecem. Se estou comunicando isso, é porque estou seguro do que desejo fazer. Poderia passar a ser o Bochini do Boca, que não perdeu nunca, o maior de todos os tempos do Independiente. Mas tenho vontade de voltar ao meu clube, tenho muita tranquilidade e quero ajudá-lo a ganhar. Quero que Agustín, meu filho, volte a festejar”, declarou. Román é mais um boquense. E esse é seu grande apelo, inegavelmente.