Ser apaixonado pela profissão torna o dia a dia menos sofrido e mais prazeroso. Ser jogador de futebol é um sonho de muitos garotos, como foi para Rio Ferdinand. Aos 36 anos, ele anunciou o fim da carreira neste sábado, depois de muitos momentos de glória no tempo que esteve em campo. Gostar do trabalho é importante, mas a vida pessoal sempre será mais importante. E se em campo o último ano não foi bom para Ferdinand, rebaixado e dispensado pelo QPR ao final da temporada, na sua vida pessoal foi pior ainda. Viu a esposa morrer de câncer, em maio, uma perda difícil de assimilar mesmo para os mais fortes.

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Ferdinand teve uma carreira brilhante. Surgiu no West Ham, brilhou no Leeds e foi campeão muitas vezes no Manchester United, além de ter sido uma das figuras mais importantes da seleção inglesa. Foi convocado para quatro Copas do Mundo. Em 1998 não entrou em campo e na última, em 2010, foi cortado por lesão. Fez 81 jogos com a camisa da Three Lions, apelido da seleção inglesa.

Fruto das categorias de base do West Ham, estreou aos 17 anos, em 5 de maio de 1996, no último jogo da temporada, e se tornou um jogador importante do time. O Manchester United se interessou por ele em 1997, mas o West Ham não quis vender. Em 1997/98, foi eleito o jogador do ano no time. Foi vendido ao Leeds por uma quantia recorde na época, £ 18 milhões. Ele ganharia as manchetes novamente depois de dois excelentes anos pelo clube e com finalmente a contratação pelo Manchester United por inacreditáveis £ 30 milhões, entre pagamentos à vista e variáveis por desempenho. Era, naquele momento, o britânico mais caro da história, em julho de 2002.

No Manchester United se tornou um dos melhores jogadores do mundo na sua posição. A sua parceria com Nemanja Vidic, que chegou ao clube em 2006, foi um sucesso. Formaram uma dupla de respeito, vista por alguns como a melhor do mundo em determinado período – especialmente na conquista do título da Champions League, em 2007/08, ano que o time também venceu a Premier League. Sim, aquele time tinha Cristiano Ronaldo como grande estrela, mas uma defesa muito forte para garantir os bons resultados. Ferdinand enfileirou títulos: foram seis da Premier League, uma Copa da Inglaterra, três Copas da Liga, uma Champions League e um Mundial de Clubes.

Já atuando pelo Queens Park Rangers, depois de sair do Manchester United pelo baixo rendimento, ele viu o time lutar contra o rebaixamento a temporada toda. Ele mesmo teve que lutar por um lugar no time titular, sem conseguir ter grandes atuações. No final da campanha do time, ele teve que se ausentar. Tudo porque a vida cobrou a sua atenção para o que ele tinha de mais precioso.

Muitas conquistas, muitos títulos, sucesso, prestígio. Mas aos 36 anos, nada disso pareceu o bastante para enfrentar o que a vida pessoal lhe trazia. Sua esposa, Rebecca, Elliston, teve câncer de mama. Depois de uma curta batalha contra a doença, ela não resistiu e morreu, no dia 2 de maio. “Minha alma gêmea escapou ontem à noite”, o jogador anunciou, de forma bela, em comunicado. “Rebecca, minha maravilhosa esposa, morreu pacificamente depois de uma curta batalha com o câncer no hospital Royal Marsden, em Londres. Ela foi uma fantástica, amorosa mãe para nossos três lindos filhos. Ela fará falta como esposa, irmã, tia, filha e neta. Ela irá viver para sempre na nossa memória, como guia e inspiração”. Ela tinha 34 anos. Ver alguém tão próximo e tão importante ir é perda devastadora na vida de qualquer um.

Sempre centrado e inteligente nas suas entrevistas, Ferdinand não jogou as últimas partidas do Queens Park Rangers. Não teve uma despedida do clube, nem do futebol. Ao menos por enquanto. Em comunicado à imprensa, ele falou sobre a sua aposentadoria. “Esta temporada eu realmente descobri que é tempo para pendurar as chuteiras, ficar em casa e ver outros jogarem o jogo”, ele disse.

“Depois de 18 anos como jogador profissional, eu sinto que é hora de me aposentar do jogo que eu amo. Quando era um garoto de 12 anos, chutando a bola em Friary Estate, em Peckham, eu nunca sonhei que eu jogaria pelo clube do meu coração, West Ham, que seria capitão do Leeds, ganharia a Champions League com o Manchester United ou que reencontraria o meu primeiro técnico no Queens Park Rangers”, diz a nota do jogador.

“Eu sempre irei lembrar as 81 vezes que joguei pela Inglaterra com imenso orgulho. Estas são memórias preciosas que durarão uma vida. Eu gostaria de agredecer a Chris Ramsey, Harry Redknapp, David O’Leary e David Moyes, que me dirigiram em vários momentos da minha carreira, todos os membros da equipe dos bastidores que cuidaram de mim por todos esses anos, todos os jogadores com quem joguei. Também gostaria de agradecer à equipe que me gerenciou fora de campo, Jamie Moralee e todo mundo na New Era”.

“Ganhar trooféus nos meus 13 anos de Manchester United me permitiu atingir tudo que eu desejei no futebol. De criança até hoje, tudo que eu mais me importava. Nada disso seria possível sem o gênio de um homem, Sir Alex Ferguson. Sua grande conquista, aos meus olhos, será sempre a forma como ele nos desenvolver como homens, não apenas como jogadores. Ele será sempre, na minha opinião, o maior técnico da história do futebol britânico”, disse Ferdinand.

Tudo isso ficou pequeno naquele dia 2 de maio. E ele soube agradecer a todos que o apoiaram no momento mais difícil da sua vida. Ainda prestou homenagem aos torcedores de futebol de todos os times. “Eu também gostaria de agradecer a todos que prestarão homenagens à minha falecida esposa Rebecca e à minha família, incluindo a minha mãe e o meu pai, pelos seus sacrifícios, seu encorajamento e seus conselhos durante a minha carreira”, declarou o agora ex-jogador. “E, finalmente, eu gostaria de agradecer todos os torcedores de todos os clubes, sem os quais o futebol profissional não existiria. Eu sentirei falta de cada um de vocês nas minhas tardes de sábado”.

Nenhuma carreira brilhante pode curar a dor que Ferdinand teve que enfrentar na vida pessoal. Que Ferdinand possa descansar da sua grande carreira com seus filhos e tenha o conforto do amor de quem está por perto. As grandes atuações em campo não serão esquecidas e ele está na história dos clubes que passou e da seleção inglesa. O futebol britânico sabe que perdeu uma figura marcante. Mas acima de tudo, que ele possa continuar a sua vida e ter motivos para sorrir.

Roberto Falcão chegou a dizer uma vez que o jogador de futebol morre duas vezes. A primeira é quando encerra a carreira. Mas isso, nem de longe, é uma dor tão grande quanto a que Ferdinand enfrentou ao perder a mulher que amava. Que seus filhos sirvam de grande inspiração para que ele possa continuar e ter uma vida feliz, também fora do futebol. Quem gosta de futebol lembrará dos seus grandes momentos em campo. Que ele construa muitos mais fora de campo, com as pessoas que importam para ele. A história dele como jogador já está escrita. A vida, porém, é muito maior do que o trabalho.