Rio 2016

Entre vibração e vaias, a cultura do torcedor de futebol toma o atletismo nos Jogos Olímpicos

Era como um semi-deus se materializando à frente de cada um dos milhares de mortais nas arquibancadas do Estádio Olímpico. Todos na ânsia de ver a história. Todos na expectativa de presenciar aquele homem, que já é considerado uma lenda, dar um passo a mais rumo ao Olimpo do esporte. Seria o antepenúltimo degrau, o mais alto de todos, do inédito tricampeonato na prova mais nobre do atletismo. Mas nada que as passadas largas de Usain Bolt não pudessem alcançar. O ouro veio e o semi-deus, que adora expor o seu lado humano e também é adorado por isso, ratificou mais uma vez a sua divindade na pista. O estádio veio abaixo. A história se concretizava a olhos nus.

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O ambiente do Engenhão desde os primeiros minutos da noite de domingo, aliás, parecia seguir um roteiro cuidadosamente escrito para aquele clímax. Bolt sabia e sentia que a torcida estava a seu favor, e por isso mesmo foi Bolt em sua essência. Encarnou carisma da cabeça aos pés. Sua mera entrada na pista hipnotizava, um homem que concentrava os olhares de toda a multidão. Estava pronto para o show, o que ficou claro principalmente nas semifinais. E o enredo se seguia com um “vilão”, Justin Gatlin, acompanhado por pesadas vaias. Personalidades opostas, o americano correu diretamente aos vestiários após garantir sua vaga na final.

Aos poucos, o estádio se inflamava nos minutos anteriores à largada. Wayde van Niekerk foi um coadjuvante que, não fosse Bolt, poderia muito bem ter sido o protagonista da noite, ao largar como azarão e, mais do que o ouro, quebrar um dos recordes mais duradouros do atletismo. Logo depois, veio o triunfo da colombiana Caterine Ibarguen no salto triplo, levando a loucura os muitos compatriotas presentes nas arquibancadas. Até o show final. Um a um, os atletas eram apresentados como astros. Mas a tensão da expectativa, em um filme que não tinha final certo, tomava a todos. Todos menos um: Usain Bolt.

A largada, que nunca foi o forte, tinha sido ainda pior. Serviu apenas para alimentar o nervosismo em que estava do lado de fora. A certeza estava em Bolt. Que, passo a passo, ia engolindo os adversários. Até, nos 30 metros finais, ultrapassar Justin Gatlin. Bateu no peito na linha de chegada, embora não existisse margem para desacelerar desta vez. O livro de ouro se fechava. E começava uma festa previamente preparada ao momento grandioso. A playlist rolava com clássicos da música jamaicana, abafada só pelos aplausos e gritos por Bolt em cada canto das arquibancadas. Ovação que aumentou ainda mais quando, já no fim da volta olímpica, o jamaicano fez a sua tradicional comemoração do ‘raio’. Raio que caiu três vezes no mesmo lugar, o alto do pódio. Gatlin, por sua vez, recebia o carinho, apesar de seu antagonismo. Não demonstrou qualquer resquício de mágoa e, com a prata no peito, festejou e foi festejado.

Noite que, por fim, teve sua definição perfeita (para variar) nas palavras de Usain Bolt: “Todas as vezes que eu estive no Rio foram ótimas. É incrível a energia que a torcida me dá. Parecia que eu estava em um estádio de futebol. A energia foi inacreditável. Espero que continuem torcendo por mim, faltam duas corridas ainda”.

bolt

A cultura de torcida no Engenhão, dominantemente, será inspirada pelo futebol. Gatlin não deveria e não merecia ser vaiado, por tudo o que já fez nas pistas, e independente de seu histórico de duas suspensões por doping. Mas era o homem mais capaz de destruir os planos de tanta gente. “Eu posso entender que as pessoas querem ver uma rivalidade minha com Usain. Eu sou um competidor, ele é um competidor. No fim do dia, nós dois trabalhamos duro por aquilo que queríamos, ambos querem vencer. Temos respeito um pelo outro. Eu só queria ver esse respeito também nas arquibancadas. Mas, na hora da prova, você tem que deixar de ouvir e se concentrar”, apontou o americano.

A cena, por fim, se repetiu nesta segunda. Para ver Thiago Braz campeão no salto com vara, as arquibancadas se incendiaram, e muito. Mas também torceram contra o francês Renaud Lavillenie, dono do recorde mundial e então campeão olímpico. As vaias ganham até certo ar de naturalidade, embora não tenham acontecido em um momento oportuno dentro da modalidade, especialmente quando o veterano se preparava para os seus saltos. Não demonstram o respeito necessário, mas também fogem de qualquer tipo de controle – ainda mais pelas circunstâncias, diante do brasileiro. E o francês, por sua vez, demonstrava certo prazer em vibrar diante da multidão quando superava o sarrafo. Era o antagonista perfeito para a glória gigantesca que poderia se concretizar ao atletismo brasileiro, e veio de maneira brilhante com o ápice atingido por Thiago Braz. Um enredo que se aproximou daquele construído na noite de domingo, a Bolt.

Lavillenie, contudo, não demonstrou o mesmo grau de compreensão de Gatlin, muito menos o bom senso do americano. Tudo bem reclamar das vaias no momento de concentração. Mas se comparar a Jesse Owens e o público no Rio de Janeiro ao que aconteceu na Alemanha nazista soa como um exagero tremendo. Soa como papo de mau perdedor, como quem não soube respeitar a superação protagonizada por Thiago Braz – sobre quem ele afirmou, dois dias antes da disputa, que talvez não soubesse lidar com a pressão de competir em casa. Pegou tão mal que o francês recuou, pedindo desculpas pela afirmação.

A falta de cultura de torcer no atletismo (e, por consequência, de respeito) é uma questão a se discutir. Porém, um campeão também precisa saber lidar com as circunstâncias, com a ânsia de um público acostumado a fazer pressão e vibrar com o gol. Lavillenie não soube lidar com isso, dentro e fora da competição. O espírito olímpico que o francês tanto pede foi o que mais faltou a ele. A postura das arquibancadas pode não atender o protocolo, mas não dá para negar que a vibração intensa ajuda a tornar os campeões ainda maiores. Thiago Braz foi gigante, muito maior que os 6,03 metros de seu sarrafo. Enquanto isso, a mentalidade de Lavillenie foi microscópica.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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