Há algumas semanas, relembramos alguns interessantes torneios amistosos entre seleções jogados ao redor do mundo até os anos 1990. Diferentemente da maioria daquelas competições – em geral curtas, com três ou quatro times – a Taça Independência, organizada pela CBD em 1972, era mastodôntica: reuniu 20 seleções em 12 cidades brasileiras, durando mais que uma Copa do Mundo. Repleta de nuances políticas, dentro e fora de campo, a Minicopa (como ficou conhecida) tem aqui sua história contada em detalhes.

As origens

Desde o início de 1971, já se falava na Confederação Brasileira de Desportos (e na imprensa) sobre a ideia de organizar um grande torneio de futebol de seleções para comemorar os 150 anos (ou o chamado Sesquicentenário) da independência do Brasil. Vivia-se a euforia pelo tricampeonato mundial recém-conquistado no México. Era ainda um período em que vários estádios – públicos e privados – de grande porte vinham sendo erguidos no país, na esteira do “Brasil Grande” e das obras faraônicas levadas a cabo pelo regime militar.

E havia, sobretudo, a vontade do presidente da CBD, João Havelange, de mostrar capacidade de organização para concorrer com chances à presidência da Fifa na eleição marcada para 1974. Para isso, precisaria primeiro trabalhar em conjunto com seu futuro concorrente, o inglês Stanley Rous, então mandatário da entidade. Após confirmar a chancela da federação internacional ao torneio, Sir Rous veio ao Brasil em agosto de 1971 acompanhado de alguns dirigentes para verificar a estrutura oferecida nas cidades apontadas como sedes.

No dia 6 daquele mês, um sábado, Stanley Rous anunciou na sede da CBD, no centro do Rio, o regulamento da competição e o resultado do sorteio dos grupos. Haveria uma fase preliminar, com três chaves de cinco seleções cada, nos quais os campeões avançariam à etapa seguinte. Nesta, os três classificados se juntariam aos cinco campeões mundiais (Brasil, Alemanha Ocidental, Inglaterra, Itália e Uruguai), sendo novamente divididos em dois quadrangulares, que apontariam os finalistas, bem como os times que decidiriam o terceiro lugar.

João Havelange e Sir Stanley Rous

Naquele sorteio, a divisão dos grupos preliminares ficou assim: no 1, jogado em Salvador, Aracaju e Maceió, estariam Argentina, França, México, Colômbia e o representante asiático, ainda a ser definido. No 2, sediado no Recife e em Natal, jogariam União Soviética, Portugal, Chile, Equador e o representante africano, também pendente. Já no 3, disputado em Manaus e Campo Grande, participariam Iugoslávia, Peru, Paraguai, Bolívia e Venezuela. Também ficaram acertadas as sedes da segunda etapa: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Ainda naquele mês, foi anunciado que a CBD teria uma despesa total de US$ 4 milhões (o equivalente a Cr$ 21 milhões) na organização do torneio, incluindo passagens internacionais, hospedagem completa, viagens dentro do território nacional e a cota de participação de cada seleção. Deste montante, a entidade esperava recuperar pelo menos US$ 3,5 milhões em receitas. Ao campeão, estava reservado um prêmio total de US$ 150 mil líquidos, distribuído entre as partidas da segunda fase e a final – que valeria sozinha US$ 50 mil.

Entre o anúncio e a bola rolando

Mesmo assim, as desistências entre os participantes não demorariam a surgir. Já no fim de 1971 comentava-se que dificilmente os clubes ingleses e italianos liberariam seus jogadores para virem ao Brasil. Em fevereiro do ano seguinte, a Alemanha Ocidental interpôs uma série de exigências que irritaram os cartolas brasileiros, e as conversas foram encerradas. O México também acabou desistindo depois que o presidente do América local, Guillermo Cañedo, recusou-se a ceder quatro jogadores de seu clube para a seleção. Era preciso tapar os buracos.

