O técnico uruguaio que ajudou a valorizar o que acontecia fora de Rio e SP

Durante décadas, as atenções do futebol brasileiro ficaram restritas a Rio de Janeiro e São Paulo. Algo explicado pela introdução do esporte no país, mas que vai muito além disso. Até os anos 1940, por exemplo, apenas quatro jogadores de outros Estados haviam entrado em campo pela seleção brasileira: Alvariza (do Brasil de Pelotas), Mica (do Botafogo da Bahia), Niginho (do Palestra Itália, futuro Cruzeiro) e Cardeal (do Nono Regimento de Infantaria, do Rio Grande do Sul). A partir de então, a abertura aos outros cantos do país começou a ser maior. Algo ajudado pelo trabalho de alguns técnicos estrangeiros, entre eles Felix Magno, Carlos Volante e, principalmente, Ricardo Díez.

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O uruguaio passou boa parte da carreira mudando de clube para clube, de Estado para Estado. Isso, no entanto, ajudou a espalhar os seus métodos de treinamento avançados e seu bom olhar para revelar craques. Na conta de Díez, podem ser colocados em partes os grandes times que Sport, Internacional e Atlético Mineiro tiveram entre os anos 1940 e 1950, bem como o surgimento de Ademir de Menezes, Nena e Danilo Alvim. Era um entusiasta da preparação física e também das categorias de base. Tanto quanto os resultados, suas ideias foram importantes para desenvolver o esporte no país.

O jornalista que veio fazer carreira no Brasil

Ricardo Díez surgiu para o futebol através dos jornais. O uruguaio escrevia para o diário sensacionalista Crítica, de Buenos Aires, fundado por seu compatriota Natalio Botana. Em Montevidéu, já tinha passado pela Escola de Educação Física do Uruguai, o que facilitou para que se tornasse técnico. Seu grande trabalho na Argentina aconteceu à frente do Chacarita Juniors. O comandante não conquistou títulos, mas conseguiu vencer os cinco grandes do país (Boca Juniors, Independiente, Racing, River Plate e San Lorenzo), o que rendeu boa reputação.

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Depois de sair do Chacarita, Díez veio seguir os passos de seus compatriotas no Brasil. O Fluminense contava com Carlos Carlomagno, outro jornalista que virou treinador. Antes dele, Ramón Platero tinha sido bicampeão carioca pelo Vasco nos anos 1920. Em 1936, o treinador arrumou emprego justo na fronteira do país com o Uruguai, assumindo o Grêmio Santanense.

Em Santana do Livramento, Díez fez sua fama ao conquistar o Campeonato Gaúcho de 1937 – que, amador, não contou com a participação dos recém-profissionalizados Grêmio e Internacional. Na decisão, superou o Rio-Grandense de Gentil Cardoso, técnico que chegou a assumir a seleção brasileira anos depois. Depois do título, Díez começou a ser sondado como possível contratado de algum clube carioca. Sem acerto, foi parar no banco de reservas do América Mineiro em 1939.

Os métodos inovadores e o sucesso imediato

Ricardo Díez não precisou de muito tempo para emplacar no América. Em dias, a repercussão do técnico argentino já era grande, na equipe que não vencia o título estadual desde 1925. O uruguaio chegou a liderar o Campeonato Mineiro durante um tempo, mas encerrou a campanha na quarta colocação. Mais importante, no entanto, era a forma como trabalhava com os jogadores nos treinamentos, valorizando a parte física.

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Para o comandante, não bastava ser um futebolista, era preciso também ser um atleta. E por isso mesmo eram intensos os exercícios físicos no América. Os jogadores eram obrigados a saltar cordas e a cabecear bolas penduradas em fios. O treinador queria que eles ganhassem força, resistência, potência. E a supremacia física do elenco foi sentida, com os métodos amplamente elogiados pelos jornais esportivos da época. Também realizava pré-temporada e exames médicos durante a preparação. Faltou apenas talento para que o estrangeiro conseguisse algum título em Belo Horizonte.

Os comentários positivos levaram Díez ao comando da seleção mineira no Campeonato Brasileiro da CBD. E, em 1940, o treinador já foi parar no Rio de Janeiro.  Era a escolha do America para tentar parar o Flamengo campeão estadual. Acabou sendo um fiasco, mas não tanto por sua culpa. Não era o uruguaio quem escalava o time, mas sim a diretoria do alvirrubro – que acabou bastante criticada na época.

Com o fiasco no Carioca, Díez abandonou o clube, com ao menos um legado: o meio-campista Danilo, “O Príncipe”, foi lançado no time principal por suas mãos. Naquele momento, Díez também demonstrava sua alta capacidade para revelar jogadores, algo que se seguiria no restante da carreira. No clube, ele mesmo realizava peneiras  para os aspirantes do Mequinha.

