Repúdio à violência: polícia deve combater, e não contribuir, com a barbárie

No domingo, repórter do LANCE! foi ameaçado com bomba e arma. Foi impedido de trabalhar. A polícia não pode se comportar igual aos vândalos que combate

A gente sabe que muitas pessoas só vão aos estádios para brigar, dispostas a matar e a cometer uma enormidade de atos terríveis. Nós também sabemos que muitos policiais militares têm uma vida difícil. Eles têm a missão de conter a violência num país com índices de assassinato de nação em guerra. Por isso mesmo nos sentimos na obrigação de dizer à Polícia Militar de São Paulo: não se comportem igual às pessoas que vocês querem combater. Quando a polícia cruza a linha da barbárie, a sociedade inteira está em risco. Afinal, você nunca sabe de onde vem a violência: dos criminosos ou do Estado armado.

E, ontem, a polícia nos deu mais um motivo para ter muito medo da polícia.

No domingo, dia 30 de novembro, houve uma enorme confusão entre torcedores do Santos e do Botafogo, nos arredores da Vila Belmiro. O repórter Bruno Cassucci de Almeida, do jornal LANCE!, foi apurar o que estava acontecendo. Jogo jogado: jornalistas são pagos para dar notícias. Nós temos o dever de entender o que está acontecendo e publicar. Sem isso, não há jornalismo – restam apenas notas oficiais e informações devidamente filtradas pelas partes interessadas, para usar um juridiquês de porta de cadeia. Quando o pau estava comendo, começaram as violências da polícia contra o Bruno. Eis o relato do repórter em sua conta no Facebook:

“Não quero aparecer, muito menos levantar bandeira. Tenho minhas opiniões, sentimentos aflorados neste momento e a cabeça ainda confusa. Escrevo aqui não para fazer juízo de valor, nem generalizar uma classe que sei que é mal paga, mal equipada e que deveria servir a uma sociedade que em boa parte lhe detesta. Como jornalista, acredito que não há opinião sem informação, e é por isso que venho aqui relatar o que vivi na tarde desse domingo, na Vila Belmiro.

No pior dia da minha curtíssima carreira jornalística e um dos piores da minha vida, fui agredido, ameaçado e tive material jornalístico apagado por policiais militares. Pensei em escrever “censurado”, mas por mais que entenda que foi isso que aconteceu, sei que a censura no nosso país já foi muito pior no passado do que a que sofri hoje, de modo que não seria justo colocar tudo num mesmo balaio.

A ordem cronológica foi a seguinte:

Como setorista do Santos no LANCE!, fui escalado para fazer a cobertura da partida da equipe contra o Botafogo. Como os paulistas já não almejam nada neste ano e o clube carioca acabou rebaixado, fui designado a ir para o vestiário visitante após o jogo. Assim que cheguei lá, ouvi barulho de bombas na rua. Ciente da minha função e ignorando as corriqueiras orientações da dona Maria, minha mãe, fui até lá averiguar o que se passava. Não era possível ter certeza, mas tudo indicava que vândalos que se dizem torcedores das duas equipes estavam brigando.

Decidi não ir ao encontro da confusão, como já fiz em outras ocasiões, mas fiquei ali esperando. Passado um tempo, a polícia se concentrou e foi para o lado esquerdo, próximo à entrada principal da Vila e na rua onde fica a sede da organizada Sangue Jovem. Fui atrás, mas mantendo distância. Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado. Um morador da vizinhança me chamou para dentro de sua casa. Fiquei pouco tempo ali e logo voltei para a rua, a fim de tentar entender – e consequentemente relatar – o que estava acontecendo.

Uma policial, então, me mandou sair “vazado”. Argumentei que eu estava trabalhando e ela retrucou: “Eu também. Dá linha, curioso!”

Voltei para a frente da casa na qual havia entrado e esperei as coisas se acalmarem. Já não se ouvia mais bombas ou disparos e decidi voltar para a frente da Sangue Jovem. Foi então que começou tudo.

Estava tirando fotos com o celular quando um policial me viu e, com a arma apontada para mim, gritou para eu encostar na parede, com as mãos para o alto. Eu disse que era jornalista, mas isso parece não ter ajudado, pelo contrário.

No procedimento padrão – ao qual já havia sido submetido em abordagens policiais no passado – fui revistado com certa agressividade, mas até aí tudo bem. Depois de verificar que eu estava “limpo”, o policial, já cercado por outros, pediu para eu abrir minha mochila, que também foi revistada. O passo seguinte foi tomar meu celular. O oficial pediu para eu desbloquear o aparelho e acessar as imagens. Ele então começou a apagar uma por uma. O procedimento durou uns cinco minutos, que pareceram eternos.

Enquanto ele fazia isso, uma outra autoridade pediu para eu não olhar para trás. Errei. Instintivamente, segundos depois eu acabei olhando para o celular e então fui agredido no rosto.

Depois, a policial que havia me abordado antes, aquela do “dá linha, curioso”, me disse que eu já tinha sido avisado. Eu novamente argumentei que estava ali trabalhando, e ela afirmou: “Eu também estou e você não respeitou meu trabalho”. Até agora não sei qual foi meu desrespeito.