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No caso da Inglaterra, depois de confirmada a desistência, várias alternativas foram tentadas. Falou-se numa seleção britânica, que mesclaria nomes como Gordon Banks, Bobby Moore, Denis Law e George Best, mas a ideia não vingou. Depois, a Espanha passou a ser sondada, mas recusou por pressões de alguns clubes, como o Real Madrid, e pela falta de interesse do técnico Ladislao Kubala. Por fim, apareceu a Escócia, que não colocou empecilhos e ganhou inclusive a vaga direta na segunda fase, a qual os ingleses teriam direito.

Confirmadas as desistências de Alemanha Ocidental e Itália, foram convidadas a Tchecoslováquia (que aceitou oficialmente no começo de março) e a Irlanda (após outras desistências, como de Áustria e Grécia). O ‘sim’ dos irlandeses alterou a formação das chaves, já que esta seleção acabou incluída no Grupo 2 da fase preliminar, remanejando a União Soviética para a segunda fase. Na Ásia, o Irã se habilitou como representante. Já quanto à África e quanto ao substituto do México, a pendência foi resolvida com a organização de combinados regionais.

A capa do boletim elaborado pela CBD, tratando sobre a competição

O torneio também teria ampla cobertura televisiva para o Brasil e o mundo, por meio de um ‘pool’ de emissoras formado por Globo, Tupi e a Rede de Emissoras Independentes (REI), de São Paulo. A Globo exibiu dez partidas, a Tupi mostrou nove e a REI produziu os tapes para o exterior. A novidade era a transmissão em cores, inaugurada há menos de quatro meses no país. Os jogos eram exibidos ao vivo para todo o Brasil, menos para as cidades onde eram disputados, que ficavam com a exibição do videotape, mais tarde.

Em abril de 1972, foram acertados os patrocinadores das transmissões: a União de Bancos Bradesco, a Esso, a Souza Cruz e a Gillette. E com a inclusão de Curitiba, o torneio passou a contar com 12 cidades-sede. Além de dispor de alguns estádios erguidos há poucos anos, como o Beira-Rio (Porto Alegre), o Rei Pelé (Maceió), o Batistão (Aracaju), o Vivaldão (Manaus) e o Morenão (Campo Grande), outros dois foram construídos com vistas ao torneio: o Castelão (mais tarde Machadão) de Natal e o Arruda, no Recife.

Outros também foram reformados: o Maracanã ganhou nova iluminação e o Couto Pereira foi ampliado, além da Fonte Nova, que já tinha sido reinaugurada com capacidade aumentada no ano anterior. Chegou a ser cogitada a possibilidade de Brasília ser incluída, mas o estádio Pelezão não teve suas obras concluídas a tempo. A tabela também apresentou uma alteração de última hora: o Irã e a seleção da África foram trocados de grupos na fase preliminar.

A preparação da seleção brasileira

Pelé havia se despedido da Seleção em julho do ano anterior, em amistosos contra a Áustria no Morumbi e a Iugoslávia no Maracanã. Embora muito se tentasse para demovê-lo da decisão, até mesmo alegando-se que a Minicopa seria um palco mais apropriado para o fim de seu ciclo, ele acabou mantendo a palavra e já seria um desfalque certo. E como já havia se passado dois anos do título mundial no México, era a hora do técnico Zagallo começar a pensar em renovação no time, de olho na Copa seguinte, a ser disputada na Alemanha Ocidental.

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Alguns novos nomes já haviam sido trazidos nos amistosos de 1971 e na Copa Roca daquele ano. Mas o time do México ainda seguia formando a base. Em 1972, porém, alguns já haviam caído de rendimento ou mesmo não se incluíam mais no estilo de jogo imaginado pela comissão técnica. Era o caso do lateral-esquerdo Everaldo, do Grêmio, tido como um jogador mais tímido no apoio ao ataque, e por isso preterido ao mais audacioso Marco Antônio, do Fluminense, agora livre do argumento da inexperiência que o levou a ser sacado do time no Mundial.

