Richarlison precisou de apenas um jogo para agradar com a camisa da seleção brasileira. Entre as poucas coisas que se salvaram no desnecessário amistoso contra El Salvador, a principal foi a maneira como o jovem aproveitou a oportunidade e logo mostrou serviço, com seu ótimo poder de definição alargando a goleada. Já nesta quarta-feira, o atacante concedeu uma boa entrevista ao jornalista Fernando Kallás, no diário espanhol As. Falou sobre a progressão de sua carreira, a infância, o momento na Inglaterra e seus objetivos para a sequência da caminhada.

“Vejo tudo que está acontecendo comigo como algo um pouco surreal. Estou realizando um sonho que tinha desde pequeno. Sempre quis jogar na Premier League. Quando olho a lista de artilheiros e vejo meu nome em cima, ainda preciso me acostumar com isso”, declarou o atacante, falando ainda sobre a maneira como as boas novas surgem rápido em sua trajetória como jogador. “Minha ascensão na base foi ainda mais rápida que no futebol profissional. Só joguei 11 partidas na base antes de chegar à primeira equipe. Fiz dois gols em meus dois primeiros jogos como profissional, e o resto é história. São coisas que não consigo explicar. Creio que é trabalho duro, perseverança, fé e muita força mental para superar os obstáculos”, apontou.

A ascensão repentina, todavia, dependeu de uma grande insistência de Richarlison, que ele coloca como uma etapa fundamental para moldar a sua forma de encarar o futebol: “Sim, pensei em deixar o futebol por ser reprovado nas peneiras. Meus dedos das mãos não são suficientes para contar o número de clubes que me recusaram. Estive perto de desistir, mas levantei a cabeça e fui a Belo Horizonte, só com o dinheiro da passagem de ida para o último teste que tinha, no América Mineiro. Se não passasse, não teria dinheiro para voltar para casa, no Espírito Santo, a 600 quilômetros dali. Dei a vida naquela manhã e fui aprovado. Se eu tivesse desistido depois do primeiro não, não teria chegado onde estou”.

Além disso, outro traço profundo na vida de Richarlison é a juventude humilde, de quem cresceu em uma vizinhança violenta em Nova Venécia, cidade no norte do Espírito Santo. Anteriormente, durante outras entrevistas, o atacante falou das ameaças que chegou a sofrer e da relação de seus amigos de infância com o tráfico, alguns presos hoje em dia.

“Levo como lembrança a situação da minha família. Tive que morar na casa do meu tio, porque ficava mais perto de onde eu treinava e não tinha dinheiro para o ônibus. Vendia doces e sorvetes na rua e trabalhava no campo para ajudar meus pais. Não podia ser de outra forma, porque todos estavam fazendo de tudo para que eu pudesse realizar meu sonho de ser jogador. Aprendi que é necessário ter paciência, persistência e fé nas pessoas para alcançar seus objetivos”, contou.

Sobre os ídolos, o jovem falou sobre a maneira como Ronaldo serve de influência: “Meus ídolos eram meu pai e meu tio, que jogavam no nível regional e eram muito bons. Meu pai era mais passador, tinha muita visão de jogo, e meu tio era um grande finalizador. Aprendi muito com eles, são meus ídolos no campo e na vida. Já entre os profissionais, Ronaldo Fenômeno. É um fora de série e merece o apelido que tem. Outro dia tive o prazer de conhecê-lo e foi uma grande emoção. Tenho um ritual que faço sempre no ônibus a caminho das partidas. Pego o tablet e coloco os vídeos de seus gols para ir aquecendo”

Richarlison não demorou a causar impacto na Premier League, deslanchando logo em suas primeiras aparições com o Watford. Contudo, segundo o atacante, há um processo gradual que acontece desde então: “Minha adaptação à Inglaterra foi tranquila, mas há coisas que se sente. O frio, a distância da família e dos amigos. Coloquei todo meu foco no trabalho para superar as dificuldades. Estou fazendo aulas de inglês e já entendo bastante, a dificuldade é falar. Mas com o tempo resolverei isso”.

Questionado sobre a queda de desempenho no segundo turno da última Premier League, o brasileiro aponta a maratona de jogos como a principal explicação: “Foi um ano de muita aprendizagem. Pesou muito o físico. Levava um ano e meio sem férias quando cheguei à Inglaterra e não passei pela pré-temporada do Watford, porque estava com a seleção sub-20. Foram dois anos e meio sem parar, em algum momento seu corpo cobra. Nesse ano descansei, fiz toda a pré-temporada e com isso acredito que posso estar no mesmo nível durante toda a temporada”

Por fim, perguntado se mira Barcelona ou Real Madrid no futuro, Richarlison mantém seus pés no chão e traça os planos para a atual temporada: “Acabo de chegar ao Everton, estou muito feliz. E, no fim das contas, o próximo passo dependerá muito do que fizer no clube. Então, espero fazer muitas coisas boas no Everton, conquistar algo relevante, retribuir a confiança do clube e da torcida. Essa é minha grande motivação no momento. Espero fazer uma grande temporada, seguir ajudando o Everton e conquistar meu espaço definitivo na Seleção. Claro que com o tempo tudo pode mudar. O patamar pode subir e os passos podem ser maiores e mais ambiciosos. É necessário muito trabalho e manter a concentração para que aconteça. E tomara que aconteça”.


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