O domingo deveria ser um dia de justiça para o Liverpool. O clássico contra o Manchester United, o ponto de virada. Tudo se encaminhava de maneira correta em Anfield. A emocionante homenagem às 96 vítimas de Hillsborough, com direito a “You’ll Never Walk Alone” entoado em uníssono, marejou os olhos. Na sequência, foi a vez de Luis Suárez e Patrice Evra encerrarem as hostilidades ao se cumprimentarem no início do jogo. E, até mesmo no momento em que a situação tinha maior propensão a desandar, quando a bola começou a rolar, os Reds davam mostras de força.

A superioridade dentro de campo, contudo, pouco valeu à equipe de Brendan Rodgers. Diante da forma como se dedicou taticamente e permaneceu sólido mesmo com 10 em campo, o Liverpool não merecia sua primeira derrota na Premier League. Pela maneira como não sentiu o gol que abriu o placar, o United talvez também não merecesse.

O fato é que o resultado, encaminhado por algumas decisões questionáveis da arbitragem, doeu demais aos Reds. Assim como a postura de parte dos torcedores dos Red Devils após a partida, acusando mais uma vez os rivais de assassinos, mesmo depois de pedidos – em vão – de Sir Alex Ferguson. Uma resposta, na verdade, também ao mau comportamento da torcida da casa, com alguns imitando aviões, em referência ao desastre aéreo de Munique.

Independente de qualquer queixa, a derrota está consumada e confirma o pior início de temporada do clube desde 1911/12 – quando também somou dois empates e três derrotas nas cinco primeiras rodadas. E, por mais que a largada seja péssima, a esperança de que a aparição na zona de rebaixamento seja apenas passageira já é visível.

A fraca estreia contra o West Bromwich ficou para trás. Apesar da postura imponente, a falta de efetividade ofensiva pesou na derrota contra o Arsenal, assim como no morno empate contra o Sunderland. Já contra a dupla de Manchester, a superioridade claramente foi dos Reds, por mais que falhas pontuais – do árbitro ou da própria defesa – tenham proporcionado os tropeços.

Aos poucos, a cartilha de jogo rezada por Brendan Rodgers é absorvida pelo elenco. O clube aparece entre os líderes em algumas estatísticas importantes na Premier League. É o terceiro que mais finaliza, o terceiro que menos concede chute aos adversários, o segundo que mais dribla, o sexto com mais posse de bola, o sexto com melhor aproveitamento nos passes. Resta apenas o triunfo se concretizar.

Para tanto, Rodgers precisará consertar algumas fraquezas evidentes do grupo de jogadores que tem em mãos. Algumas delas foram proporcionadas pela própria falta de planejamento do na pré-temporada. Por mais que tenha tentado explicar seus insucessos, o saldo após a janela de transferências é ruim. Não pelos jogadores que vieram, mas por aqueles que deixaram de vir.

O ataque é o setor que mais sofre com esta falta de opções. Os rumores sobre Alessandro Del Piero ou Michael Owen, assim como a quantidade de garotos da base que surgem como solução, evidenciam os problemas. Raheem Sterling tem demonstrado maturidade impressionante aos 17 anos de idade e acumula excelentes atuações. Todavia, em situações normais, o prodígio não seria lançado com tamanha urgência.

Claramente sobrecarregado, Luis Suárez não tem sido decisivo como deveria, apesar de ser o segundo jogador que mais finalize na EPL. O uruguaio é participativo, mas tem se precipitado demais nas conclusões. Para desafogá-lo, a principal alternativa vem dos pontas. Mas Borini e Sterling, apesar da eficiência do jogo pelos lados, precisam ser mais incisivos. Além disso, a sombra de alguém que possa atuar como referência na área, no lugar de Suárez, faz muita falta – sim, até Andy Carroll.

Já na defesa, as carências podem ser corrigidas mais com o trabalho cotidiano do que propriamente com alternativas no banco. Em alguns momentos a linha de zaga tem se exposto demais, enquanto comete falhas infantis em outros. Ainda que o elenco também não seja numeroso para o setor, boas doses de treinos táticos e entrosamento ajudam. Pepe Reina, caso recupere a confiança de outros tempos, também.

Para completar o time, a chave está no meio de campo, onde ao menos a qualidade é inegável. Joe Allen é, sem muitas dúvidas, o melhor jogador do Liverpool neste início de temporada. Nuri Sahin precisa mostrar o mesmo serviço dos tempos de Dortmund, mas é outro excelente nome. Jonjo Shelvey, a despeito da expulsão infantil contra o United, compõe bem. Suso surge como promessa. E até mesmo Joe Cole, antes colocado para escanteio, é ferramenta valiosa.

A alma da equipe, entretanto, continua sendo Steven Gerrard. Contrariando aqueles que apontavam que o veterano não se encaixaria na nova dinâmica de jogos, o capitão tem ajudado bastante. Ante o United, foi essencial na marcação por pressão e nas chegadas ao ataque, recompensado com um lindo gol.

