Nos últimos tempos, a discussão sobre a representatividade feminina no poder tem sido recorrente em vários âmbitos. Um tema que nem sempre recebe a atenção devida, apesar de sua urgência. Nesta sexta, porém, a Fifa deu um passo importantíssimo para dar força às mulheres no comando do futebol. A escolha de Fatma Samba Diouf Samoura para o cargo de secretária-geral da entidade surpreendeu e possui um significado imenso, ainda mais em um ambiente tradicionalmente ocupado por homens. A segunda pessoa mais importante na organização será uma mulher negra africana, nomeada por sua competência, acima de todos os preconceitos que poderia enfrentar. Pode até ser apenas mais uma jogada da Fifa. Mas, pelo cargo que tem em mãos, a senegalesa de 54 anos poderá fazer diferente.

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Samoura substitui Markus Kattner, que assumiu o cargo após Jérôme Valcke ser destituído por envolvimento nos escândalos de corrupção. E, ao contrário do francês, que subiu ao posto principalmente por seu trabalho como diretor de marketing da própria Fifa, a senegalesa traz um currículo de peso e alheio aos velhos vícios estruturais da entidade. Nas próximas semanas, ela ainda precisará passar pela avaliação de um comitê independente para determinar a sua elegibilidade – o que não deve ser problema.

A nova secretária-geral trabalhou por 21 anos na Organização das Nações Unidas, ajudando a liderar o Programa Mundial de Alimentação em seis países africanos. Em sua última função, coordenava a ação humanitária na Nigéria, nação mais populosa do continente. Antes disso, Samoura atuou por oito anos no setor de comercial de uma multinacional senegalesa. Ela possui doutorado em relações internacionais e comércio exterior no Institut d’Etudes Supérieures Spécialisées, de Estrasburgo, na França.

“Fatma é uma mulher com experiência internacional e visão, que trabalhou em alguns dos assuntos mais desafiantes de nosso tempo. Ela tem provado sua habilidade em montar e liderar equipes, em melhorar a forma como as organizações atuam. No que é importante para a Fifa, ela também entende que transparência e responsabilidade são o coração para qualquer organização bem gerida”, declarou o novo presidente da Fifa, Gianni Infantino. “É essencial incorporar novas perspectivas, fora do tradicional grupo de executivos do futebol, enquanto continuamos a reconstruir nossa entidade. Ninguém exemplifica melhor o que precisamos do que Fatma, e nós estamos contentes que ela tenha se juntado ao nosso time”.

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A chegada de Samoura à Fifa carrega expectativas não apenas quanto à busca por renovação na Fifa, mas também para que a entidade se volte às questões humanitárias. Como secretária-geral, ela estará diretamente envolvida na organização dos grandes eventos. Assim, lidará com os diversos entraves e denúncias que circundam a realização da Copa do Mundo de 2022 no Catar, especialmente quanto ao trabalho escravo. Além disso, também aumenta as esperanças sobre atenções maiores ao futebol feminino e aos países pobres. Outra mulher que ganhou cargo na Fifa nesta sexta foi a ex-jogadora Mia Hamm, no Comitê de Desenvolvimento. Nesta quinta, a Conmebol elegeu a equatoriana María Sol Muñoz como uma de suas representantes junto à Fifa.

“Eu acredito que este cargo se encaixa perfeitamente às minhas habilidades e experiências, as quais eu usarei para tentar ajudar o futebol a crescer em todo o mundo. Eu também espero trazer minha experiência em governança e observância para lidar com o importante trabalho de reforma que a Fifa atravessa. A Fifa está renovando os seus métodos de trabalho e estou ansiosa para exercer um papel para tornar isto o mais efetivo e duradouro possível”, afirmou a senegalesa.

Por mais que não tenha experiência direta no futebol, Samoura possui credenciais respeitáveis para a função de secretária-geral, onde atuará de maneira mais administrativa e diplomática – algo que Jérôme Valcke, por exemplo, deixou a desejar em diversos momentos. Pelo simbolismo, a nomeação da dirigente tem valor massivo. Agora é esperar que ela também faça um bom trabalho, diante das tantas carências da Fifa em sua gestão.