Por Joza Novalis

O livro “O Brasil nas Copas”, do jornalista Marcos Sergio Silva, lançado em 2010, trata da participação do Brasil em todas as edições do principal torneio mundial até aquele momento. E, mesmo sem o desastre de Dunga em 2010, há ensinamentos dos acertos e erros da seleção de sobra no livro. E Silva mostra o quanto uma nova conquista pode estar diretamente vinculada com a escolha de um desses caminhos.

A primeira frase do livro chama a atenção para o fato de que a seleção brasileira nasceu carioca. A partir daí, o autor traça um perfil sobre bastidores do futebol nacional, associando-o a um campo de guerra, em que interesses regionais pareciam mais importantes que quaisquer outras coisas. Importavam pouco competência e patriotismo; valia mais o interesse particular de dirigentes e jogadores, em primeiro lugar. Em segundo, os interesses das federações regionais. Depois, e em último caso, os da seleção brasileira. Isso porque a mentalidade da época era presa indefesa dos acontecimentos. Na berlinda, o Rio de Janeiro era a capital política e sustentáculo de uma classe dominante aristocrática e descendente dos monarcas; São Paulo era a capital econômica, e um modelo de sociedade para o país seguir.  A pressão paulista para tomar o espaço político do Rio se refletia em tudo, inclusive no futebol.

Fruto disso era uma rivalidade atroz e pouco sadia. De um lado, contaminava até mesmo a imprensa da época. De outro, vitimava a própria seleção brasileira, que era usada, antes, para propagar o futebol local de um estado ou de outro. O autor tem o mérito de abordar a questão e o demérito de ficar na superfície do assunto. Uma das partes fracas do livro.

Da briga resultou que somente Araken Patusca fosse o paulista a ir à Copa de 30, no Uruguai. Feitiço e Friedenreich não. O primeiro vai lá, embora tenha sido o artilheiro do campeonato paulista de 1929 e 30. Mas o segundo era o maior jogador brasileiro da época. Um assombro de craque. Por ter empunhado em armas pela Revolução Constitucionalista de 34, ficaria de fora também da segunda Copa do Mundo quatro anos depois, na Itália. Jamais iria a um Mundial de futebol.

Das 12 seleções do primeiro Mundial, o Brasil ficou em sexto. Importante ou não, o que chamou a atenção de um estrangeiro que passeava no país à época foi o resultado final da partida em que a seleção havia sido derrotada pela Iugoslávia. Diante do carnaval nas ruas de São Paulo ele perguntou: “os brasileiros venceram?”. E alguém na multidão o respondeu: “não, os cariocas perderam por 2×1”. E completou o visitante: “com espanto maior vi desfilar um funeral, onde os cantos fúnebres e morras aos cariocas ecoaram”.  Era o clima da época.

Em 34, a Copa serviu para propagar feitos de Mussolini, na Itália. Faltou lembrar que o campeão anterior faltou à festa. O que empobreceu o Mundial. O autor aponta que o clima político era nefasto. E para os problemas que dele resultavam as entidades futebolísticas da então, assim como as de hoje, não davam a mínima. O Brasil foi um fiasco; ficou em 15º em um total de 16 participantes. Nos bastidores, a briga da vez era entre amadorismo e futebol profissional. A CBD recusava-se a adotar o profissionalismo. Entre os clubes apenas o Botafogo resistia. Dessa forma, somente atletas desse clube, e alguns outros comprados pela CBD para continuarem amadores, foram convocados. A seleção fez feio na Copa e ficou à frente somente da insignificante Indonésia.

Parte fraca do livro está em explorar pouco a atmosfera política por trás de algumas Copas. A de 1938 é uma delas. Outra é a de 54, em que dos 22 convocados, 11 eram paulistas e 11 cariocas: o que dá o tom demagógico do momento. Esse problema ocorre também quanto ao Mundial de 50, no Brasil. Mas, em relação a este, a compensação está em apontar detalhes interessantes. Um deles é que o Brasil foi o candidato único à organização do Torneio. Assim como o próximo, que também será realizado por aqui. Em 54, o autor resgata bem a arrogância de um Zezé Moreira, que achava que a Hungria era o Paraguai da Europa, e a caçada sangrenta dos jogadores canarinhos aos húngaros, depois de serem humilhados dentro de campo.

O livro é pretensioso em querer abordar todos os mundiais de maneira panorâmica, quando a matéria pede uma abordagem mais profunda, sobretudo dos primeiros torneios.  Este fato é compensado por uma bela sacada: a de mostrar a dicotomia de improviso versos planejamento/organização. Relevante porque chama a atenção para o fato de que não somos tão bons assim. Ao menos é o que mostra o livro, e com propriedade. Em todas as vezes que imperou o improviso, e a percepção de que a vitória viria facilmente, o Brasil perdeu. Por outro lado, antes de se destacar o timaço de 58, vale atribuir significativo percentual da conquista à organização brasileira para o Mundial.  Pode-se afirmar que o improviso retornaria em 66. Daria lugar novamente ao planejamento em 70, e assim por diante. A exceção talvez seja 82, que, ao menos sob o comando de Telê Santana, contava com planejamento e seriedade.

A abordagem é imparcial, objetiva e expõe vários ridículos da CBD e CBF ao longo do tempo, como a indicação de Falcão para técnico em 1990, provavelmente para copiar o exemplo de sucesso da Alemanha com Beckenbauer. Mas, embora a linguagem em terceira pessoa seja uma marca, por vezes impera a primeira, a partir do que o autor se associa à seleção: “Classificados, encararíamos na segunda fase…”. Nem a tentativa de se aproximar do leitor justifica o fato. Contudo, esse é um erro que junto com outros, já destacados aqui, não anula as qualidades da obra. Para ficar ainda melhor, convém que uma nova edição inclua o último Mundial, já que editado em 2010 o livro não teve tempo de contemplar a Copa da África do Sul.  

FICHA TÉCNICA
O Brasil nas Copas
Autor: Silva, Marcos Sergio
Edição: 1ª – 2010
Páginas: 184