Já no meio do turbilhão, a preocupação maior do Liverpool agora deverá ser afinar o próprio ritmo. A decisão de relegar à Liga Europa a um segundo plano é acertada, uma vez que a recuperação na Premier League tem que ser a prioridade. Um melhor aproveitamento em Anfield também é vital. O clube venceu apenas duas das 12 partidas pela EPL disputadas em casa em 2012.

A pressão sobre os Reds é grande nas próximas rodadas, mas deverá vir mais do lado de fora do que propriamente dos adversários. Os confrontos com Norwich, Stoke City e Reading vislumbram uma possibilidade de ascensão na tabela. A qualidade de sua forma, aos poucos, o time parece encontrar. Neste momento, é preciso manter a calma para alcançar as vitórias. E só assim começar a reescrever um novo capítulo do Liverpool. Em um momento tão importante para a história do clube, o futebol não pode ficar aquém das transformações.

Curtas

– Mais que os resultados, o assunto da semana na imprensa inglesa é a decisão de John Terry de abandonar a seleção. A situação realmente parece “insustentável”, mas a FA faz sua parte ao também investigar o caso de racismo – com considerável atraso, por sinal. Terry fez boa Euro e, mesmo não apresentando a forma de outrora, tinha plenas condições de comandar a defesa de Roy Hodgson. Porém, não é insubstituível.
– Os clubes ingleses tiveram um início razoavelmente bom na Liga dos Campeões. Manchester United e Arsenal foram os que menos convenceram, mas conseguiram vitórias contra adversários mais fracos. O Manchester City teve uma péssima atuação no primeiro tempo, mas pressionou o Real Madrid após o intervalo e voltou do Santiago Bernabéu sem grandes sequelas. E o Chelsea, sob o brilho de Oscar, foi quem fez a melhor partida, embora tenha cedido o empate à Juventus.

Premier League

– No outro clássico da rodada da Premier League, o Arsenal mostrou que tem condições de brigar pelo título. Os Gunners foram superiores ao Manchester City no Etihad Stadium, sobretudo no primeiro tempo – ainda que o erro de Mannone tenha custado caro. Arsène Wenger tem imprimido grande fluidez em sua equipe, possibilitada principalmente por Santi Cazorla, de adaptação impressionante no futebol inglês.

– O líder Chelsea conseguiu passar pelo bloqueio do Stoke City, mas fez uma partida pouco satisfatória. Exceção feita às tentativas individuais de Oscar, a linha de frente pouco funcionou durante a partida. Apesar das opções abundantes para a criação, Roberto Di Matteo deverá sofrer um bocado com a escassez de nomes para a cabeça de área, bem como alguém que dê alternativas a Fernando Torres no ataque.

– Inspirado por Demba Ba, o Newcastle começa a ganhar algumas posições, mas ainda não faz imaginar que uma campanha consistente como a da temporada passada se repita. Quem também começa a reação é o Tottenham, que, embora tenha vencido sua segunda partida seguida, precisa de um teste de peso para convencer.

– Das sensações do início da competição, o Swansea é quem mais dá sinais de queda, sem vencer nas últimas três rodadas. Já Everton, West Bromwich e Fulham seguem perseguindo o pelotão da frente e prometem ao menos uma temporada segura no meio da tabela. Destes, os Toffees combinam as melhores condições – bons jogadores, elenco variado e técnico de ponta – para surpreender e brigar por vaga em competições europeias.

– O Southampton demorou mais tempo do que merecia para chegar à primeira vitória na liga. E, com propriedade, os Saints anotaram 4 a 1 sobre o Aston Villa. Após enfrentar alguns dos favoritos nas primeiras rodadas, o técnico Nigel Adkins pode sonhar com uma ascensão na tabela. Quem precisa começar a correr atrás do primeiro triunfo são Reading, Norwich e QPR – que, pelo elenco, ainda precisa de tempo para se entrosar, mas não pode bobear tanto.

Championship, League One e League Two

– A Championship tem um novo líder: é o Brighton & Hove Albion, de Wayne Bridge, Tomasz Kuszczak e do técnico Gustavo Poyet. Além de bater o Millwall fora de casa, a equipe aproveitou o tropeço do Blackburn para assumir a ponta. O clube vem de escalada nas últimas rodadas, acumulando cinco vitórias consecutivas.

– Entretanto, o Blackpool, que fecha a rodada contra o Huddersfield Town nesta segunda, pode tomar o posto. Já na rabeira da tabela, o Peterborough United sequer pontuou e é fortíssimo candidato ao rebaixamento.

-Na League One, a liderança é do Tranmere Rovers, que soma seis vitórias e permanece invicto na competição. O Portsmouth, por sua vez, segue na zona de rebaixamento, com três derrotas nas últimas três rodadas. Já na League Two, o Gillingham vai sobrando na disputa, abrindo seis pontos em relação ao vice-líder, o Port Vale.