O Vasco avançou à segunda fase da Copa Sul-Americana nesta quarta-feira. Após a vitória por 1 a 0 em São Januário, o Cruzmaltino segurou a vantagem na Bolívia e se classificou com o empate por 0 a 0 diante do Oriente Petrolero. O resultado, no entanto, se torna um assunto secundário quando mais um caso de racismo foi registrado nas arquibancadas: torcedores bolivianos chamaram de “macaco” o goleiro reserva vascaíno. E tão revoltante quanto a discriminação em si é o descaso das autoridades que deveriam bater de frente com os agressores. Diante da indignação do goleiro Alexander no banco, o árbitro venezuelano José Argote repreendeu a vítima e mostrou o cartão amarelo a Ricardo Graça.

Durante um primeiro tempo bastante fraco, o Vasco criou a melhor chance de gol, quando Talles Magno carimbou o travessão. O segundo tempo não melhorou muito e os minutos finais pareciam abertos, com a diferença mínima no placar agregado. Já aos 39, antes de um escanteio ser cobrado pelos cruzmaltinos, aconteceu o repudiável ataque racista. Torcedores nas arquibancadas em Santa Cruz de la Sierra começaram a fazer gestos contra o banco de reservas vascaíno e os jogadores brasileiros denunciaram ao quarto árbitro.

O árbitro José Argote, entretanto, preferiu recriminar o goleiro Alexander e seus companheiros à beira do campo. Provavelmente avisado pelo quarto árbitro através do sistema de comunicação, o venezuelano caminhou até o banco de reservas e mostrou o cartão amarelo a Ricardo Graça, que acusava os gritos, além de acuar os demais brasileiros. A atitude do juiz revoltou ainda mais os jogadores do Vasco – e com toda razão. Além disso, a advertência ao arqueiro aumentou a sensação de impunidade entre os racistas. As imagens da transmissão mostraram dois torcedores gesticulando. A Conmebol e a polícia boliviana podem (e devem) agir.

Depois disso, o Vasco chegou a criar uma boa chance, enquanto o Oriente Petrolero mandou uma bola no travessão aos 50 do segundo tempo. Com o empate sacramentado, os vascaínos passaram, numa noite também com motivos para lamentar. Em suas redes sociais, o clube logo se manifestou sobre o ataque racista. “É triste ver que em pleno 2020 ainda observamos tantos casos de racismo no futebol. Não há mais espaço para este tipo de pensamento. Ao Alexander e a todos que possivelmente se sentiram ofendidos, nossa solidariedade. ESTAMOS JUNTOS, SEMPRE!”, dizia a postagem.

A Conmebol ainda não se pronunciou. Mas não dá para tratar o racismo apenas como um problema “do futebol europeu”, quando os casos são frequentes na América do Sul – sobretudo contra brasileiros, e tantas vezes varridos por baixo do tapete. A orientação dos árbitros é o mínimo, e Argote demonstrou um despreparo inacreditável. A vítima se tornou alvo duas vezes. É importante aos clubes se unirem e pressionarem a entidade para medidas mais enfáticas. As imagens são evidentes, e o episódio em Santa Cruz de la Sierra deveria ser reprimido com veemência pelas autoridades.