O Dinamo Zagreb estabeleceu, ao longo dos últimos anos, uma das maiores hegemonias da história do futebol europeu. A falta de competitividade do Hajduk Split desde meados da década passada permitiu ao clube da capital enfileirar 11 taças consecutivas do Campeonato Croata – quarta maior série do continente em todos os tempos e a maior vigente, igualada com o Bate Borisov. Entretanto, o sonho de superar o recorde compartilhado entre Skonto Riga e Lincoln Red Imps, com 14 troféus cada, caiu por terra nesta temporada. O Rijeka, ameaça constante nas últimos três anos, interrompeu a dominância neste final de semana. Faturou o título inédito com uma rodada de antecedência, sem deixar dúvidas sobre seus méritos, e desencadeou uma enorme festa no Estádio Rujevica, onde sua torcida manteve uma atmosfera vibrante durante toda a campanha. Conquista que, diante de todo o contexto intrincado do futebol croata, até parte da torcida do Dinamo aplaudiu.

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Historicamente a terceira força do futebol croata, desde os tempos de Campeonato Iugoslavo, o Rijeka se manteve como coadjuvante durante boa parte do período pós-independência. Ao longo das duas primeiras décadas a partir do desmembramento do país, conquistou duas vezes a Copa da Croácia, além de ter sido vice-campeão do Campeonato Croata em duas oportunidades. O vice de 1998/99, inclusive, marca uma chaga profunda na torcida dos bijeli. O time asseguraria o feito inédito com uma vitória sobre o Osijek na rodada final. Todavia, o empate abriu a brecha para que o então chamado Croatia Zagreb ficasse com o troféu. O Rijeka teve um gol legítimo anulado nesta partida, em episódio que, segundo investigações posteriores, foi manipulado pelo presidente da república, Franjo Tudman.

A nova guinada do Rijeka começaria a partir do início desta década. Em 2012, o clube foi comprado por Gabriele Volpi, milionário italiano que fez fortuna com a exploração de petróleo na África. O aporte financeiro, apoiado pela prefeitura da cidade, ajudou a impulsionar o time a partir das contratações e do modelo esportivo sustentável, sem realizar grandes loucuras. Assim, os bijeli voltariam a se candidatar às taças em pouco tempo. Foram por três vezes vice-campeões croatas, enquanto bateram o Dinamo Zagreb para conquistar a Copa da Croácia em 2013/14, no primeiro título do clube em oito anos. Neste momento, um dos protagonistas era o meia Moisés, de excelentes atuações pelo Palmeiras no último Campeonato Brasileiro. O atacante Andrej Kramaric também se sobressaiu, vendido posteriormente ao Leicester.

Faltava ao Rijeka apenas o passo além para superar o Dinamo Zagreb e conseguir o título nacional. Ao longo do tri vice, a distância aos multicampeões era considerável. No entanto, pesava também a força política do clube da capital no jogo dos bastidores. O ex-presidente do Dinamo, Zdravko Mamic, possui um trânsito enorme na federação croata. Nem mesmo sua prisão preventiva, aguardando julgamento sobre diversos crimes financeiros, incluindo evasão fiscal e desvio de dinheiro do próprio clube, tirou o poder das mãos do cartola. Sua influência na federação persiste, assim como a posição de conselheiro dos azuis.

Além de vencer os seus jogos, o Rijeka precisava também superar os erros de arbitragem em benefício do Dinamo Zagreb. Uma situação que vinha causando protestos no próprio Estádio Maksimir, casa dos azuis. Opositores de Mamic por diversos motivos, incluindo as muitas restrições nas arquibancadas, os ultras do Dinamo se afastaram dos jogos como mandantes durante seis anos. A volta aconteceu apenas nos últimos meses, mas eles não deixaram de manifestar publicamente as insatisfações. Em vitória sobre o Cibalia em fevereiro, graças a um pênalti inexistente concedido ao Dinamo, os torcedores vaiaram seus jogadores e lançaram de volta ao campo as camisas dadas a eles depois da partida. Nem mesmo a complacência dos apitadores atrapalharia o Rijeka desta vez.

Afinal, enquanto o Dinamo cambaleava, sentindo as vendas de vários jovens destaques do elenco ao longo das duas últimas temporadas, o Rijeka enfileirava vitórias. Os campeões sofreram apenas uma derrota em 35 rodadas, e apenas em maio, quando o título já se aproximava. Inclusive, destroçaram o Dinamo no primeiro confronto direto do campeonato. Bateram o time da capital por 5 a 2, diante de sua torcida, no Estádio Rujevica – onde acumularam 17 vitórias e um empate em 18 jogos. E ambos os clubes voltarão a se cruzar no próximo final de semana, pela última rodada. Para que os bijeli esfreguem a taça no rosto dos oponentes, em partida marcada para o Estádio Maksimir. Com o triunfo por 4 a 0 sobre o Cibalia neste domingo, o Rijeka manteve a vantagem de cinco pontos na liderança e não pode mais ser alcançado.

Do lado de fora do campo, o triunfo vem pelas mãos de Matjaž Kek. O esloveno, técnico de seu país na Copa do Mundo de 2010, abraçou o projeto do Rijeka a partir de 2013. Ajudou a moldar o elenco campeão, confiando basicamente em jogadores com origem na região e alguns nigerianos – fruto da influência do presidente Gabriele Volpi. Com passagens anteriores por Dinamo e Hajduk Split, o meio-campista Franko Andrijasevic se colocou como o grande líder técnico do grupo. Além disso, preponderou a fome de gols das vastas opções na linha de frente, contando com nomes como Mario Gavranovic, Alexander Gorgon e Roman Bezjak.

Agora, o Rijeka mira para uma temporada histórica nos próximos meses. Entra na segunda fase preliminar da Liga dos Campeões, em sua segunda participação no principal torneio do continente, após cair nas preliminares em 1999/00 – e após fazer campanhas dignas em algumas edições recentes da Liga Europa. Além disso, espera construir uma nova hegemonia no Campeonato Croata. Até pelas participações recorrentes na fase de grupos da Champions e pelo dinheiro arrecadado com a venda de jogadores, o Dinamo Zagreb pode se portar de maneira mais agressiva no mercado. Mas já sabe que possui um rival a altura, como não viu por anos, e dependendo apenas do futebol para se tornar competitivo. Que, além disso, possui mais estabilidade em diversos outros aspectos para se colocar no topo. O Rijeka promete não ser um mero ponto fora da curva.