O problema é que abrir mão de Everaldo provocou reação violenta entre a crônica e a torcida do Rio Grande do Sul: num amistoso contra o combinado gaúcho, os torcedores vaiaram o hino nacional, a Seleção e queimaram bandeiras. O lateral, porém, teve reação oposta ao saber do corte: “Agora, de jogador, passo a torcedor da Seleção”. Além dele, outros dois titulares de 1970 se apresentaram fora de forma: o capitão Carlos Alberto Torres (Santos), voltando de lesão, e Piazza (Cruzeiro), que passou à reserva da cabeça de área.

A seleção brasileira que disputou a Minicopa em 1972, com: Zé Maria, Leão, Brito, Vantuir, Clodoaldo e Marco Antônio; Jairzinho, Gérson, Rivellino, Tostão e Caju

Alguns nomes que se destacaram após a Copa também ganharam chance, como os zagueiros Marinho Peres (Portuguesa) e Vantuir (Atlético-MG) e o atacante Leivinha (Palmeiras). Outros ganhavam nova chance, como o armador Dirceu Lopes (Cruzeiro) e o ponta-direita Rogério (Flamengo), que após ter sido cortado da Copa, permaneceu no México como “espião”. Já o nome mais surpreendente foi o lateral-esquerdo Rodrigues Neto (Flamengo), jogador versátil (podia atuar nas duas laterais, no meio ou na ponta), duro na marcação e dinâmico no apoio.

A lista inicial contava ainda com dois nomes jovens e tidos como promissores, que também causaram surpresa: o zagueiro Osmar (Botafogo) e o ponta-de-lança Washington (Guarani), de 19 e 20 anos, respectivamente. No entanto, a dupla ficaria por pouco tempo no grupo: ambos foram dispensados no início de junho para se juntarem à equipe olímpica que disputaria os Jogos de Munique. Para a vaga de Osmar foi chamado Luís Carlos, do Corinthians, enquanto o ponta-esquerda Lula, do Fluminense, substituiu Washington.

Naquele mesmo dia, Carlos Alberto Torres também foi cortado em definitivo, em virtude de seus problemas de joelho. O palmeirense Eurico, que já havia sido chamado no ano anterior, voltou a ser convocado para a reserva. Semanas antes, houve ainda o corte do goleiro Félix (Fluminense), por uma fissura num dos dedos das mãos sofrida durante uma partida do clube no Campeonato Carioca. Para seu lugar, depois de especulados os nomes de Renato (Flamengo) e Wendell (Botafogo), foi chamado o são-paulino Sérgio, com Leão (Palmeiras) alçado à titularidade.

Os demais eram todos tricampeões: o lateral-direito Zé Maria (Corinthians), o zagueiro Brito (Botafogo), os meias Clodoaldo (Santos), Gerson (Fluminense), Rivelino (Corinthians) e Paulo Cézar Caju (Flamengo) e os atacantes Jairzinho (Botafogo), Dario (Atlético-MG) e Tostão (que havia acabado de trocar o Cruzeiro pelo Vasco). A comissão técnica também era a mesma de 1970, com Cláudio Coutinho de supervisor e Antônio do Passo chefiando a delegação.

A fase preliminar

No Grupo 1 da fase preliminar, a Argentina de Juan José Pizzuti era a favorita destacada, mesmo depois de ter ficado de fora do Mundial mexicano. Mas a renovada França de Georges Boulogne se mostraria um adversário à altura. A Albiceleste contou com o poderio goleador de Rodolfo “El Lobo” Fischer, Oscar “Pinino” Más e Carlos Bianchi para vencer a seleção africana por 2 a 0 em Aracaju, golear a da Concacaf por 7 a 0 em Maceió e bater a Colômbia por 4 a 1 na Fonte Nova.

