Ricardo Teixeira já foi o homem mais poderoso do Brasil. Presidente da CBF por 23 anos, ele se tornou o principal cartola do futebol brasileiro no período. Passeou pelos mais altos círculos de poder da política brasileira e da política de esportes no mundo inteiro. Chegou a ser vice-presidente da Fifa e almejava seguir os passos do seu ex-sogro, João Havelange, e presidir a Fifa. Só que as acusações de corrupção o derrubaram. Hoje com 72 anos, ele deu entrevista exclusiva à CNN Brasil, que estreou no domingo. E soltou a língua, negando tudo que é acusado e apontando o dedo na direção dos Estados Unidos. Para ele, o país o perseguiu por ele ter votado pelo Catar como sede da Copa do Mundo de 2022, que tinha os Estados Unidos como concorrentes.

Copa 2022

“Eu matei a Copa do Bill Clinton. E eles sabem disso”, afirmou Teixeira em entrevista à CNN. “É vingança e todo mundo diz que o Clinton é muito vingativo”. Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, era diretor honorário da campanha dos Estados Unidos para sediarem a Copa de 2022.

O ex-todo poderoso da CBF ainda contou que o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, fez uma ameaça velada ao cartola quando discutiam o voto para sede da Copa do Mundo de 2022. “Acho que você deve ficar atento, porque você tem propriedade nos EUA, sua filha está estudando lá. Você devia ter cuidado. Como é que você vai votar no Qatar? O que que tem o Qatar a ver com você?”, teria dito Blatter. “Eu considerei isso como ameaça. Não falei nada, ia falar o quê? Olhei com olhar de cascavel para ele e fui lá votar no Qatar”, contou Teixeira.

Ricardo Teixeira foi um dos nomes citados no inquérito aberto pelo FBI contra dirigentes da Fifa. Em dezembro de 2019, mostramos que há um documento da Fifa que admite que Teixeira, Nicolás Leoz e Julio Grondona receberam propina para votar no Catar para sede da Copa de 2022. O antigo dirigente, porém, nega todas a acusações.

“Da minha parte, não (foi oferecido dinheiro). Especificamente da América do Sul não pagou um tostão”, afirma. “A Bélgica ofereceu dinheiro na televisão quando esteve no Brasil. A Coreia do Sul escreveu para nós dizendo que mandaria US$ 100 mil para cada federação votar neles.”

O ex-dirigente diz que os pagamentos de viagens de luxo e hotéis cinco estrelas são uma praxe. “Todo e qualquer presidente de federação, quando vai jogar em outro país, tem a obrigação de dar hotel cinco estrelas para o presidente e para o chefe de delegação”, contou o ex-presidente da CBF. “Tem que dar um quarto para cada membro da comissão. É isso”.

O problema é que a própria Fifa considera que os pagamentos feitos a Teixeira foram irregulares e usaram isso em um documento apresentado como prova para banir o ex-presidente da CBF do futebol, como mostra nossa matéria. O pagamento do Catar a Teixeira e a Julio Grondona, então presidente da AFA, teria sido feito em um amistoso jogado entre Brasil e Argentina jogado no país. As transações teriam Sandro Rosell como intermediário.

A relação com Sandro Rosell

Rosell tinha uma relação forte com Teixeira desde 1996, quando a CBF fechou com a Nike, que tinha o catalão como executivo, um patrocínio recorde na época, de US$ 200 milhões. Sandro Rosell veio morar no Brasil em 1999, quando se tornou presidente da Nike no país. Se demitiu em 2001, fundou a empresa Brasil 100% Marketing, mas manteve relação com a CBF de Teixeira. Foi contratada para comercializar amistosos da seleção brasileira.

“Quem falou que eu chamava ele de Sandrito é um grande mentiroso. Eu chamava ele de Sandrinho”, contou Teixeira à CNN, sobre a sua relação com Rosell. Em 2008, o Brasil fez um amistoso com Portugal em Gama, no Distrito Federal. O jogo foi organizado pela Ailanto, que recebeu R$ 9 milhões do governo federal pela organização da partida. A empresa, para surpresa de ninguém, tinha como sócios Rosell e sua secretária, Vanessa Almeida Precht.

O Ministério Público apontou pagamento de propina a políticos e empresários. Teixeira e Rosell se tornaram suspeitos de ter desviado dinheiro púbico. Falamos sobre a suspeita de crimes cometidos por Rosell em uma matéria de 2014. Em 2017, Rosell foi preso na Espanha por contratos com a CBF. Ficou 21 dias preso, mas foi absolvido pela justiça.

