Todas as empresas que lançam versões anuais de um jogo têm o mesmo desafio: como agradar os exigentes fãs de uma série, não perdendo de vista o que cativava os veteranos, oferecendo coisas novas, mais profundas… E ao mesmo tempo não assustando os novatos com algo complexo demais? É um desafio difícil, que o Football Manager, herdeiro do velho Championship Manager, consegue resolver nessa versão 2013. Há um modo para cada tipo de jogador.

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Ou, para simplificar, a SI e a Sega, que fazem e distribuem o jogo, acham que existem dois tipos de jogadores que gostam de montar e gerenciar um time de futebol: aquele que tem bastante tempo e disposição de se aprofundar na função de cartola, técnico, professor e espécie de pai dos jogadores, e, bem, aquele que não tem muito tempo. Para esses, há o modo de jogo “Clássico”. É uma versão muito mais simplificada, que não chega a ser um Elifoot, mas lembra um pouco o Football Manager 2001/02, um dos clássicos da franquia.

No “Desafio”, você é levado a um tipo de jogo que lembra muito os “Scenarios” de outros jogos de futebol, como o saudoso International Superstar Soccer, da Konami. Nele, você tem níveis fácil, médio e difícil para tentar salvar um clube do rebaixamento, manter uma série invicta até o final do campeonato ou mesmo conseguir os resultados esperados com um time só de jovens. As clássicas frias nas quais o Joel Santana acaba se metendo. Alguns desafios são mais simples, mas conseguir superar uma missão dessas no modo difícil será uma tarefa que te tomará tempo – e paciência. É o tipo de modo de jogo que para mim é absolutamente fascinante.

Um defeito continua sendo o baixo conhecimento do futebol brasileiro. Os clubes daqui normalmente estão mais desatualizados que os europeus e nem todos os campeonatos estão presentes, nem a forma de classificação é a mais precisa. O único desconto nesse caso é que, bem, organização e critérios compreensíveis não são exatamente o que o Brasil faz de melhor. As mudanças são significativas. O último dia do mercado de transferências, por exemplo, tornou-se um momento especial e ainda mais emocionante nessa versão. Há mais opções para fazer transferências, algo que evolui a cada ano e essas opções a mais tornam essas negociações melhores.

Em termos gráficos, a melhora é visível. O jogo é mais realista, mas não se atreva a comparar com séries como FIFA ou PES, porque aí o resultado é ridículo. Além de o jogo estar mais bonito, os movimentos dos jogadores estão um pouco mais naturais, os replays estão mais legais de ver e até o movimento da rede foi aprimorado. A torcida melhorou também, está um pouco mais detalhada e parece reagir mais ao que acontece no jogo. A engine do jogo parece funcionar melhor durante a partida.

Os menus estão um pouco mais confusos para quem estava acostumado com a versão anterior do jogo. Chegar, por exemplo, ao elenco principal, pode levar dois cliques, o que antes levaria um só. Mesmo assim, não é nada muito incômodo, é mais uma questão de costume. A tela de quando entra no jogo também está um pouco alterada – um pouco escura, com movimentação da câmera atrás no estádio. Em geral, o visual está bom.

É sempre bom lembrar que o Football Manager é um dos jogos que permite personalização e há diversos sites, fóruns e blogs na internet que permitem colocar os escudos reais dos times onde eles não existem – por exemplo, na Premier League ou, onde particularmente mais gosto, nos times brasileiros. A Sports Interactive tem os direitos de usar os uniformes e escudos de alguns times, como a maioria dos da Serie A italiana. Mas é sempre bom saber que há malucos do mundo todo atualizando o jogo com pacotes de transferências, pacotes gráficos com uniformes e escudos dos times, logos das seleções e das competições e até atualização dos nomes dos campeonatos – a Alemanha, por exemplo, é chamada de “1ª Divisão” em português, mas essas atualizações colocam o nome real, Bundesliga. Vale para ligas do mundo todo. Minha dica é que você procure, porque personalizar o jogo vale a pena e há diversos lugares que ensinam como fazer isso.

Modo clássico: de volta às origens

Um dos maiores problemas das versões mais recentes do Football Manager é justamente uma das suas principais qualidades: o alto nível de detalhe. Se por um lado esse detalhamento faz o jogo ficar mais realista, por outro torna o jogo muito difícil para quem não está acostumado – seja porque deixou de jogar a série há muitas versões atrás, seja porque você nunca jogou. Aparentemente os produtores do jogo perceberam isso. Daí nasce o modo Clássico.

