A Copa do Mundo, quase sempre, transforma a imagem de um jogador. E a importância do torneio não se desdobra apenas na experiência que confere ao presente. Também pode significar bastante ao futuro, quando se olhar para o passado. Muitos futebolistas sem grande relevância acabam relembrados graças à convocação ao Mundial. Uma chancela, embora o momento nem sempre referende toda uma carreira. Até porque os casos contrários também são inúmeros: aqueles que, por tudo o que construíram, mereciam uma Copa no currículo ao menos pela memória e não a tiveram. Renato é um desses.

Por mais de uma década, o paulista de Santa Mercedes se manteve entre os melhores meio-campistas brasileiros. Não se tornou um intocável na Seleção, mas disputou torneios internacionais e inclusive conquistou títulos notáveis. A camisa amarela, de qualquer forma, não pode limitar a visão sobre uma trajetória brilhante. O respeito a quem se manteve por tantos anos como uma referência na posição e se despede do futebol adorado em todos os clubes nos quais jogou – Guarani, Sevilla, Botafogo e sobretudo o Santos. Igualmente um gigante, independente do Mundial. E com inúmeras virtudes que exaltam a passagem pelos gramados, encerrada no último final de semana. Por aquilo que representou dentro e fora de campo, é um cavalheiro do futebol.

Jogar em grande nível por cerca de duas décadas, afinal, já indicam uma carreira excepcional. Renato surgiu como Renatinho, uma das pérolas nas prolíficas categorias de base do Guarani. Costumava ser convocado à seleções de base, participando inclusive do vice-campeonato no Mundial Sub-17 de 1995. E quando começou a fazer suas primeiras partidas como profissional, justificou a reputação. A estreia aconteceu em 1996, às vésperas de completar 17 anos, sob o comando do mítico Carlinhos “Violino”. O adolescente logo se firmou como um talento evidente no meio-campo, especialmente por sua capacidade ao pensar o jogo e preencher os espaços. Os bugrinos fizeram boas campanhas naquele momento, em especial no Brasileiro de 1999, quando alcançaram as quartas de final da competição. Aos 20 anos, o futuro parecia mesmo brilhante ao jovem.

Renato ainda fez um bom Paulistão em 2000, até ser levado pelo Santos em julho do mesmo ano. Uma aposta ao futuro que logo se valeu no presente, ganhando a posição e se tornando uma peça importante ao Peixe. Sucesso comprovado em 2002, um ano de sonho aos santistas, em que o clube reafirmou sua grandeza nacional ao conquistar o Brasileirão. Renato era mais um naquela fornada histórica de garotos. Um “menino da Vila”, mesmo que seus passos anteriores apontassem a outra origem. O amadurecimento do meio-campista logo se tornou notável, com muita consistência em suas aparições com a camisa alvinegra. Um jogador que combinava dinamismo e qualidade técnica, primordial aos feitos construídos naquele momento.

Vestindo a camisa 8, Renato teve ótima participação na Série A de 2002. Disputou 31 partidas, combinando a sua segurança na saída de bola e a intensidade na marcação. Tudo isso sem receber um cartão amarelo sequer, algo realmente louvável a alguém de sua posição. Não ganhou a Bola de Prata como um dos melhores volantes por míseros dois centésimos na nota, mas colecionou exibições acima da média, como nos primeiros jogos contra Grêmio e Corinthians nos mata-matas. Contra os corintianos, inclusive, anotou o segundo gol na partida de ida, quando voou baixo. E seguiu como protagonista em 2003, seja na caminhada até a final da Libertadores, seja mais uma vez gastando a bola no Brasileirão. Receberia a Bola de Prata naquela campanha, em ano especialmente prolífico por seus gols anotados.

A ascensão não demoraria a levar Renato à seleção brasileira. A estreia aconteceu sob as ordens de Carlos Alberto Parreira, em setembro de 2003, durante o duelo com a Colômbia pelas Eliminatórias. Seguiu como uma opção frequente na equipe, mesmo entre os medalhões que haviam conquistado a Copa do Mundo no ano anterior. Além do mais, a maturidade precoce de Renato também o colocava como um líder. Vestiu a braçadeira no Santos e passou a participar ativamente dos jogos em que Parreira usava seu “time alternativo”, sem os medalhões no ciclo preparatório ao Mundial de 2006. Não à toa, disputou todos os minutos da marcante campanha na Copa América de 2004, inclusive ao converter um dos pênaltis nas semifinais contra o Uruguai.

A qualidade de Renato abriria portas no exterior. O meio-campista fez parte do início da campanha do Santos no Brasileiro de 2004, mas logo arrumou as malas para o Sevilla, que apostava no rapaz de 25 anos. Acabaria também ajudando os andaluzes a se engrandecerem, em uma época de metamorfoses no Ramón Sánchez-Pizjuán. Renato se tornou praticamente intocável na equipe rojiblanca, graças à sua inteligência e à maneira como parecia se multiplicar no meio. Muitas vezes, até passou a atuar mais adiantado, se aproximando dos atacantes como elemento surpresa. Foi bicampeão da Copa da Uefa, mas perdeu espaço justamente em um momento crucial da carreira. Presente no elenco campeão da Copa das Confederações em 2005, o camisa 8 se lesionou em novembro daquele ano. Parou no banco do próprio clube e deixou de figurar nas convocações. Ante a concorrência pesadíssima (de Zé Roberto, Emerson, Gilberto Silva, Mineiro e Juninho Pernambucano), acabou não disputando a Copa do Mundo de 2006.