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Já os Bleus, da dupla de zaga apelidada “Garde Noire” (ou “Guarda Negra”) formada por Marius Trésor e Jean-Pierre Adams, também venceu seus três primeiros jogos: 5 a 0 na Concacaf (com três gols do atacante Hervé Revelli), 2 a 0 nos africanos e 3 a 2 na Colômbia. A decisão da vaga ficou para o confronto direto na Fonte Nova no dia 25 de junho. Um empate sem gols bastou para dar a vaga aos argentinos no saldo, apesar do bom jogo dos franceses.

A seleção francesa que disputou a Minicopa

Entre os azarões, o destaque do grupo ficou com a seleção africana, que reunia grandes nomes do continente, como o goleiro tunisiano Sadek Attouga, o meia camaronês Jean-Pierre Tokoto e o atacante congolês François M’Pelé (que se lesionou e teve de ser cortado). O combinado bateu a Colômbia, do técnico iugoslavo Todor Veselinovic, por 3 a 0 e ficou em terceiro. Já a equipe da Concacaf, quase toda formada por hondurenhos e haitianos, ficou na lanterninha.

Seleção considerada (abaixo do Brasil) uma das candidatas ao título, e tendo em Eusébio um dos astros do torneio, Portugal passou sem sustos pelo Grupo 2, derrotando o Equador por 3 a 0 em Natal e em seguida – sempre no Recife – o Irã por 3 a 0, o Chile por 4 a 1 e a Irlanda por 2 a 1. Os chilenos, com Carlos Caszely e o técnico alemão Rudi Gutendorf, bateram os irlandeses por 2 a 1 e ficaram na segunda colocação. O Irã, campeão asiático, e o Equador, do veterano atacante Alberto Spencer, dividiram a lanterna somando apenas o ponto do empate entre si.

Os iranianos camuflados com o uniforme coral no Arruda

O fato curioso aconteceu no jogo entre Irlanda e Irã, no Arruda, quando os dois times entraram em campo vestindo camisas verdes. Feita a confusão, houve necessidade de um sorteio, que forçou os iranianos a trocarem de uniforme e recorrerem ao do Santa Cruz. Foi o suficiente para ganharem o apoio da torcida local, mas não lhes valeu a vitória em campo: abriram o placar no primeiro tempo com Ali Parvin e sofreram a virada na etapa final com gols de Mick Leech e Don Givens, embora reclamassem de impedimento em ambos os lances.

Única seleção não sul-americana do Grupo 3, a Iugoslávia era a favorita da chave e estreou a todo vapor, esmagando a Venezuela por sonoros 10 a 0 no Couto Pereira, com cinco gols de Dusan Bajevic, naquela que se tornaria a maior goleada da seleção balcânica em sua história. Nos outros três jogos, porém, sofreu um bocado: ficou no empate em 1 a 1 com a Bolívia do experiente atacante Ramiro Blacutt e venceu apertado o Paraguai do atacante Carlos Diarte e o Peru, tido como a segunda força do grupo, ambos por 2 a 1.

A seleção soviética

Foram os paraguaios, no entanto, que terminaram com a segunda colocação, após derrotarem a seleção peruana em seu segundo jogo por 1 a 0. Os peruanos mantinham a base que fez grande campanha na Copa de 1970 (com Teófilo Cubillas, Héctor Chumpitaz, Ramón Mifflin, Hugo Sotil, Alberto Gallardo, entre outros) e mostravam novatos como Juan José Muñante e César Cueto. Mas sucumbiram à desorganização, depois de terem trocado de técnico – o húngaro Lajos Baroti deu lugar ao uruguaio Roberto Scarone – às vésperas da competição.

Outro fato digno de nota foi a verdadeira batalha campal transcorrida no jogo entre Paraguai e Venezuela, vencido pelos guaranis por 4 a 1 em Campo Grande, na rodada de abertura, em 11 de junho. Aos 25 minutos do segundo tempo, com o placar já definido, todos os 22 jogadores mais os reservas de ambas as equipes – que invadiram o gramado – engalfinharam-se sob o olhar complacente do árbitro ganês George Lamptey. Apesar do papelão, que só terminou com a entrada da polícia em campo, ninguém foi expulso.