A ideia é simples e clara: menos é mais. Isso significa que muitas funções do modo tradicional não estarão presentes, como as coletivas de imprensa, as instruções individuais para marcação de jogadores adversários ou mesmo no próprio jogo, com menos opções e mais simplicidade. Na essência, o jogo é o mesmo, mas na prática são muito menos itens para encher o seu saco. O jogo flui mais e mais rápido, lembrando um pouco a versão 2001/02, jogada até hoje por saudosistas que não gostaram das mudanças feitas na série a partir daquela versão.

Basicamente, o modo clássico traz aquilo que é essencial ao jogo: você contrata jogadores, escolhe como o time vai jogar e, bem, joga. Todos os detalhes que gastam muito tempo e paciência foram descartados. Lembra quando era possível jogar uma temporada inteira em um dia? O jogo se tornou tão complexo que isso ficou quase impossível. E no modo clássico voltou a ser possível, porque você só precisa lidar com o básico, que é o mais importante, no fim das contas.

Modo Desafio: diversão a curto prazo

Interessante é também pensar que o jogo funciona dessa forma no modo Desafio, o que torna mais ágil. Afinal, não é aquele time que você quer tornar campeão ou levar uma divisão acima. É apenas um desafio que você quer cumprir para se divertir. Por que ser mais complexo do que isso?

O modo desafio, aliás, merece os parabéns. No Fifa, é possível jogar um desafio da semana, mas está longe de ser algo como era o “Scenarios” do ISS. Os desafios são isso. E o mais legal é que você escolhe o desafio – pelo tipo e pela dificuldade – e pode fazer de muitas formas diferentes. Eu mesmo escolhi defender a invencibilidade de um time até o final do campeonato.

O problema é que escolhi fazer isso com o West Ham na Premier League. É de se imaginar que não consegui, não é mesmo? Mas é divertidíssimo. Até porque você sofre muito mais – e acho que às vezes temos essa relação meio maluca com jogos que gostamos da dificuldade só para ter mais prazer ao realizar essas tarefas hercúleas. E, diga-se, achar o equilíbrio entre dificuldade e diversão é um dos principais desafios para os jogos. Esse modo garante uma boa dose de diversão e o seu nome é preciso: torna-se um desafio para você que quer mostrar suas habilidades como técnico.

Modo completo: ainda mais detalhado

A diversão do modo Clássico é incrível, mas se você é dos que gostam mesmo de todas as funções e do detalhamento único, fique tranquilo: o jogo também melhorou e muito. Tudo que é importante nas versões anteriores está presente, mas os avanços tornaram o jogo melhor. Ainda muito complexo, mas esse será sempre um ponto controverso.

Logo ao começar o jogo, já se percebe uma mudança. O FM 2012 tem uma evolução natural e os detalhes são aquilo que torna o jogo único. Por outro lado, o excesso de itens para o jogador ter que cuidar pode tornar o jogo travado. Em primeiro lugar, é possível adicionar um diretor de futebol. Sim, você escolhe um dirigente que tratará de renovações de contrato e coisas do tipo. E não é só isso, você pode escolher mais funções para a sua equipe.

Assim, logo ao iniciar o jogo e assumir um clube, você é levado a uma conversa com a diretoria para acertar as bases de premiação, teto salarial e orçamento para transferências. Depois, o assistente técnico faz uma reunião para definir quais as funções que ele irá assumir por você, o que é uma grande ajuda para tirar do seu caminho algumas das muitas tarefas do jogo – como coletivas de imprensa, preparar o time para os jogos ou fazer as palestras ao campo. Só neste início, você já pode deixar o jogo muito mais leve.

Esse é um ponto fundamental, porque é muito chato ter que ficar resolvendo tudo o tempo todo, mesmo para jogadores experientes. A ideia de personalização e poder escolher o que você fará e o que a sua equipe irá tratar é excelente, te deixa muito mais à vontade para tratar de outras questões. O jogo acertou em cheio ao fazer essa mudança.

Treino: simplicidade

Um dos itens que mais dava trabalho nas versões anteriores de Football Manager era o treinamento. Era preciso procurar na internet um modelo de treino para aplicar – ou, se você tivesse paciência, criar um modelo você mesmo, o que é bem trabalhoso. O pior disso é que mesmo se você acha que esse ponto é chato, você era quase obrigado a tratar disso: os treinamentos fazem muita diferença no desenvolvimento do time.
No FM 2013 as mudanças são significativas. Nada de “planos de treino” que são gravados e dão trabalho até para carregar quando se cria um jogo novo. Agora, o treino tem uma programação semanal geral e é possível dar um foco específico para cada adversário. Além disso, é possível determinar que os jogadores terão folga no dia anterior e dia posterior ao jogo. E você pode definir o foco para as semanas seguintes, o que pode ser bem útil.