O esquadrão que ajudou a montar no Sport

A saída conturbada do America começou a reger a sequência da passagem de Ricardo Díez pelo futebol brasileiro. Na verdade, parecia ter traumatizado o treinador, que passou a abandonar os clubes em empreitadas rápidas, principalmente por causa de problemas de relacionamento com os cartolas. Ao menos, deixou boas heranças em parte dessas equipes.

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O segundo triunfo de Díez no Brasil aconteceu no Sport. O uruguaio manteve a sua filosofia de forte trabalho físico na Ilha do Retiro, bem como de lançar jovens jogadores. E o principal astro revelado pelo comandante no Leão foi Ademir de Menezes. O atacante foi a estrela na conquista arrasadora do Campeonato Pernambucano de 1941. O Sport venceu 11 partidas e empatou apenas uma, com 49 gols marcados e apenas dez sofridos. Uma campanha irrefutável, seguida de uma excursão pelo Sul e Sudeste do país na qual os pernambucanos ganharam 11 dos 17 jogos que disputaram – com Vasco, Flamengo, Inter, Grêmio e Atlético Mineiro entre os derrotados.

Além de projetar talentos como Ademir e Djalma, Díez também era elogiado pela forma como melhorou o desempenho de alguns jogadores, mudando o posicionamento. Uma fórmula que serviu ao Sport dar o troco no Santa Cruz depois da derrota na decisão do Pernambucano de 1940. E que fez o uruguaio elevar ainda mais o seu moral no futebol brasileiro. Apesar da força que apresentava em Recife, outra vez o técnico trocou de clube em meses, convidado para assumir o Internacional depois de sua excursão vitoriosa. Era o primeiro comandante estrangeiro da história do colorado.

Díez fortalece ainda mais o Rolo Compressor

Quando chegou ao Inter, Díez já assumiu um time fortíssimo. Os colorados eram bicampeões estaduais, no início daquele que ficou conhecido como o “Rolo Compressor”. A sua disposição, o técnico contava com algumas lendas do clube, em especial Tesourinha e Carlitos. Mesmo assim, o novo comandante conseguiu melhorar ainda mais a equipe ao observar os jogos nas várzeas de Porto Alegre.

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Logo nos primeiros dias no Rio Grande, Díez foi assistir a uma partida entre amadores no bairro de Petrópolis. Bateu o olho e gostou de um mulato forte, que jogava na defesa. Era Nena, um dos melhores defensores da história do Inter. Ao fim do jogo, o uruguaio foi convidar o garoto para se juntar aos profissionais do colorado. Em uma terça, o novato fez seu primeiro treino pela equipe principal. No domingo, estava em campo para enfrentar o Cruzeiro. A mesma partida marcou a mudança na carreira de Ávila, trocado de posição pelo técnico e que se tornou peça fundamental no Rolo Compressor.

Díez teve tempo de conquistar o Torneio Início de 1942 e também de iniciar a campanha do tricampeonato gaúcho. Porém, somente dois meses depois, pediu demissão por uma crise nos bastidores do colorado. Uma das referências do time, Russinho jogava em regime amador e doava seu salário para colegas do próprio clube. Com o aumento da carga de preparação física, o ídolo rejeitou participar das atividades e ameaçou abandonar a equipe. Os sócios compraram sua briga e a direção os acompanhou, diante da pressão para escalar Russinho. Díez abandonou o cargo outra vez por causa das interferências externas.

O título do Campeonato Gaúcho de 1942 foi o terceiro dos seis consecutivos conquistados pelo Rolo Compressor. Após a quebra na sequência em 1946, outro técnico estrangeiro ajudou o Inter a ser bicampeão em 1947 e 1948: Carlos Volante, que tinha feito fama nos tempos de jogador com a camisa do Flamengo. Além do trabalho no colorado, o argentino também foi bicampeão baiano pelo Vitória e assumiu o Bahia no jogo de desempate da final da Taça Brasil de 1959, quando os tricolores bateram o Santos no Maracanã. O primeiro treinador campeão nacional do futebol brasileiro era argentino.

A sorte na loteria e os anos errantes pelo Brasil

Logo após deixar o Internacional, Ricardo Díez assumiu o Grêmio. No entanto, não teve sucesso ao tentar parar o Rolo Compressor. A partir de então, começou a peregrinar pelo sul do país. Trabalhou no Paraná, teve uma oportunidade no Santos e comandou o Guarany de Bagé, antes de passar por um período sabático em Buenos Aires. O uruguaio ganhou 200 mil cruzeiros na loteria e resolveu se mudar para a capital argentina para aproveitar o dinheiro. Voltou ao Brasil em 1945, para mais uma série de trabalhos fugazes.