A fase final

Vencedora do Grupo 3 da fase preliminar, a Iugoslávia avançou para o Grupo A da fase final, o qual teve como pré-classificados o Brasil, país-sede, a Tchecoslováquia e a Escócia. Por ironia, a seleção brasileira teria, assim como no México, os tchecos como adversários de estreia e em seguida enfrentaria as duas seleções europeias contra quem duelaria em sua chave na Copa do Mundo da Alemanha Ocidental, dali a dois anos. Os resultados, no entanto, foram bastante diferentes em relação ao Mundial anterior quanto ao seguinte.

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Se em Guadalajara, o Brasil sairia atrás, mas golearia a Tchecoslováquia por 4 a 1, no Maracanã não conseguiria furar a defesa adversária, parando num frustrante 0 a 0 na primeira rodada, em 28 de julho. Com Tostão vestindo a camisa 10 e Rivelino com a 9, além de Paulo Cézar fazendo a função de falso ponta, a Seleção chutou pouco a gol e foi presa até certo ponto fácil para a defesa europeia, que mantinha alguns remanescentes de 1970, como o goleiro Ivo Viktor.

Ingresso de Brasil x Tchecoslováquia, disputado no Maracanã

No Mineirão, no dia seguinte, iugoslavos e escoceses empataram (como tornariam a fazer na Alemanha), mas com mais gols: 2 a 2, num jogo em que os britânicos estiveram duas vezes à frente no marcador (com Lou Macari e George Graham), mas acabaram cedendo a igualdade depois de perderem um pênalti (com Graham) e sofrerem o segundo gol, de Miroslav Boskovic, a três minutos do fim, depois de Dusan Bajevic ter empatado da primeira vez.

Na segunda rodada, em 2 de junho, a Seleção pareceu deslanchar ao bater a Iugoslávia por 3 a 0 no Morumbi. Paulo Cézar se lesionou logo aos dez minutos e deu lugar a Leivinha, que ofereceu mais movimentação ao ataque brasileiro. Rapidamente, os gols saíram: aos 19 minutos, Marco Antônio levantou cobrança de falta na área e Leivinha cabeceou para abrir o placar. Três minutos depois, em outro levantamento de falta, Tostão desviou e novamente o atacante palmeirense apareceu para mandar para as redes. No fim da etapa, Gerson ainda acertou o travessão.

No segundo tempo, os iugoslavos voltaram pressionando e também acertaram trave e travessão num mesmo lance. Mas, depois de Miroslav Pavlovic salvar em cima da linha uma bola de Marco Antônio que chegaria a Clodoaldo, o Brasil voltou a marcar: Jairzinho aproveitou um erro de domínio na defesa iugoslava, invadiu a área e chutou forte, de pé esquerdo, para vencer novamente o goleiro Enver Maric e dar números finais ao placar. No outro jogo, em Porto Alegre, Escócia e Tchecoslováquia empataram sem gols em partida fraca.

O Brasil abriu a última rodada jogando na quarta-feira, dia 5 de julho, voltando ao Maracanã para enfrentar a Escócia. Num jogo muito amarrado, com Billy Bremner e George Graham disputando o controle do meio-campo com os brasileiros, o placar só saiu do zero a oito minutos do fim, quando Rivelino recebeu na esquerda e alçou a bola para a área, encontrando Jairzinho que, de peixinho, mandou para as redes de Bobby Clark, selando a vitória e a classificação.

No dia seguinte, já sem chances de chegar à final, Iugoslávia e Tchecoslováquia decidiram quem disputaria o terceiro lugar do torneio jogando para apenas três mil pessoas no Pacaembu. Dusan Bajevic, num contra-ataque, abriu o placar para os balcânicos no primeiro tempo, e Dragan Dzajic marcou um golaço, driblando o marcador e encobrindo o goleiro Viktor para ampliar. Os tchecos tiveram um tento anulado, num lance de falta no goleiro Maric, mas acabaram descontando no fim depois que Boskovic tentou desviar um chute e acabou marcando contra.

