Relatório Garcia compromete, mas não prova compra de votos para Copas 2018/2022

A Fifa divulgou nesta terça-feira o Relatório Garcia, que investigou as candidaturas das Copas do Mundo de 2018 e 2022. A decisão da entidade de não publicar o documento em 2014 levou Michael Garcia, o então responsável pelo Comitê de Ética que fazia a investigação, a pedir demissão.  O relatório tem mais de 400 páginas e traz muitas informações comprometedoras dos dirigentes, incluindo Ricardo Teixeira e Nicolás Leoz, além de comportamentos bastante questionáveis das candidaturas à sede das Copas, especialmente a do Catar. Os indícios de irregularidades existem, mas não há nenhuma prova de compra de votos.

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A divulgação do documento pela Fifa só veio porque o jornal alemão Bild recebeu uma cópia e anunciou na segunda-feira à noite uma série de reportagens sobre o assunto, a partir desta terça-feira. A defesa da Fifa, no comunicado da divulgação, é que o presidente Gianni Infantino pediu a publicação por diversas vezes e teve o seu pedido negado. A culpa? Dos dois funcionários demitidos recentemente.

“Isso foi pedido em diversas ocasiões pelo presidente da Fifa no passado e também apoiado pelo Conselho da Fifa desde o Congresso em maio de 2016. Apesar destes pedidos regulares, isso não valeu nada para os ex-presidentes do Comitê de Ética, Cornel Borbély e Hans-Joachim Eckert, que se recusaram a publicar”, diz o texto divulgado no site da Fifa. A entidade afirma que a primeira reunião da nova composição do Comitê de Ética, que será na próxima semana, iria discutir a publicação do relatório. Difícil acreditar quando a publicação só veio depois que o documento viria a público de qualquer jeito.

O repórter do Bild que obteve o documento – segundo a Fifa, de forma ilegal -, Peter Rossberg, escreveu no seu Facebook que no Relatório Garcia “não há prova definitiva que houve compra de votos para a Copas de 2018 e 2022”. Porém, mostra detalhes importantes que contribuiriam para evidenciar o que ele chama de “um sistema completamente corrupto”.

Isso fica muito claro quando se vê a forma absurda como as candidaturas trataram os 24 membros do Comitê Executivo que iriam votar e decidir quem receberia s Copas de 2018 e 2022. Fica claro que muitos daqueles dirigentes buscaram favorecimento pessoal das candidaturas. E não só a do Catar, embora ela fosse, de longe, a que tinha mais dinheiro e menos vergonha de fazer o que fosse preciso.

Mas se não há provas de compra de votos, então quer dizer que o processo de candidatura foi perfeitamente lícito? Não é bem assim.

Segundo o Bild, algumas coisas ficaram claras nos documentos. Entre elas:

– Três membros do Comitê Executivo da Fifa voaram para o Rio em um jato particular da federação de futebol do Catar antes da cotação para as sedes das Copas de 2018 e 2022.

– A Aspire Academy foi “usada de maneira decisiva na manipulação de membros da Fifa que tinham direito a voto”. Este é um ponto que pode revelar muitas coisas, especialmente em projetos de desenvolvimento do esporte em outras partes do mundo.

– Um membro do Comitê Executivo parabenizou dirigentes do Catar imediatamente depois da escolha do país como sede da Copa de 2022 e o agradeceu por e-mail a transferência de milhares de euros. O propósito da transferência não é explicitamente dito.

– A filha de 10 anos de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, recebeu – por assim dizer – US$ 2 milhões em uma conta poupança. O relatório diz que o pagamento foi feito pelo ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, que também foi presidente da Nike no Brasil e tem relações próximas com o ex-cartola brasileiro. Não há evidência, porém, que o dinheiro seja um pagamento de propina pelo voto no Catar.

Primeiras impressões

A Fifa sempre sustentou que as Copas de 2018 e 2022 seriam nos países vencedores do processo de candidatura votado em dezembro de 2010, Rússia e Catar, respectivamente. A publicação do Relatório Garcia, ainda que com a faca no pescoço pela reportagem do Bild, é um indício que a Fifa sabia que o relatório, mesmo sendo comprometedor, não seria impeditivo para que as Copas do Mundo fossem realizadas. Ainda que com muitos questionamentos a dirigentes que votaram por elas.

Ainda que não haja nenhuma prova de compra de votos, é preciso levar em conta como a investigação foi feita. Michael Garcia comandou o processo, mas teve problemas. A Fifa o contratou porque ele é conhecido por ser independente, mas não deu a ele todos os recursos para que as provas fossem de fato encontradas. Garcia fez pedidos para, por exemplo, ter acesso total a contas bancárias dos investigados, algo que foi negado.

Um sinal claro da falta de recursos está no fato que só cinco dos 22 membros do Comitê Executivo que votaram para as sedes das Copas de 2018 e 2022 cooperaram com as investigações (dois deles estavam suspensos por investigações de corrupção). Isso porque a participação na investigação de Garcia era voluntária. Não houve uma pressão da Fifa para que eles falassem, nem qualquer intimação em termos legais, algo que Garcia fazia no tempo que era procurador de Nova York.

Na Fifa, ele não tinha poder para obrigar ninguém a depor. Só depôs quem quis, só colaborou quem se dispôs a isso. Por isso, era esperado que ele não conseguisse provas concretas. Pudera: tudo isso aconteceu entre 2011 e 2014, o presidente da Fifa ainda era Joseph Blatter que, mesmo que não quisesse a Copa de 2022 no Catar, como de fato não queria, sabia que uma investigação espalharia sangue e o comprometeria.

Como acabou acontecendo, aliás, no Fifagate, deflagrado pelo FBI em maio de 2015. Os diversos membros envolvidos em corrupção acabaram caindo e o Departamento de Estado dos Estados Unidos seguiu puxando o fio do novelo para descobrir todo um esquema de corrupção. As acusações, porém, não estão relacionadas à escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022, diga-se, ao menos até aqui. A justiça suíça e francesa, porém, investiga o processo de escolha destas duas Copas e, como alguns dos votantes estão sob investigação do FBI por diversos crimes, ainda é possível que novas evidências surjam.

O documento é longo e tem muitos trechos comprometedores para os dirigentes, como Ricardo Teixeira. Também há muita evidência de abuso do poder econômico pelos dirigentes do Catar, que violaram diversas regras éticas para assegurar a Copa de 2022. O uso da Aspire Academy, uma entidade que tem, em tese, o objetivo de desenvolver o esporte no país, é bastante suspeito e deveria ser investigado. Não sabemos se será.

O envolvimento da candidatura do Catar com o governo e com os dirigentes também é bastante suspeito. Há evidências suficientes para muito mais investigações e o que podemos concluir é que a Fifa escolheu não publicar o documento justamente para abafar as investigações. Em si, o Relatório Garcia não traz provas, mas possui indícios que podem levar a muito mais.

A equipe da Trivela irá analisar o documento para trazer mais informações a respeito do assunto.