Renato não vestiria mais a camisa Canarinho. Acabou preterido por Dunga ao longo de todo o ciclo. Não que vivesse mau momento na Europa, muito pelo contrário. O meio-campista seguiu como um dos donos do time no Sevilla. No cenário doméstico, participou de campanhas inesquecíveis por La Liga e conquistou duas vezes a Copa do Rei. Já nas copas europeias, se tornou uma figura frequente na Liga dos Campeões, após aqueles títulos na Copa da Uefa. Era uma certeza aos torcedores rojiblancos, por sua regularidade e por sua lealdade. Alcançou aos 274 jogos com a camisa do clube, além de 39 gols anotados. Todavia, depois de sete temporadas no Ramón Sánchez-Pizjuán, o camisa 8 decidiu retornar ao Brasil. Em um momento de transição aos andaluzes, no qual a geração bicampeã continental havia saído quase por completo, o brasileiro não escondeu a emoção no adeus.

O Botafogo foi o destino escolhido por Renato. Em uma fase ambiciosa do clube, o meio-campista teve uma recepção grandiosa. E a camisa 8 chegou sob as bênçãos de ninguém menos que Gérson. Renato honrou a oportunidade. Que os 32 anos pudessem pesar, o veterano seguiu sobrando com a camisa alvinegra. Tornou-se o motor da equipe em outras campanhas significativas, faturando o Campeonato Carioca e impulsionando boas colocações no Brasileirão. Era impossível pensar nos momentos vívidos dos botafoguenses sem a onipresença do medalhão na faixa central. Uma liderança clara, ao mesmo tempo em que entregava demais tecnicamente ao time. Depois da campanha modesta na Libertadores de 2014, porém, o volante resolveu arrumar suas malas. Tinha um reencontro com sua própria história, ao assinar com o Santos, o clube do coração. Chegou a abrir mão de R$300 mil mensais, em salário relativo à sua produtividade, apenas para retornar à Vila Belmiro. Dedicação que se traduziu em campo.

Se os 35 anos contraindicavam a contratação de Renato, ele logo refutou os críticos. O veterano permaneceu atuando em alto nível em suas primeiras temporadas de volta ao Santos. Participou da conquista de mais dois títulos no Campeonato Paulista. E fez um Campeonato Brasileiro inacreditável em 2016. Não se ausentou em um jogo sequer no vice santista, liderou a competição em passes certos, acumulou atuações impressionantes. Tudo isso aos 38 anos. Depois, ainda reservou um pouco dessa energia para a Libertadores de 2017, na qual permaneceu como um dos melhores do time. Contudo, logo a idade cobraria seu preço e o desempenho caiu nos últimos meses. O contrato sequer se encerrou em dezembro deste ano, quando o Peixe anunciou seu novo diretor: Renato, aquele mesmo garoto que deslanchou entre os meninos da Vila na virada do século.

Superando os 400 jogos pelo Santos, o multifuncional Renato ainda disputou mais seis partidas no duplo emprego.  A última delas no sábado, dentro da Vila Belmiro, com uma enorme homenagem preparada pelo Santos. Os alvinegros ofereceram os tributos antes da partida contra o Atlético Mineiro, quando o ídolo entrou em campo de paletó, enquanto os companheiros usavam camisas que simulavam um smoking. Já no intervalo, o telão exibiu um vídeo com depoimentos de antigos companheiros. E o volante de 39 anos entrou já nos minutos finais, com a vitória por 3 a 2 encaminhada. Pôde cobrir os seus últimos metros de grama, dar os seus últimos passes precisos, combater os adversários com enorme lealdade. Dedicar seu suor à camisa, o que fez ao longo de 22 anos, em qualquer equipe que defendeu, mas sobretudo no Peixe. Um exemplo.

A grandeza de Renato consiste exatamente nesta postura que se manteve por tanto tempo. Disposição nunca faltou ao meio-campista, em qualquer estágio da carreira. Nem maturidade, nem liderança. Além do mais, foi um jogador que exaltou o futebol pelo futebol, especialmente por sua disciplina, de quem não recebeu um cartão vermelho sequer ao longo da carreira. O camisa 8 se manteve como um atleta no sentido mais fiel ao conceito, se preservando fisicamente ao máximo, além de não se envolver em grandes polêmicas extracampo. E como se o profissionalismo não bastasse, ainda sobrou por sua técnica refinada, por sua incontestável regularidade, por sua precisão nas ações. Daqueles futebolistas que dignificam o esporte e deixam honrados todos os torcedores que puderam vê-lo com a camisa de seus clubes. Honra é a palavra que fica, por todos estes anos.

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Ao longo da semana, a Trivela publica uma série de textos especiais sobre veteranos do futebol brasileiro que se despediram de suas torcidas. Depois de Marquinhos e Jefferson, também escreveremos sobre Danilo e Emerson Sheik até a próxima sexta.