Do jeito que vinha o Campeonato Holandês, com o PSV tendo regularidade notável (mesmo sem impressionar) e o Ajax sofrendo à procura de um time ideal, era natural supor que o time de Eindhoven imporia ao rival de Amsterdã sua terceira derrota em casa nesta temporada da Eredivisie, no clássico da rodada passada, para partir rumo ao título – afinal, seriam 13 pontos de vantagem para os Amsterdammers. A própria coluna da semana passada falava (e tinha) tal expectativa, aliás. Pois é: os fatos a desmentiram. E do domingo até agora, o Ajax viu aumentar a esperança de reação na disputa do título.

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Os inapeláveis 3 a 0 na rodada retrasada já haviam aberto um pouco o caminho: afinal, o triunfo do AZ (goleada por 4 a 0 sobre o Heracles Almelo) deixou o time de Alkmaar na segunda posição, com 34 pontos, cinco atrás do PSV. Porém, a 16ª rodada concluída nesta quinta deixou claro que a conquista da Eredivisieschaal pode ter mais equilíbrio do que se pensava. No duelo entre o médio e o pequeno que estão se destacando com campanhas ótimas, Zwolle e AZ ficaram no empate em 1 a 1 – que já garantia o PSV como o melhor do primeiro turno. O time de Eindhoven foi a Groningen enfrentar a equipe homônima, e teve a vitória na mão. Fez 2 a 0 com 17 minutos – e depois, fez 3 a 1. Tinha 3 a 2 no segundo tempo, e jogava para manter o resultado. Tomou um castigo inesperado: no último minuto dos acréscimos, o Groningen chegou ao 3 a 3.

Restava ao Ajax aproveitar os tropeços dos adversários para voltar, definitivamente, à disputa pela ponta. E o time da estação Bijlmer Arena teve certas dificuldades contra o Excelsior, mas afinal conseguiu a vitória necessária. Resultado: o Ajax chegou à vice-liderança, com 35 pontos – a mesma pontuação do AZ, mas com saldo de gols bem maior (34 a 14). Cortou a diferença para o ainda líder PSV pela metade – o que poderia estar em 13 pontos quase inalcançáveis agora está em acessíveis cinco. E de quebra, ainda tem a chance de abater o AZ na disputa, caso vença o jogo direto entre ambos, fora de casa, no próximo domingo, pela 17ª rodada (a última do turno).

E é natural repetir: talvez o Ajax não estivesse tão reanimado, se não fossem dois motivos – um decorrente do outro. Mesmo com a lotação da Amsterdam Arena diminuída à força pela neve que caiu na Holanda durante o fim de semana passado (causando até o adiamento de duas partidas da 15ª rodada), os poucos torcedores que lá estiveram ganharam, enfim, razões para se empolgar. Se já não empolgava, o PSV mostrou um estilo tático excessivamente cauteloso. A opção de Phillip Cocu por três zagueiros – Derrick Luckassen tirou o lugar de um atacante, Steven Bergwijn – não deu certo; e para piorar, Jürgen Locadia distendeu o músculo posterior da coxa (ficará fora até o mês que vem), tirando a força já diminuta do ataque dos visitantes. Prato cheio para um Ajax ofensivo enfim chegar aos 3 a 0.

Mas por quê, afinal, o Ajax teve uma atuação ofensiva e categórica como pouco se vira na temporada? Aí vem o segundo motivo: se nada de errado ocorrer, enfim, Marcel Keizer achou um estilo no qual os jogadores “se encaixaram”. Para tudo isso, bastou uma única mudança. Após entrar e sair do time titular, enfim Frenkie de Jong teve um lugar para se destacar: foi escalado como um “falso zagueiro”, transmutando o 4-3-3 básico no Ajax num ofensivo 3-4-3, ao dar qualidade na saída de bola. Assim De Jong, meros 20 anos, foi considerado o nome do clássico – e assim possibilita que Hakim Ziyech se adiante, brilhe e se torne um dos melhores jogadores desta Eredivisie fazendo o que melhor sabe: criando jogadas, com sua capacidade inegável para os passes em profundidade e cruzamentos.

Mas se Ziyech é quem dá o “algo a mais” ao time do Ajax, também é justo citar David Neres. Se Justin Kluivert e Amin Younes disputam o lugar na esquerda, e se Kasper Dolberg ainda parece titubeante como finalizador, ganhando algumas chances na alternância com Klaas-Jan Huntelaar, o brasileiro impõe cada vez mais respeito. Pela direita, é sempre opção para jogadas – até por isso, já tem oito passes para gol no atual campeonato, além das sete vezes em que já colocou a esférica no barbante adversário. Certo, o paulistano ainda tem coisas a melhorar, como o próprio Marcel Keizer alertou à tevê oficial do Ajax: “Ele faz muitas coisas com a perna esquerda, mas ainda precisa melhorar com a direita. Ainda há pontos em que ele pode melhorar. Mas está tendo um rendimento muito alto, crescendo na temporada. E é jovem, ainda, então seus pontos fracos vão melhorar”.

Assim como David Neres também tem coisas a acertar, o sofrimento que o Ajax teve contra o Excelsior (chegou a ser surpreendido com o empate, antes do 3 a 1 final) indica que o 3-4-3 também tem arestas a aparar, ainda. Principalmente na defesa: pela histórica tendência ofensiva do Ajax – e ai do jogador ou do treinador que ousar acabar com ela -, é natural que a zaga se veja sempre em apuros nos contra-ataques adversários. Matthijs de Ligt até se vira bem contra eles (nem parece ter 18 anos, tanta é a calma nos desarmes e na saída de bola), mas o capitão Joël Veltman segue com fragilidades preocupantes. E o austríaco Maximilian Wöber, que seguia no estilo técnico e firme de De Ligt, lesionou o joelho e deve ficar fora por alguns jogos, forçando a volta de Mitchell Dijks, “patinho feio” no grupo do Ajax (ora atua em algumas partidas, ora fica fora até do banco – cogitou-se até sua venda na janela de transferências vindoura). No gol, André Onana até compensa, mas às vezes se mostra irregular em campo.

Mais algumas escaramuças que Marcel Keizer terá de resolver, para manter o crescimento do Ajax. Que, graças a seus próprios méritos e à sorte, viu suas esperanças de título renascerem no Campeonato Holandês. Como quase sempre acontece – e pouco se esperava, atualmente.


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