Já no outro grupo, Argentina e Portugal, vindos da fase preliminar, enfrentaram-se já na estreia da etapa seguinte, no Maracanã. O jogo foi equilibrado e fraco até os 30 minutos. A partir daí, o domínio total foi português, com grande atuação de Eusébio, enquanto os argentinos erravam muito. Aos 33, o lateral-esquerdo Adolfo avançou, tabelou com Peres e bateu cruzado, vencendo o goleiro Miguel Ángel Santoro. Logo depois, veio o empate, com Miguel Ángel Brindisi chutando forte para estufar as redes de José Henrique, após confusão na área.

Mas Portugal ainda sairia para o intervalo em vantagem, depois que Ángel Bargas não conseguiu cortar o cruzamento de Adolfo, e Eusébio chegou antes para tocar para o gol. No segundo tempo, empurrados pelos cerca de 30 mil torcedores presentes ao Maracanã, os lusos ampliaram depois que Jordão recebeu na ponta, chutou forte e cruzado para a área e Dinis apareceu na segunda trave para escorar. Na outra partida da chave, a União Soviética resistiu à pressão do Uruguai e venceu por 1 a 0 no Pacaembu, gol do ponta-esquerda Vladimir Onishchenko.

A seleção soviética não trouxe para a Taça Independência a mesma equipe que havia sido vice-campeã da Eurocopa em Bruxelas no mês anterior. Em vez disso, foi representada quase integralmente pelo clube ucraniano Zarya Voroshilovgrad (atual Zorya Luhansk), que venceria de maneira surpreendente o título nacional naquele ano. Apenas Onishchenko, o autor do gol contra os uruguaios, fazia parte da seleção principal. Havia, porém, outros nomes experientes cedidos por outros clubes, como o atacante Anatoliy Byshovets, do Dínamo Kiev.

Na segunda rodada, dois resultados que embolaram o grupo. No Maracanã, portugueses e uruguaios empataram em 1 a 1, num jogo com domínio luso, mas que teve a Celeste abrindo o placar numa jogada aérea concluída pelo lateral Ricardo Pavoni. O empate de Portugal veio ainda no primeiro tempo, num belo chute do veterano meia Jaime Graça. No restante da partida, com chances de parte a parte, sobressaiu a marcação até violenta dos uruguaios.

Já no Mineirão, a Argentina se recuperou vencendo a União Soviética por 1 a 0, gol de José Omar Pastoriza, aos 26 minutos do primeiro tempo, num chutaço da entrada da área após uma sequência de cabeçadas. O adversário, porém, chegou a dominar o jogo nos primeiros 15 minutos e teve um pênalti claro de Ramón “Cacho” Heredia no lateral Sergei Kuznetzov não marcado pelo árbitro mexicano Alfonso González Archundía.

Na última rodada, com a presença de Stanley Rous entre o público, o Beira Rio assistiu ao clássico entre Argentina e Uruguai, que começou um tanto violento, mas esfriou com a chuva que caiu sobre o estádio. Numa partida tecnicamente fraca, os argentinos venceram contando com uma falha do goleiro uruguaio Alberto Carrasco, que aceitou um chute sem força de Oscar Más aos 39 minutos da etapa final. O resultado levou a Albiceleste à disputa do terceiro lugar.

A seleção da Argentina

A liderança do grupo e a vaga na final contra o Brasil ficaram mesmo com Portugal, que bateu a União Soviética no Mineirão por 1 a 0. Travado no primeiro tempo (o que provocou vaias do público mineiro), o jogo teve outro ritmo no segundo tempo, principalmente pelos portugueses terem marcado logo no primeiro minuto com Jordão. Os soviéticos chegaram a acertar a trave num chute de Vyacheslav Semyonov, mas não conseguiram empatar. A nota triste para os lusos foi o corte na perna sofrido por Eusébio, que se tornou dúvida para a final.