A mudança no treino é um peso grande que os desenvolvedores tiram das costas do jogador. O treino é importante e é preciso existir. Mas era preciso simplificar – o erro nas versões CM 4, com detalhes demais, já tinha mostrado isso.

Transferências: a loucura do ultimo dia da janela

Contratar aquele jogador que você precisa pode ser uma tarefa muito desgastante. Chata mesmo. Vai proposta, vem proposta, negocia isso, aquilo… Bom, o FM 2013 tem uma função interessante para lidar com isso. Basta designar o jogador como alvo de transferência, a situação que ele terá no seu elenco e o valor máximo que você está disposto a pagar. A partir daí, a sua equipe tratará de tentar contratá-lo.

É certamente um modo mais fácil de resolver as contratações, mas isso só funcionará em negociações mais simples – ou se o seu time tiver muito dinheiro para gastar. Para conseguir negócios melhores ou contratações complicadas, será preciso a sua intervenção direta, mexer nos valores, nos benefícios, em eventuais trocas de jogadores ou até mesmo uma novidade desta versão: incluir a co-propriedade de algum jogador do seu elenco. Na prática, significa que os dois times passarão a ser donos do jogador, com 50% dos direitos econômicos para cada um. É um tipo de negócio muito comum na Itália, mas que pode ser bem interessante em algumas negociações.

O que mais vale destacar sobre transferências é o tratamento especial no último dia do fechamento do mercado. Agora, você é convidado a participar do último dia do mercado como um evento. É adicionado um relógio com o número de horas para fechar de vez a janela. Além disso, os veículos de imprensa te questionam sobre as negociações. É emocionante. Como jornalista que cobre futebol, sinto a adrenalina do último dia do mercado colocada no jogo e é uma loucura ver o relógio dizendo que faltam 10 horas, depois 8h, 5h ou mesmo 15 minutos, último intervalo antes do fechamento da janela de vez. Ficou tão interessante que é até possível fazer propostas quando faltam apenas 15 minutos para fechar a janela e ficar na expectativa para saber se deu tempo.

Brasil-sil-sil: cadê a Série D?

Football Manager é sem dúvida a série que melhor consegue retratar o futebol brasileiro, com detalhes que outros jogos de futebol, Manager ou não, ignoram. Por exemplo, os campeonatos estaduais, com suas diversas fórmulas, digamos, exóticas, estão bem retratados no jogo. Ainda assim, faltam algumas coisas, muitos detalhes, mas outros pontos importantes.

O principal deles é a ausência da Série D, o que é estranho, já que foi criada em 2010. E com a sua ausência, vem um outro problema: o número de times para treinar no Brasil diminui muito. O ideal seria ter a Série D e, não só isso: ter também a fórmula para que os times se classificassem para ela – além dos quatro rebaixados, os times que se classificarem via campeonatos estaduais. Desta forma, seria possível jogar com todos os clubes brasileiros – mesmo aquele que só disputa o estadual, mas que pode chegar à Série D, dependendo da sua posição no estadual que disputa.

Não é difícil entender que fazer isso é muito difícil, já que a classificação do estadual para a Série D muitas vezes tem critérios bem complicados. De qualquer forma, sabemos que logo começarão a surgir as atualizações feitas pelos usuários que corrige, em parte, esse tipo de defeito. Mas fica o recado para a SI e Sega: um pouco mais de detalhes do futebol brasileiro só deixará o jogo melhor, especialmente para o público daqui.

Sim, vale a pena

Se você está na dúvida em comprar Football Manager por qualquer motivo, deixe de lado: vale a pena. Especialmente se você compra pelo Steam, que cobra US$ 39,90 (na atual cotação do dólar, algo como R$ 81). Vale tanto para quem é um velho fã da série que não tem mais tanto tempo para jogar e quer retomar a sua paixão quanto para aqueles que acompanham versão após versão e quer mais e mais realismo. A versão 2012 só satisfez o último grupo. A versão 2013 certamente irá satisfazer ambos.

Este review foi originalmente publicado no antigo site Kotaku Brasil (in memorian)