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Na segunda passagem pelo America, ajudou a recuperar Danilo, que vinha sofrendo problemas com as noitadas e com um acidente de carro que o deixou afastado por dois anos dos gramados. Segundo o Sport Ilustrado da época, foi “pai, massagista, médico e técnico” ao mesmo tempo, levando o Príncipe à velha forma antes de sua transferência ao Vasco. A fama de motivador o fez voltar também ao América Mineiro, onde não durou um ano. Na sequência, passagens pouco gloriosas por Siderúrgica-MG, Sport e Remo. Para a imprensa, o ciclo de Díez no Brasil havia acabado.

Fazendo história no Atlético Mineiro

A grande reviravolta na carreira de Ricardo Díez aconteceu em 1949, quando foi contratado pelo Atlético Mineiro. A partir de então, começaria a escrever sua trajetória como um dos maiores treinadores do Galo. Logo nos primeiros meses, o título estadual que não vinha há tanto tempo para o comandante. Os atleticanos conquistaram o Campeonato Mineiro perdendo apenas três dos 18 jogos que disputaram. E repetiriam o feito com o bicampeonato no ano seguinte, com nove vitórias em 12 jogos e média de quase quatro gols por rodada – Nílvio, o artilheiro, balançou as redes 13 vezes.

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Os últimos meses de 1950, contudo, guardariam a grande conquista de Díez à frente do Atlético. Os alvinegros seguiram para uma excursão pela Europa, a primeira de um clube mineiro. O convite havia sido feito por empresários do continente, empolgados com a Copa do Mundo e que também queriam usar o esporte para ajudar na recuperação de alguns países após a Segunda Guerra Mundial. E os resultados dos atleticanos foram notáveis, disputando amistosos em Alemanha, França, Bélgica, Áustria e Luxemburgo. O Galo venceu seis jogos, empatou dois e perdeu dois. Entre os derrotados, clubes de renome, como o Hamburgo, o Schalke 04, o Anderlecht e o Stade Français.

A série de partidas do Atlético de Díez foi disputada sob o rigoroso inverno europeu. A equipe precisou encarar temperaturas negativas, para as quais não estava preparada. Sem tantas roupas de frio, os jogadores recorreram à aguardente nos treinos e a bolsas de água quente durante os jogos. Em meio à neve, ídolos como Kafunga, Zé do Monte e Lucas se consagraram ainda mais. Após receber uma taça da federação alemã, o Galo se tornou o “campeão do gelo”, um título que é celebrado até no hino do clube. Na volta a Belo Horizonte, a torcida saiu às ruas para receber os heróis. E a preparação física, tão defendida por Díez, certamente ajudou os atleticanos a suportarem essas condições adversas.

Ricardo Díez permaneceu no Atlético Mineiro até 1952. Saiu antes da campanha vitoriosa no Campeonato Mineiro, de novo por divergências com os cartolas. “Saio do Atlético por causa de meia pataca. Dei ao Atlético o seu maior sonho; em compensação, recebi a maior decepção”, afirmou na época. A imprensa especulava o interesse do Galo em Felix Magno, outro técnico estrangeiro que marcou época em vários estados. O uruguaio é considerado um revolucionário no Avaí, por introduzir novos métodos de treino e de preparação física. Com o técnico, o Leão faturou dois de seus quatro títulos estaduais seguidos entre 1942 e 1944. Também passou pelo Atlético Mineiro no fim dos anos 1940, bicampeão mineiro. Seu melhor momento, porém, foi vivido no Coritiba, dono de cinco títulos paranaenses e recordista em jogos à frente dos alviverdes.

Mais títulos em Minas e o fim da carreira

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No final das contas, Felix Magno não assumiu o Atlético, mas Ricardo Díez voltou a trocar constantemente de time. Passou por Bahia e Cruzeiro antes de voltar ao Galo em 1954. Assumiu o time de Ondino Viera no meio da campanha no Campeonato Mineiro, ficando com mais dois canecos do Mineiro – o terceiro e o quarto no penta entre 1952 e 1956. A terceira passagem no clube alvinegro aconteceu entre 1958 e 1959, mas saiu pouco antes da definição do título de 1958, ocorrida apenas em abril do ano seguinte. Por fim, voltou pela quarta e última vez ao Atlético em 1960, para poucas semanas. Com 171 jogos, é o quinto técnico que mais treinou os alvinegros.

Entre uma volta e outra a Belo Horizonte, Díez também comandou os outros dois grandes de Pernambuco, Náutico e Santa Cruz. A partir de então, sua carreira foi relegada ao ostracismo, apenas à frente de clubes de pouca relevância nos torneios nacionais. Morreu em 1971, aos 71 anos, nas Minas Gerais onde tinha se consagrado. Para ser lembrado pelas andanças pelo Brasil e pelo que ensinou em tantos lugares.


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