Mesmo assim, Teixeira ficou irritado quando a reportagem da CNN tocou no assunto do famoso amistoso contra Portugal em 2008. E soltou uma acusação. “Não tem nada que ver isso aí. Você sabe de quem você está falando? Você sabe de quem era esse jogo? Era da Ambev. Ela tinha um contrato deste jogo dele”, respondeu o ex-dirigente à CNN Brasil. O caso acabou com prisões do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda e do ex-secretário de esportes, Agnaldo de Oliveira. A Ambev nunca foi investigada como parte do esquema.

Fifagate

Um dos aliados de Teixeira era J. Hawilla, que se tornou informante do FBI na investigação. Em 2014, quando já tinha sido delatado, Teixeira se encontrou com o empresário e afirmou que suspeitava que ele gravava a conversa. “Eu tinha certeza absoluta que ele me vinha com alguma cafajestada, como veio. Eu tenho 72 anos, já tinha 65 ou 66, não posso ser tão burro, né?”, afirmou. “Eles botaram sete caras do FBI para me gravar com ele falando negócio de agência, de dinheiro”, afirma. “Cadê essa gravação? No mínimo, é o que estou dizendo, são incompetentes”.

Em 2015, a investigação do FBI foi devastadora na Fifa. A operação, deflagrada no dia 27 de maio, se tornou uma bomba na entidade que dirige o futebol brasileiro. Foram presos 14 dirigentes, com José Maria Marin entre eles. Ele foi o substituto de Ricardo Teixeira, que renunciou em 2012 – supostamente para tratar de um problema de saúde, mas o fato é que ele estava sofrendo processos na Suíça por corrupção. Foi pressionado pela Fifa e deixou o seu cargo de vice-presidente da entidade, que sonhava presidir. E deixou a CBF.

Em dezembro de 2015, Ricardo Teixeira foi incluído no indiciamento do FBI, junto com outro presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Por isso, Teixeira não pode deixar o Brasil, país que não extradita seus cidadãos. Caso saia, corre o risco de ser preso pelo FBI em território internacional. Teixeira morou nos Estados Unidos depois de renunciar à presidência da CBF, inclusive para tratamento de saúde. Perguntado pela CNN se tinha saudades dos Estados Unidos, ele foi enfático. “Zero. Saudades eu tenho de Paris”.

Relação com políticos

Ricardo Teixeira assumiu a CBF em 1989 e foi se tornando mais e mais poderoso com o passar do tempo. Em 2007, quando o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, Teixeira passou a ser o homem mais poderoso do Brasil. Recebido por diversos políticos com pompa, fez um verdadeiro beija-mão em um tour pelo país, sendo bajulado para que suas cidades ou estados recebessem o direito de sediarem a Copa.

Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era o presidente quando o Brasil conquistou o título da Copa do Mundo de 2002. E o dirigente não reservou palavras doces ao ex-presidente. “O distanciamento foi porque ele não apoiou a Seleção”, disse na entrevista na CNN. “Ganhou da Turquia, não mandou ‘parabéns, boa sorte’, nada”.

O dirigente decidiu, então, não ir à Brasília depois da conquista da taça. “Se ele não queria a Seleção, a Seleção não queria ele. Os jogadores ficaram fabulosamente satisfeitos de não ir”, contou o dirigente. Só mudou de ideia depois de conversa com o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, também do PSDB. “Fomos tomar café e ele disse ‘pô, Ricardo, faz isso, é o presidente’. Ele gosta muito do Fernando Henrique. Depois de duas horas, eu disse ‘tá bom, vou passar’”.

O presidente seguinte, Luís Inácio Lula da Silva, do PT, foi muito próximo de Teixeira. Foi com ele que o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa, em uma campanha que o presidente do país pessoalmente se mobilizou muito para conseguir os votos. Teixeira não quis ser muito crítico a Lula, talvez por isso. “Posso dizer que nem que era bom e nem que era ruim”. Na Trivela nº 7, de setembro de 2006, falava sobre a bancada da bola e a relação próximo da CBF e o poder, especialmente com o governo de Lula.

Quando o então presidente da CBF pensava em se afastar, foi Lula quem o convenceu a não renunciar, em no dia 1 de março de 2012, como mostramos aqui na Trivela. Alguns dias depois, no dia 8, Teixeira pediu uma licença médica da CBF. No dia 12, enfim, Ricardo Teixeira renunciou da presidência da CBF.

Já a relação com a presidente seguinte, Dilma Roussef, também do PT, as palavras foram duras. “Essa mulher não existe”, disse. “Desagradou ao nosso país, quase faliu”, declarou ainda Teixeira. “Nunca tive relação com ela. Nunca. Ela mentia. Ela dizia que eu pedi entrevista e que ela me negava. Nunca pedi entrevista para ela na vida”, continuou o ex-presidente da CBF. Teixeira resume Dilma a uma palavra: “terrível”.