A decisão

Disputada em 9 de julho no Maracanã, a final teve como preliminar a decisão do terceiro lugar, na qual a Iugoslávia não teve dificuldade para bater a Argentina por 4 a 2. Bajevic abriu o placar, teve um outro gol anulado e, logo depois, bateu falta que Santoro deu rebote e Josip Katalinski aproveitou para ampliar. Na etapa final, Oscar Más descontou de pênalti aos 14, mas no minuto seguinte Dzajic, o melhor em campo, fez o terceiro dos balcânicos cobrando falta.

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Até que, aos 23 minutos, uma troca de socos entre o atacante Roque Avallay e Katalinski fez o tempo fechar. A briga, que teve participação até dos reservas, durou cerca de sete minutos e terminou com o lateral iugoslavo e Pastoriza expulsos. Após a batalha campal, o nível do jogo caiu, mas ainda houve tempo de Bajevic aproveitar erro de passe de Rubén Díaz defesa argentina e marcar o quarto, antes de Brindisi diminuir em novo pênalti.

A seleção de Portugal

Brasil e Portugal, por sua vez, fizeram uma partida tensa, repleta de drama e decidida apenas no fim. Ainda no primeiro tempo, a Seleção perdeu Marco Antônio, que sentiu a coxa e deu lugar a Rodrigues Neto aos 35 minutos. Na etapa final, Zagallo lançou o centroavante Dario no lugar de Leivinha, e o ataque brasileiro passou a incomodar mais, mas os lusos também levavam perigo em contra-ataques e chegaram a acertar o travessão num lance com Jordão.

Quando os portugueses já começavam a gastar o tempo aguardando a prorrogação, Jairzinho apanhou uma sobra da defesa portuguesa, fez jogada pela direita e foi derrubado pelo lateral Adolfo aparentemente dentro da área, mas o árbitro israelense Abraham Klein marcou falta fora, quase na linha de fundo. O camisa 7 chegou a se posicionar para bater, mas Rivelino pediu a bola. O meia levantou na área e o Furacão apareceu antes do goleiro José Henrique, desviando para as redes e pondo fim ao sufoco. Aos 43 minutos, êxtase no Maracanã.

Não houve tempo para mais nada em campo. No banco, Zagallo abraçava o supervisor Antônio do Passo. Nas tribunas, após o apito final, o capitão Gerson (que herdara a braçadeira do cortado Carlos Alberto) recebia a taça das mãos do presidente Emílio Garrastazu Médici. Por ironia, o meia, então já na descendente da carreira, faria ali sua despedida da Seleção. Brito (outro que não manteve o nível nos anos seguintes) e Tostão (que penduraria as chuteiras em breve) também nunca mais defenderiam o Brasil após a Minicopa.

Das oito seleções que disputaram a fase final do torneio, três não chegariam à Copa de 1974: mesmo com a campanha animadora na Minicopa, Portugal perderia a vaga no Mundial para a Bulgária. A Tchecoslováquia seria eliminada pela Escócia. E a União Soviética, depois de superar França e Irlanda em seu grupo europeu, decidiria não vir a Santiago enfrentar o Chile pela repescagem intercontinental, após ter rompido relações diplomáticas com o país andino em meio ao golpe militar que levou o general Augusto Pinochet ao poder.

Brasileiros dão a volta olímpica para comemorar o título

Se a Taça Independência não chegou a ser um sucesso de público (exceto nos jogos do Brasil e, em menor escala, de Portugal), nem agradou plenamente do ponto de vista técnico, serviu como prévia das dificuldades que o Brasil encontraria na Copa seguinte contra equipes mais fechadas do que no México. E contribuiu ainda para alimentar não só o clima de ufanismo incentivado pelo regime militar (que surfava na onda das conquistas do futebol), como também para impulsionar a candidatura de João Havelange à chefia da Fifa, vitoriosa dali a dois anos.

O jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas e também outras histórias alternativas do futebol. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.