Um outro oficial que se aproximou disse que eu estava ali para “defender torcedor” e que a mídia só mostrava quando a polícia bate “nesses caras”. A minha intenção era exatamente outra, ouvir algum responsável pela operação para tentar entender o que estava acontecendo.

Foi então que ocorreu a cena mais aterrorizante de toda a abordagem. Um PM aparentando muito nervosismo, se colocou entre mim e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro. “Você não é macho? Quero ver ser macho agora”. Como fiz durante todo o episódio, expliquei que era jornalista, pedi desculpas, o chamei de “senhor”. Ele falou mais algumas coisas que não me lembro agora e saiu.

Aliás, tudo isso aconteceu há cerca de quatro horas e eu já não lembro de diversos detalhes, pelo choque e medo, obviamente. Fiz questão de olhar o nome de todos, um por um, mas já me esqueci de boa parte. Aquela mesma policial percebeu quando eu olhei para a identificação dela e ironizou: “Quer levar para casa? Tenho várias outras, pode levar”.

Após apagar todas as fotos, o policial que me enquadrou mandou eu desligar o aparelho e tirar o chip e a bateria. Expliquei que era impossível no iphone e, graças a uma outra oficial que estava perto, ele acreditou.

Por fim, entreguei meu documento ao PM, que saiu e voltou instantes depois. Antes de ser liberado, ele me deu um recado, que começou com algo como “sei que você vem sempre aqui e eu também venho”. Não lembro a continuação, mas tenho a impressão que se tratava de uma ameaça.

Ouvi uma ou outra ofensa dos demais oficiais ali presentes e fui liberado.

Já estou em casa, sem qualquer arranhão no corpo, mas com a adrenalina ainda a mil. Poder abraçar minha mãe, jantar o que ela preparou e saber que nada pior aconteceu é tranquilizante. Saber que todos os dias abusos desse tipo e outros muito piores acontecem com gente que não sabe ou não tem como se expressar é o que preocupa. Sei de todos os privilégios que tenho por ser branco, não viver na periferia e ter tido a oportunidade de estudar. Se passo por situações como essa, com certeza há quem viva coisa muito pior diariamente.

O texto é longo, mas espero que meus amigos que há uns dias defenderam a ditadura militar nesta mesma rede social possam ler. Dispenso seu like, faço questão da sua reflexão”.

Nós, da Trivela, acreditamos que o esporte não é um espaço de exceção. Nós acreditamos que as regras que se aplicam à vida se aplicam aos estádios. O dever da polícia é prevenir e conter a violência, não ampliá-la. Quando a polícia flerta com a barbárie, ela passa um sinal terrível para a sociedade: ninguém está a salvo e nós podemos fazer o que quiser, quando quiser. Quando a polícia faz seu trabalho com mestria, ela dá uma enorme contribuição à sociedade. Além de manter a cidade mais segura, ainda passa um recado fundamental: todas as pessoas serão tratadas igualmente, com seus direitos devidamente respeitados. Quem comete crimes é punido pela Justiça – e só pela Justiça. É um pilar básico da civilização.

Porque, afinal, não cabe à polícia fazer o papel de justiceiro. Se as organizadas passaram da linha, elas devem ser punidas por quem tem esse papel – assim como qualquer outra pessoa que comete crimes. Essa missão árdua não dá à polícia o direito de fazer o que quiser. Essa não é a missão que a sociedade deu a ela. É apenas um enorme, e perigoso, abuso de poder.

Por isso, nós, da Trivela, não pedimos privilégios a jornalistas. Nós sabemos que privilégios apenas criam áreas de exceção rodeadas por barbárie. Um jornalista é um cidadão como qualquer outra pessoa. Temos direitos e deveres. O nosso dever é informar a sociedade. O nosso direito é fazer o nosso trabalho sem intimidação nem violência. Essa é a razão pela qual nossa mensagem é tanto de solidariedade a Bruno quanto um enorme repúdio à violência indiscriminada que toma conta do país.

Bruno é uma vítima que tem voz. Quantas outras vítimas sofrem violências semelhantes todos os dias e não têm a mesma voz? É contra isso que nós, da Trivela, lutamos. Porque hoje é com um colega de profissão. Amanhã é com um leitor. Depois de amanhã, com um parente, com um amigo, com um conhecido. É preciso ser enfático: o que os policiais fizeram em Santos é absurdo em campo, fora de campo, em qualquer área da vida. Uma sociedade melhor é melhor para jornalistas trabalharem também.

Somos solidários aos policiais que se arriscam por nós. E justamente porque entendemos a posição dos policiais na sociedade é que podemos dizer: parem de contribuir com a barbárie. Não abram a caixa de horrores da sociedade. Uma polícia fora de controle, como parece ser o caso da PM de São Paulo, é um risco para toda a sociedade.

Por isso nós, da Trivela, vamos sempre combater a violência – não importa por quem ela tenha sido cometida.